Maturidade e vida humana – parte II

  • William M. Torquato
  • 4 jan 2022

Memória e razão, quando juntas, dão ao homem a possibilidade de adquirir uma das qualidades mais formidáveis para a vida humana – em todos os seus aspectos: a maturidade. O homem maduro é o homem prudente, que compreende sua condição de eterna imperfeição, mas que, por isso mesmo, busca realizar seus projetos com a mais limpa e cuidadosa honestidade. E busca isso não somente com seus projetos, mas também em suas relações com as pessoas. O homem maduro aprende a lidar com os mais variados tipos de personalidades exatamente porque sabe que “a diversidade do humano deve enriquecer a convivência, não destruí-la”. [1] Julián Marías Esse conhecimento honesto da realidade dá ao homem maduro uma vantagem existencial sobre todos os outros; não por ser melhor, mas porque compreende mais adequadamente sua própria condição, a vida humana concreta e sem ideologias – quero dizer: sem imagens falsas da realidade e de si mesmo – , como também as situações de todos os homens, afinal de contas: todos vivem sob o mesmo céu e partilham um mesmo modo de existir.

Esse conhecimento honesto da realidade é irrenunciável, como afirma Julián Marías. Não é possível ser infiel à realidade, pois, do contrário, o homem seria esmagadoramente castigado e atropelado. Criar imagens falsas de si mesmo é possível, até certa medida, mas criar falsificações da realidade é perda de tempo –  que não nos  leva a lugar algum, e é um completo gesto de imaturidade. O homem maduro é, portanto, comprometido com a realidade, e essa realidade não é apenas física, mas também humana, pessoal, social e histórica. Suas estruturas são complexas e bem mais difíceis de decifrar, mas nem por isso deixam de ser efetivas. Referente a essa estrutura, todo erro, seja ele qual for – como também a falta de respeito – , são pagos com desastres.

Vimos isso com Hitler, Stalin, Mao Tse Tung e outros falsificadores da realidade (como também de si mesmos). A ausência de maturidade, ou seja, a imaturidade, por parte daquele que é maduro, é sentida assim que se dialoga com o outro: rasa compreensão da realidade, frases feitas repetidas, sem sua total compreensão, pouco ou nenhum autoconhecimento, imagem falsa de si mesmo, negação da própria condição… Nos dias de hoje, quantos homens e mulheres estão exatamente nessa condição? Eu respondo: milhares! Nos dias atuais, a qualidade de ser maduro é uma raridade – para a infelicidade do humano. “Maturidade é a capacidade de absorver nossas próprias experiências”, essas são as sábias palavras de Dom Rafael Llano Cifuentes – que apesar de tão curtas, são, ao mesmo tempo,  profundas e verdadeiras, não deixando brechas para qualquer falsificação.

Falar de maturidade é falar de propósito e, também, falar do modo de existir do homem. É impossível não haver sentido naquilo que o homem faz, e vou explicar porquê isso é verdade. Caso prestemos a devida atenção em tudo que o homem faz, veremos que cada pequeno gesto ou movimento é realizado com um dado propósito extremamente claro – por mais que o gesto em questão seja realizado sem nenhuma reflexão, ou qualquer questionamento filosófico, sobre o porquê desse movimento ter acontecido. Dessa forma, quando um homem move um pé para frente do outro, e repete esse mesmo movimento com o outro pé, nessa repetitiva movimentação – em outras palavras, quando o homem está andando -, há um propósito ao realizar determinado movimento.

Até se a trajetória for alterada ou interrompida, por qualquer que seja o motivo, ainda assim houve um propósito – que não pode ser negado. Isso é algo óbvio, e o leitor pode considerar esse exemplo bastante grosseiro; entretanto, a verdade dessa obviedade é inquestionável e dispensa qualquer juízo de valor. O fato de não prestarmos atenção em nosso caminhar, não tira a verdade contida nele, muito menos o propósito real desse movimento. Eu poderia estender esse exemplo para inúmeras outras coisas, desde as menores até às mais grandiosas, e todas teriam esta característica comum. Então, porque muitos professam calorosamente que a vida não tem sentido, que não há propósito naquilo que os homens fazem e, que no fim, será tudo em vão? Acredito que a resposta esteja relacionada com a imagem que temos de nós mesmos.

Dissemos, no começo deste ensaio, que a imagem que temos de nós mesmos tem grande influência sobre o nosso modo de existir – porque é essa imagem pessoal que nos dá o material para as projeções que fazemos de nossas próprias vidas. Se alguém cria uma imagem falsa de si mesmo, consequentemente criará imagens falsas de si mesmo em projetos futuros. É uma relação de causa e efeito. Projetar é uma característica intrínseca ao homem, sob pena de uma morte biográfica, quero dizer, alguém que está biologicamente vivo, mas que não espera e nem projeta mais nada para a própria vida, é alguém que é levado por qualquer brisa – feito uma folha seca.

Esse é o pior dos perigos que uma imagem falsa causa na vida humana, porque não há somente a imagem falsa em si, quer dizer: o estado de ilusão ao qual a pessoa acredita ser algo que ela não é, mas há também a morte biográfica da pessoa humana – que nem mesmo tem forças para criar uma imagem falsa, pois não lhe resta nenhuma expectativa de projeção para um futuro a curto, médio ou longo prazo. Torna-se um morto-vivo, literalmente. As consequências naturais, desse estado de semi-vida, é o vazio existencial e a sensação de abandono por parte dos outros, do mundo, de Deus e de si mesmo – porque nem a própria pessoa confia mais nela mesma.

O interessante nisso tudo, é que o sentimento de falta de sentido ganha força sempre que caminhamos na direção oposta ao da nossa vocação. É paradoxal, mas uma verdade imutável. Isso acontece porque nós não podemos trair a nós mesmos, e o nosso íntimo sabe exatamente como cobrar qualquer tentativa de uma traição ou desvio. Quando mesmo assim decidimos não dar ouvidos ao nosso íntimo, porque somos livres para fazer nossas escolhas, sentimos medo – já que não sabemos se a nossa escolha foi realmente a escolha mais sensata. Geralmente, essa teimosia tem relação com a falta de maturidade da pessoa e, consequentemente, com o pouquíssimo conhecimento de si mesmo que os imaturos têm. A escolha da vocação é convergente com o autoconhecimento e com a maturidade; é uma relação extremamente íntima, que somente a pessoa pode realizar.

Por isso que o propósito na vida humana é tão complicado hoje em dia – onde as verdadeiras necessidades são jogadas para o canto, enquanto as trivialidades ganham um espaço que jamais deveriam ter.  Julián Marías disse algo muito apropriado sobre isso, que se aplica diretamente à vida humana: “Dever-se-ia fazer uma escala de apreços e pôr cada coisa em seu lugar”. Aquele que sabe colocar cada coisa em seu devido lugar, que entende a hierarquia da realidade, será mais eficaz em encontrar o propósito de cada coisa e, principalmente, o da sua própria vida.

 

 

 

References

References
1 Julián Marías
William M. Torquato

William M. Torquato é natural de Maceió. Acadêmico de Psicologia pelo Centro Universitário Maurício de Nassau, estudante autodidata de Filosofia, tomou gosto por contar e escrever histórias que nem sempre viram a luz dos olhos alheios.

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