Maturidade e vida humana – parte I

  • William M. Torquato
  • 30 dez 2021

Falar sobre a vida humana nada mais é do que falar do homem de carne e osso, quero dizer, do homem que sofre, chora, sorri, acredita, sente, morre. O homem vive tudo isso porque faz parte da sua condição, de humano, esbarrar nessas circunstâncias enquanto existência – como condição necessária para que eu e você, leitor, homens concretos, possamos alcançar nossos objetivos existenciais. Para que serviria a existência humana, senão para o homem ser homem em todos os momentos? Para que ela serviria, senão para o homem ser capaz de usufruir de tudo que a vida humana tem a oferecer? Não fosse por isso, a existência humana simplesmente não teria sentido, bastando apenas existir por existir – por um simples capricho do acaso que, como se tivesse vontade, mas sem querer, deu à luz a uma existência milimetricamente bem sucedida.

A única maneira que o homem tem de buscar esses objetivos existenciais é através dos seus engajamentos com tudo aquilo que for possível fora dele. Esses engajamentos podem ser divididos em três categorias gerais: pessoas, mundo e Deus. Ao buscar seus engajamentos, o homem é confrontado com todos os tipos de obstáculos existenciais que fazem parte da condição humana: incerteza, medo, vergonha, desespero, angústia, sentimentos que paralisam até o mais corajoso dos homens, caso ele não esteja minimamente preparado. Mas, como alguém se prepara contra isso? O caminho mais prudente é o da maturidade.

É essa qualidade excepcional que dá ao homem os meios para enfrentar as incertezas inerentes ao futuro. Segundo as palavras de Dom Rafael Llano Cifuentes, ser maduro “é ter a capacidade de absorver as próprias experiências”, é aprender com o que foi vivido em outras circunstâncias e preparar-se, física e mentalmente, para as turbulências que estão por vir. Quando se compreende essa dimensão da vida humana, quero dizer, a incrível habilidade de extrair conhecimento da experiência vivida, o sofrimento passa a ser encarado de uma maneira completamente diferente, perde poder de intimidação perante nós, tornando-se plenamente superável ou, como disse Viktor Frankl, torna-se possível transcendê-lo.

Dissemos acima que o homem tem sua existência exatamente para exercer aquilo que ele é: ser homem. Esse modo de existir, que é comum a todos os homens, se desenvolve através dos engajamentos e projetos que cada um se propõe a realizar, e que está relacionado com a imagem da vida humana que cada um possui. A imagem desses projetos dá ao homem um norte – ao qual pode guiar e construir a própria biografia, uma ocupação que lhe afaste o tédio imediato e a melancolia da alma, mas que não necessariamente representam a imagem do verdadeiro propósito de cada homem.

O sentido da vida, paradoxalmente, revela-se com mais intensidade todas as vezes em que o homem se afasta dele, porque, intimamente, ele sente que está traindo a si mesmo ao ignorar aquilo que sente ser sua vocação – e isso ocorre, exatamente, pela falta de maturidade em grande parte das circunstâncias, por ainda não admitir para si mesmo o que realmente quer para a própria vida e ser capaz de suportar tudo aquilo que deixará de ter ao fazer tal escolha honesta.

O propósito, para cada homem, não é, existencialmente, uma escolha fácil de suportar – o homem de carne e osso, concreto, sofre ao escolher. Esse propósito é extremamente pesado, porque escolher não é uma tarefa fácil, e implica abandonar tantos outros caminhos que não somos capazes de contar, mas que , sem sombra de dúvidas, essa consciência, tendo escolhido cumprir o chamado singular – uns mais cedo, outros mais tarde – , garantirá que essa escolha não tenha sido feita sem a plena lucidez necessária – permitindo estarmos por inteiro em nossos projetos pessoais.

Os engajamentos com as outras pessoas, pelo fato de o homem nascer em sociedade, mostram-se seus primeiros contatos existenciais. É aqui que ele passa a compreender sua condição de humano, ao reconhecer no outro o modo de ser que é comum ao dele. E isso se dá, seja com as pessoas, o mundo ou Deus, do mesmo modo: sofrendo, alegrando-se, conversando, rindo, falando, buscando, chorando, vivendo. O contato com o outro é doloroso, mas também imensamente satisfatório, e isso é comum a todos os homens. Porém, o grau de contato é estritamente singular, porque leva em consideração a narrativa de cada um, quero dizer, “todos nós temos uma imagem da vida humana, e essa imagem determina em grande parte o nosso modo de existir, a nossa presença no mundo” . [1] Tiago Amorim

O meu sofrimento pode ser mais denso que o seu, leitor, da mesma forma que a sua alegria pode ser demasiadamente menor que a minha. Isso acontece porque enfrentamos a vida – apesar de estarmos no mesmo plano existencial, que nem sempre é simultâneo, eu poderia ser do passado e você do presente –, de maneira diferente um do outro, e essa diferença existe por causa dos engajamentos e das projeções que cada um enfrentou e fez – além, é claro, de como nos posicionamos diante dessas realidades. É a nossa biografia quem nos diz quem somos, nossa personalidade.

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1 Tiago Amorim
William M. Torquato

William M. Torquato é natural de Maceió. Acadêmico de Psicologia pelo Centro Universitário Maurício de Nassau, estudante autodidata de Filosofia, tomou gosto por contar e escrever histórias que nem sempre viram a luz dos olhos alheios.

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