Temperamentos e Personalidade: aproximações e distanciamentos com a abordagem genética – Parte II

  • William M. Torquato
  • 31 mar 2022

Olhar para um homem não é o mesmo que olhar para um objeto – basta uma simples percepção para entender que uma cadeira não desperta o interesse em saber sua história; basta-nos a sua função, a causa final de Aristóteles, o seu “quê” específico, em suma, a sua presença revela o que se é, e isso é suficiente. Com o homem, no entanto, parece não ser possível realizar o mesmo processo investigativo, porque ele traz consigo um tipo de peso, uma densidade única e irrepetível que dificulta a redução feita com a cadeira. Ser homem, ao que parece, não se resume ao material, mas às virtualidades inerentes ao modo de ser humano, ou seja: o homem não é apenas o aqui e o agora, no presente – mas tudo o que ele foi e tudo que será – , pois é também virtualização e, por efeito, movimento. [1] MARSILI, 2018, itálico nosso

Reconhecendo o tamanho do homem como infinitamente maior que o meio – ao qual ele se manifesta, o corpo -, dá-se a impressão de não haver nada estável na constituição humana, nenhum elemento fixo que sirva de referência diante das constantes mudanças que fazem parte do ato de ser homem – o corpo, mesmo “finalizado”, sofre mudanças visíveis, transformações. É neste contexto que entra o temperamento, o “tempero” que faz parte de cada um – um tipo de filtro com características próprias que recebe e devolve as impressões do mundo de modo muito particular. “O temperamento não é só uma realidade corporal, nem afetiva, nem psíquica. Ele é como um chão onde se apoiam as nossas outras faculdades; é uma marca que temos, um filtro através do qual passam os elementos tanto do mundo interior quanto exterior”. [2] MARSILI, 2018, p. 27, itálico nosso

Segundo LAHAYE (2008), no entanto, os temperamentos podem ser quantificados até certo ponto, existindo algumas características, demarcadas claramente, que são positivas e negativas em cada um deles:

 

Tabela 1 – Quadro com as características de cada temperamento

TEMPERAMENTO QUALIDADES DEFEITOS
SANGUÍNEO Comunicativo, eminente, entusiasta, afável, simpático, bom companheiro, compreensivo, crédulo Pusilânime, volúvel, indisciplinado, impulsivo, inseguro, egocêntrico, barulhento, exagerado, medroso
COLÉRICO Enérgico, resoluto, independente, otimista, prático, eficiente, decidido, líder, audacioso Irascível, sarcástico, impaciente, prepotente, intolerante, vaidoso, autossuficiente, insensível, astucioso
MELANCÓLICO Habilidoso, minucioso, sensível, perfeccionista, esteta, idealista, leal, dedicado Egoísta, mal-humorado, pessimista, teórico, confuso, antissocial, crítico, vingativo, inflexível
FLEUMÁTICO Calmo, tranquilo, responsável, eficiente, conservador, prático, líder, diplomático, bem-humorado Calculista, temeroso, indeciso, contemplativo, desconfiado, pretensioso, introvertido, desmotivado

 

Seu método para abordar os temperamentos é baseado na classificação por porcentagem. Dessa forma, o homem possui todos os quatro temperamentos dentro de si, assim como os humores de Hipócrates, aos quais podem agir sobre o indivíduo, causando mudanças no seu comportamento. Assim, um indivíduo pode ser 40% melancólico, 30% colérico, 20% sanguíneo e 10% fleumático; também é possível um equilíbrio, ou seja: 50% fleumático e 50% melancólico. Quanto mais predominante for uma característica no indivíduo, mais fácil, segundo LaHaye, identificar o temperamento. Porém, caso as características de dois ou mais temperamentos possuírem forças semelhantes ou aproximadas, mais difícil será a identificação. LaHaye segue a linha dos temperamentos mistos. Um ponto ao qual ele chama a atenção é a distinção entre temperamento, caráter e personalidade – em que ele separa-os por níveis. [3] LAHAYE, 1967

O temperamento é a combinação de características congênitas que subconscientemente afetam o procedimento do indivíduo. Essas características são coordenadas geneticamente com base na nacionalidade, raça, sexo e outros fatores hereditários. Essas características são transmitidas pelos genes. Alguns psicólogos chegam a insinuar que herdamos mais genes dos nossos avós do que dos nossos pais. Esta seria a causa de algumas crianças se parecerem mais com os avós do que com os genitores. A formação das características do temperamento é tão imprevisível quanto a cor dos olhos, dos cabelos, ou da dimensão do corpo.

O caráter é o verdadeiro eu. […] É o resultado do temperamento natural burilado pela disciplina e educação recebidas na infância, pelos comportamentos básicos, crenças, princípios e motivações.

A personalidade é o semblante externo de nós mesmos, que pode ser ou não igual ao nosso caráter, dependendo de quão autêntico sejamos.

Frequentemente, a nossa personalidade é uma fachada agradável para um caráter desprezível ou medíocre. Muitas pessoas, hoje em dia, representam um papel, baseando a sua atuação naquilo que presumem que um indivíduo deva ser, e não no que elas realmente são.

Em resumo, o temperamento é a combinação de características com as quais nascemos; o caráter é o nosso temperamento “civilizado”; e a personalidade é o “rosto” que mostramos ao próximo“. [4] LAHAYE, 2008, p. 14-15, itálico nosso

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References

References
1 MARSILI, 2018, itálico nosso
2 MARSILI, 2018, p. 27, itálico nosso
3 LAHAYE, 1967
4 LAHAYE, 2008, p. 14-15, itálico nosso
William M. Torquato

William M. Torquato é natural de Maceió. Acadêmico de Psicologia pelo Centro Universitário Maurício de Nassau, estudante autodidata de Filosofia, tomou gosto por contar e escrever histórias que nem sempre viram a luz dos olhos alheios.

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