O insustentável peso da Verdade

  • Jon Brodsky
  • 29 set 2022

Sempre teremos condições de reagir diante de quaisquer circunstâncias ou contextos nos quais estamos inseridos. Tem pessoas que transformam seu contexto ruim em pior ainda, assim como há pessoas que transformam o seu pior em melhor, ou o seu melhor em melhor ainda. Qual o peso desta verdade?

Recai sobre nós a responsabilidade de encararmos as circunstâncias, e não deixarmos que por elas sejamos dominados. Quais são as verdades inexoráveis que temos de enfrentar hoje? Injustiça, mentiras, ostentações, julgamentos, falsidades, egoísmos, ódios, ganancias, cobiças, invejas, banalizações, perversidades – a lista é imensa. Sempre haverá situações em que, ora um será favorecido e o outro preterido; ora um será vaiado e o outro aplaudido; ora um será elogiado e o outro criticado, e ora um será exaltado e o outro humilhado.

Toda a realidade humana consistirá em verdades às quais deveremos enfrentá-las desta forma. Conclui-se, então, que as verdades são apenas negativas? A realidade é esse drama pessimista? Onde está a bondade, a justiça, a paz, a alegria, a felicidade, a sabedoria, a esperança, a fé, o amor, a caridade, em suma, o bem? Contudo, não precisaria escrever sobre a verdade se ela fosse apenas constituída do bem, pois bastaria apenas desfrutá-la em nossa mais sublime e perfeita harmonia.

No entanto, o que nos faz nos esforçarmos em reflexões, pensamentos, aprendizados e buscas pelos conhecimentos, é exatamente o fato de que, neste mundo, predomina o mal – mesmo contendo nele o bem. Não significa que o mal prevalecerá ou é mais potente e poderoso do que o bem, mas pelo simples fato de nossa natureza ser, em sua essência, má. Não nascemos bondosos e propensos ao bem. Nenhum bebê nasce sorrindo, nenhuma criança é obediente por natureza. Deixe um grupo de crianças abandonadas ao seu bel prazer, que não as encontraremos comportadas, disciplinadas e organizadas, ao contrário, nos depararemos com um caos total.

Somos ruins, maus, invejosos, mentirosos, gananciosos, egoístas e narcisistas por natureza. Você está preparado para aceitar o peso destas verdades? Ou você quer se autoiludir acreditando na utopia de que somos o “bom selvagem”, que o politicamente correto ideologicamente inoculou no imaginário social? Somos espíritos que se reencarnam para uma evolução perfeita? Você consegue se encarar no espelho de forma honesta consigo mesmo, procurando ter consciência de seus defeitos? É difícil, mas tem que ser assim mesmo, pois a verdade da nossa real condição humana nos humilha, machuca, fere e dói. Há um ego que necessita constantemente ser autoestimado, massageado, elogiado e acariciado.

Há uma vaidade que clama por aplausos, reconhecimentos – e que, com uma sensibilidade altamente delicada, deve ser “tocada” com luvas de pelica. Às vezes o peso da verdade nos esmaga, pois nos sentimos humilhados, maltratados, rejeitados, discriminados, injustiçados, como se, mesmo que nos esforçássemos tanto, e a todo instante, parecesse que nada acontece. Algumas vezes, nós desfalecemos, com vontade de jogar a toalha, chutar o pau da barraca, desistir e partir para tudo que for mais fácil, vantajoso e conveniente.

O desejo é o de deixar de ser bobo, e aproveitar as oportunidades ao máximo, pois o que vale é se dar bem – já que o sentimento de indignação e revolta se apodera de nós. Nos indignamos e não entendemos como pessoas tão imbecis, idiotas, más, desonestas e enganadoras podem ter sucesso. Será que o que vale é a lei da selva? Portanto, enfatizo que muito do que pensamos, sentimos, decidimos e fazemos está condicionado ao olhar alheio.

Nos permitimos ser escravos do que os outros pensam, mesmo sempre confessando que não. Na verdade, somos regidos pelos parâmetros desta sociedade hedonista, consumista e materialista. Mas a verdade absoluta, que é aquela dos valores e princípios estabelecidos por Deus, coloca sobre nós o seu peso – e quando o sentimos, percebemos que, na realidade, sempre interpretamos inadequadamente as nossas dores.

A verdade absoluta tem este poder de penetrar profundamente em nosso íntimo, para assim poder nos revelar através da própria verdade, e da nossa verdade, que é a de sempre estarmos procurando nos auto justificar. Significa que procurando justificar os nossos erros por causa dos nossos problemas, nos damos, internamente, licença para podermos exercer o “direito” ao tudo ou nada – e como não procuramos resolvê-los devidamente, nos fazemos de vítimas para assim exercemos o direito a “licença do ilegal”, seja no âmbito moral, legal ou espiritual.

Acreditamos ter o direito de exercemos a licença dos “fins justificam os meios”, afinal, o mundo é injusto, e não seremos nós que iremos mudá-lo. Sabe o que significa isso? Criamos um escapismo para não sentirmos o peso da verdade, pois este peso pesa – e tem um alto preço a ser pago. O peso da verdade será insustentável para aquela pessoa cuja mentalidade está moldada pelos parâmetros sociais. Esse peso será insustentável para aquele que não é capaz de interpretar o sofrimento como meio de crescimento e desenvolvimento do caráter e do espírito.

Ele será insustentável para aquele que não tem consciência de si, e que não é capaz de entender que todo conhecimento real só vem à luz como as dores de um parto. O peso da verdade será insustentável quando não aprendemos a negar o próprio ego para aceitar o Espírito de Deus se afirmar em nós. Em que medida, diante dos problemas reais desenvolvidos em nossos corações, isso nos favorece a renunciar nossas referências morais e éticas em nome de supostas vantagens e oportunidades?

Quantas pessoas têm minimamente acesso ao dinheiro, poder, prestígio, e se perdem de si mesmas, em seus orgulhos, arrogâncias e vaidades? O ego é o nosso demônio pessoal, e ele, almejando o controle total sobre todos os aspectos da vida humana, recusa-se minimamente a ser contrariado

Jon Brodsky

Jon Brodsky (Jonas Peres Loureiro). Nasceu em São Paulo, mas viveu no sul de Minas Gerais. Estudante de Medicina, deixou a faculdade para empreender no ramo de franquias nos 1990. Porém, nunca deixou sua atividade de escritor, sempre escrevendo e se aprofundando nos estudos de filosofia, frequentando seminários, lendo livros e se especializando. Foi professor da escola dominical e de estudos bíblicos. Todos os seus livros são embasados atualmente na filosofia de pensadores como Eric Voegelin,  Xavier Zubiri, Louis Lavelle, Kierkegaard, Eric Weil, Platão, Herman Dooyeweerd (Filosofia da Ideia Cosmonômica), Victor Frankl, João Calvino, Aristóteles, Ortega y Gasset, Edmund Burke, Nietzsche, Spinoza, Schopenhauer, David Hume, Kant, entre outros.

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