Uma introdução à Semiótica – Parte I

  • Isaac Denyon Fonseca
  • 7 fev 2022

Prezado leitor, esse texto tem como objetivo  apresentar uma relevante disciplina que há muito vem sendo renegada – tanto por sua complexidade, o que faz com que o seu domínio seja restrito a academia, como pelo desinteresse. A semiótica é uma ciência que estuda o signo linguístico, ou seja: tudo o que tem significado e nos transmite informações. Essa ideia é tão central para esta ciência que também é chamada de “teoria do significado” – que tem por função estudar a maneira como ocorre esse processo. A primeira corrente, talvez a mais importante dentre elas, foi criada pelo fundador da semiótica, Charles Sanders Peirce. Santaella (1985) nos conta que Peirce estudou lógica durante 60 anos – e interessou-se em torná-la uma ciência -, mas percebeu que ela mesma apresentava uma incompletude.

Carvalho nos diz que o motivo real é que: “Segundo Peirce, não temos nenhuma faculdade intuitiva e todo o nosso conhecimento é constituído de pensamentos feitos com signos, com base no conhecimento dos fatos externos. Porém estes fatos externos são conhecidos intuitivamente ou são também apenas signos? E como algo que não foi percebido intuitivamente poderia ser signo do que quer que fosse? Como conciliar a negação da evidência intuitiva com o conceito de “signo?“. [1] Sobre a sua lógica e os seus erros ler: <https://olavodecarvalho.org/nota-sobre-charles-s-peirce/>  Em outras palavras, o porquê de o signo ser incompleto deriva da negação de Peirce do conhecimento intuitivo. A razão disso pode ser rastreada até a passagem kantiana, onde há uma negação da possibilidade humana de conhecer a realidade. Embora nessa crítica de Carvalho, haja um esforço concentrado em questões de raciocínio intuitivo e definição de signos, vemos que o estudo da lógica, tão cara a Pierce, não teve o mesmo sucesso que muitos centros acadêmicos sugerem a seus alunos.

No início de seus estudos, Peirce acreditava que a lógica era um ramo da semiótica. Então, desenvolvendo essa ideia, a transformou em uma disciplina. O autor cria a ideia de que todo raciocínio, e todo pensamento, passam por signos, e , sem eles, nenhuma atividade intelectual seria possível. Portanto, o nascimento da semiótica está diretamente ligado às descobertas de Peirce sobre a lógica. No desenvolvimento dessa corrente, foram criadas algumas definições necessárias para a sua compreensão. A primeira noção importante a se ter é a do que seja o signo. Deledalle (2000) afirma que Peirce considerava o signo como algo que, quando aparece para alguém, significa algo, ou nas palavras do próprio autor “é algo que, para alguém, equivale a alguma coisa sob algum aspecto”. Podemos, com essa definição, entender o signo indo desde uma ideia, quando Anakin em Vingança dos Sith sonha com Amidala morrendo, até objetos, quando Seiya observa a urna da armadura de Pégaso.

Estes exemplos demonstram exatamente as características do signo na concepção de Peirce, “algo que para alguém equivale a alguma coisa”, e que, simultaneamente, é incompleto quando percebido por alguém. A questão central da semiótica peirceana é a representação dos objetos na mente, chamada interpretante. O signo é, portanto, composto por três elementos: objeto, signo apropriado e interpretante; ou seja: são os dados do mundo que criam os signos. Para que algo seja um signo, deve representar outra coisa: seu objeto. O signo é dirigido a alguém , e cria outro equivalente, uma interpretação, na mente desta pessoa. [2] Um exemplo prático, que pode ser mencionado, é quando uma pessoa olha para uma cadeira. A cadeira é o objeto, e, quando uma pessoa a olha – entendendo o que ela seja -, ela se torna um … Continue reading

Podemos ver como esse processo se desenrola em O Senhor dos Anéis, mais especificamente, nas relações que os vários personagens têm com o Um Anel. Ele é um objeto criado visando “para todos governar”, entretanto, somente poderá gerar os seus efeitos, caso um ser com inteligência o encontre, ou seja, com capacidade de entender as informações que ele transmite, o que em linguagem semiótica seria transformar o objeto em signo apropriado. Quando esse signo se torna apropriado, a mente usa o interpretante para entendê-lo de uma certa maneira – e é por isso que os personagens têm motivações distintas para o mesmo objeto. A relação entre esses três elementos constrói o signo conhecido como círculo triádico – caracterizado pela forma de um triângulo, em que cada um dos elementos ocupa uma extremidade.

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References

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1 Sobre a sua lógica e os seus erros ler: <https://olavodecarvalho.org/nota-sobre-charles-s-peirce/>
2  Um exemplo prático, que pode ser mencionado, é quando uma pessoa olha para uma cadeira. A cadeira é o objeto, e, quando uma pessoa a olha – entendendo o que ela seja -, ela se torna um signo apropriado, e este, quando trabalhado na mente, transforma-se em interpretante.
Isaac Denyon Fonseca

Isaac Denyon Fonseca, natural de Teresina, Piauí. Bacharel em Jornalismo e Licenciando em Língua Portuguesa/Inglesa. Estudante da obra de Mário Ferreira dos Santos e Louis Lavelle.

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