O Conservadorismo e seu Inverso – Parte I

  • William M. Torquato
  • 10 fev 2022

Não é nenhuma novidade, para quem chega à universidade, em qualquer lugar do país, a hegemonia do pensamento mais à esquerda – especialmente nos cursos categorizados como de humanas: filosofia, história, psicologia, pedagogia, serviço social, ciências sociais, artes, literatura, etc. Qualquer um que negue isso está mentindo descaradamente, ou, apesar de ser pouco provável, vivendo numa realidade alternativa. Na verdade, não é nem mesmo preciso ser um especialista em política, ou um dedicado estudioso, para chegar a essa conclusão um tanto simples. Basta colocar os pés em qualquer bloco (ou em sua maioria) dos cursos citados acima, e olhar ao redor para ter a prova dos nove. Ora, sendo o pensamento de esquerda o dominante, e considerando o viés totalitário natural desses movimentos, quaisquer tentativas de emergir um pensamento contrário (como o conservadorismo e o liberalismo) são histericamente atacadas por todos os lados – taxadas como o mal do mundo e como um verdadeiro ultraje a mínima possibilidade de sua existência.

Assim, a instituição universitária, que deveria ser o espaço livre para o florescimento de todas as posições políticas, como veementemente defendem os militantes de esquerda, acaba por se tornar um ambiente autoritário e paradoxal – uma vez que são os próprios estudantes de esquerda os responsáveis pela tentativa de censura e humilhação pública dos demais estudantes que partilham de ideias diferentes, e, no entanto, são os mesmos estudantes que berram aos quatro cantos o direito de participação de todos os grupos. Uma das maneiras mais populares, que são utilizadas para atacar posições contrárias, é através do uso de espantalhos, ou seja: a criação de uma falsa imagem pelo interlocutor para sobrepor a imagem verdadeira, e, com isso, poder atacar o pensamento do adversário com base nessa falsa imagem. Ora, é muito mais fácil, para mim, dizer o que você é me baseando naquilo que eu mesmo criei, afinal de contas: não há possibilidade de erros, uma vez que fui eu o criador daquilo que o estou acusando.

Dessa maneira, após o ano de 64, políticos, intelectuais e a mídia de esquerda passaram a chamar todos aqueles que não partilhavam de sua ideologia de conservadores ou de direita – pejorativamente falando. Mesmo com o fim da Guerra Fria, sua influência no meio político e cultural brasileiro perduraria por décadas, continuando até os dias de hoje. Dessa maneira, com a esquerda tomando para si o status de “guerreira do bem”, falando em nome daqueles que lutam pela democracia e justiça social, gerou-se um maniqueísmo profundo e aparentemente inabalável no meio acadêmico e cultural: o sujeito, quando se autointitulava de esquerda, significava que lutaria em nome do bem e da moral, alguém que portava a tabula da virtude; por sua vez, alguém que se declarava como de direita, da mesma forma e com a mesma velocidade de categorização anterior, era considerado alguém mau, opressor, um inimigo do povo e, consequentemente, dos mais pobres.

Assim, um ambiente favorável ao pensamento mais à esquerda foi sendo cultivado ano após ano. Essa mesma esquerda transferiu todas as suas energias para o campo da cultura, ao perceber o potencial que havia ali – uma vez que a luta armada havia falhado junto com a derrocada da URSS e da expansão do socialismo no mundo. Certamente essa investida iria requerer tempo, seria uma batalha a longo prazo, de ocupação de espaços, como nos advertiu o filósofo Olavo de Carvalho. A esquerda tinha plena consciência desse fato e continuou fortificando seu ideal – dominando jornais, editoras, a própria política, a educação e todo o ambiente cultural.

Basta olhar ao redor para averiguar, com precisão, o que falamos aqui: tudo está infectado com uma cosmovisão mais à esquerda e a mentalidade revolucionária; livros do MEC mostram descaradamente países com regimes socialistas sendo comparados a paraísos na terra, onde o povo é livre, tem emprego, não há desigualdade, enquanto países que possuem uma economia de mercado mais livre (o que os marxistas chamam de capitalismo) como opressores, que roubam dos pobres para enriquecer, expondo falsas imagens e afirmações de empresários, como se estes fossem a encarnação do próprio mal. Quem nunca ouviu na escola algum professor afirmar claramente que ser empresário significava roubar dos pobres e que países socialistas representavam o paraíso na terra?

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William M. Torquato

William M. Torquato é natural de Maceió. Acadêmico de Psicologia pelo Centro Universitário Maurício de Nassau, estudante autodidata de Filosofia, tomou gosto por contar e escrever histórias que nem sempre viram a luz dos olhos alheios.

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