O anime e seus fundamentos Filosóficos – Parte I

  • Rodolfo Melo
  • 9 jan 2022

Caro leitor, este artigo é o comentário suplementar ao artigo do nosso convidado especial Ale Nagado, com a coautoria de Isaac Fonseca. [1] https://jornalcidadaniapopular.com.br/a-historia-da-cultura-pop-japonesa/   Como dissemos, em nosso itinerário, este Jornal é um “um espaço de reunião, de encontro, entre aspirantes a intelectuais, e a busca para que estes divirjam, aperfeiçoem-se, contrariem-se, debatam, e desenvolvam-se”, como também “cada colunista irá publicar artigos, que serão revisados por pares. Haverá réplicas entre estes, debates e discussões”. [2] Disponível em: https://jornalcidadaniapopular.com.br/jornal-cultural-o-que-e-e-o-que-queremos/   Assim, buscaremos desenvolver e debater sobre a Cultura Pop Japonesa; mas, enquanto nossos colegas partiram de uma abordagem histórica, queremos aqui partir de uma Filosófica.

Por que disso? I – não é raro vermos personalidades, influencers, repercutirem que “adulto que assiste Dragon Ball é um adulto que ainda não cresceu”, que anime é uma “cultura de pedofilia”, ou como nossas mães costumavam dizer “esse desenho é do capeta”, subestimando assim a força de um desenho em nossas vidas; II- partimos de uma abordagem filosófica para, filosoficamente, refutar tais argumentos; III- Tentaremos então rastrear o fundamento do anime, a Filosofia do anime; IV- com isso, esperamos assim provar que, ao contrário do que se pensa, o adulto que usa foto de anime, consome produto da Cultura Japonesa, assiste anime, ou mesmo adere a chama cultura “Otaku”, o faz não por ser “imaturo”, um “adulto que ainda não adquiriu responsabilidades”, mas sim por sentir no anime uma psicologia profunda, um simbolismo profundo, e uma concepção de mundo.

Pois bem, quem já não assistiu Naruto, Dragon Ball, Digimon, Histórias de fantasmas, Pokémon, etc? Acreditamos que a resposta, da quase totalidade dos leitores, seria: “gostava muito desses desenhos quando era criança”, ou mesmo “eles fizeram parte da minha infância”. Cabe-nos perguntar: por que esses desenhos foram tão marcantes em nossa infância, a ponto de serem o modelo do que fantasiamos da vida adulta? Por que Heman [3] Embora não seja um desenho da Cultura Japonesa; estamos o utilizando como fins de exemplo do termo: “desenho”   inspirou uma geração de homens da década de 80-90? Por que o Goku era o nosso modelo de homem honrado, forte, valente, guerreiro, gentil, sem que nem soubéssemos o que eram tais palavras? Seria isso aquela ingenuidade, aquela inocência, da criança? Ou haveria algo além, algo que nos atraia, e nos atrai até hoje?

Sobre isto, o colunista Isaac Fonseca nos diz que: “A arte sempre foi tema de incontáveis discussões sobre os mais variados pontos de vista. Entretanto, sempre houve um ponto que nunca a abandonou, não importa o quanto ela mude: a capacidade que tem de surpreender e influenciar aqueles que a consomem. Isso não seria diferente com a arte Oriental, mais especificamente a produzida no Japão (sendo conhecida como manga)“.

Para explicarmos essa capacidade da arte, usaremos dois autores, a saber: Tzvetan Todorov  e Susanne K. Langer. O primeiro vai nos dizer que a arte é uma “imitação em geral”, pois “não existe escrito estético da época que a isto se não refira; não há arte que a isto escape: a música e a dança “imitam”, assim como a pintura e a poesia. No entanto… Se a imitação fosse a única lei da arte, deveria conduzir ao desaparecimento da arte: esta deixaria de ser diferente da natureza “limitada””. Isto porque a arte “consiste numa modificação não da natureza da operação- ou seja, a própria acção de imitar-, mas do objecto sobre o qual ela incide… Deixa de se imitar simplesmente a natureza para se imitar a “natureza bela” , ou seja, a natureza “escolhida”, “corrigida”, em função de um ideal invisível“. [4] Todorov, 1996, p.126-128

Podemos dizer, então, que a arte é uma atividade humana que imita algo do mundo físico, sensível, visível, mas dando-o um “ideal invisível”, algo que desejamos, sentimos, vivenciamos, em suma:  representamos a coisa do mundo imitando-o – através de uma experiência individual, particular, do nosso espírito. A arte possui esse “ideal invisível”, que é também indizível, pois ela está além do que a linguagem é capaz de inferir, raciocinar. A arte “exprime qualquer coisa que não se pode dizer de nenhum outro modo”. Por ter essa “impossibilidade inicial”, a arte provoca uma actividade de compensação, que, em lugar do indizível central, diz uma infinidade de associações marginais… a ideia estética oferece–lhe, de facto, uma função invejável porque temos mais onde julgávamos possuir menos“. [5] Todorov, 1996, p.196

Por não conseguirmos raciocinar, dizer o que é, tornar a coisa totalmente apresentável aos nossos olhos, a arte nos dá esta impressão de ser vaga, deficiente, indizível, e, portanto, termos menos – quando, na verdade, temos mais. Ora, é a nossa “alma que anima a obra”; é a nossa imaginação, nossa fantasia, atividades da alma, que dão sentido a essa palavra “indizível” e “invisível” da arte. A alma animando os “atributos lógicos, que dão à imaginação um ímpeto de pensar, embora de maneira não explícita, mais do que se pode pensar num determinado conceito, e, por consequência, mais do que pode ser entendido numa determinada expressão“. [6] Ibidem  A linguagem da arte é a linguagem de uma “superabundância de sentidos”, mesmo “quando a explicação dos atributos lógicos e dos conceitos não possui a necessária clareza. Ou, como diz ainda Kant, ela “suscita em nós uma multidão de sensações e de representações secundárias, para as quais não se encontra nenhuma expressão”. A pluralidade de representações secundárias completa a falta de uma representação principal“. [7] Todorov, 1996, p.197

E sobre essa superabundância de sentidos, nos diz o Todorov: “Esse carácter irracional da arte manifesta-se em todo o processo que vai do criador ao consumidor: aquele nunca poderia explicar como produziu tal forma e este nunca conseguirá compreendê-la por completo… A linguagem verbal só pode exprimir o racional, o terrestre, o visível… Só o invisível que plana sobre nós não pode descer sobre a nossa alma ao ser chamado pelas palavras. A linguagem das palavras não apreende o invisível nem o contínuo“. [8] Ibidem Ora, dissemos que a arte é a atividade da alma, do espírito, que imita algo, através da imaginação ou fantasia – dando-a a nossa vivência, o nosso sentimento. Essa atividade é superabundante, pois vem do coração, daquilo que desejamos; é uma experiência em que vivo, sou –  sinto ao dar sentido a este “indizível”- ,  e não que “logifico”, raciocino, ou vejo o processo diante dos meus olhos.

Este processo não é racionalizável, porque, como ressalta Todorov: “A arte permite aos homens “apreender e compreender as coisas celestes e todo o seu poder”. A arte exprime coisas misteriosas que não posso exprimir por meio de palavras, [que] percebidas do ponto de vista da razão, parecerão sempre obscuras, misteriosas, indescritíveis“. [9] Todorov, 1996, p.198 E sobre este caráter celeste e misterioso da arte, nos diz Susanne Langer: “O primeiro reconhecimento destes [poderes] dá-se através do sentimento de vontade e desejo pessoal… que abstrai a sensação de poder das experiências práticas em que essa sensação é geralmente um fator obscuro… A dança [por exemplo] cria uma imagem de Poderes inominados e mesmo incorpóreos que preenchem uma esfera completa, autônoma, um mundo“. Para a Susanne, a dança é um “negócio intelectual”, porque é “a visualização de um mundo além do local e momento da existência animal da pessoa, a primeira concepção de vida com um todo- continua, viva, suprapessoal“. [10] Langer, 2019, p.199

Como a Susanne deixa claro, mais à frente, a dança pode ser entendida como um movimento, um ritmo, e é aqui onde entra o nosso assunto, qual seja: o anime, a figura bidimensional, como ritmo, movimento de cenas, que se sobrepõe, não só visualmente, mas neste “poder inanimado”, poder “celeste” – nesta experiência de que sou, sinto, vivo, imagino, que me movimenta a ver um outro mundo, além do mero sensível, dando-me uma concepção de vida pessoal-continua. Podemos dizer que o anime é o melhor exemplo do que o Todorov denomina de “Fantástico”: “Todos aqueles que abordaram a divindade, tanto os bárbaros como os gregos, esconderam os princípios das coisas, e transmitiram a verdade por meio de enigmas, de símbolos, de alegorías, de metáforas e de outros processos análogos; como por exemplo, os oráculos dos gregos… O divino não pode ser comunicado e exteriorizado na esfera da natureza senão de maneira indirecta“. [11] Todorov, 1996, p.199

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References

References
1 https://jornalcidadaniapopular.com.br/a-historia-da-cultura-pop-japonesa/
2 Disponível em: https://jornalcidadaniapopular.com.br/jornal-cultural-o-que-e-e-o-que-queremos/ 
3 Embora não seja um desenho da Cultura Japonesa; estamos o utilizando como fins de exemplo do termo: “desenho”
4 Todorov, 1996, p.126-128
5 Todorov, 1996, p.196
6 Ibidem
7 Todorov, 1996, p.197
8 Ibidem
9 Todorov, 1996, p.198
10 Langer, 2019, p.199
11 Todorov, 1996, p.199
Rodolfo Melo

Rodolfo Melo nasceu em João Pessoa – PB; é Presidente e Editor Chefe do Jornal Cidadania Popular; aluno do COF desde 2016, tendo feito também o curso “PSICOLOGÍA DE LA TEMPLANZA”, com o Psicólogo Tomista Martin Echavarría.

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