Onde as crianças e adolescentes moram é o primeiro local onde elas desenvolvem a imaginação. Uma casa deve lembrar o contato com a natureza, a humanidade e o contato com o transcendente, para que os seus filhos tenham referências imaginativas para ter uma boa educação imaginativa.
1§ A educação imaginativa em uma casa
Todos temos memórias afetivas da casa de nossa avó com jardins cheios de plantas, quadros de nossos bisavós, imagens de Santos e xícaras com ornamentos ou pinturas à mão. Sempre lembramos cada cantinho da casa de nossas avós que, por mais que não tivessem grande conhecimento estético, tinham dentro delas o conhecimento natural da preservação da tradição e da memória afetiva. Recordamos de cada canto; aquilo fica na nossa imaginação porque acabamos contemplando cada momento, cada pequena imagem que nos liga com o passado de nossa família, com toda uma tradição regional e, até mesmo, universal. Um espaço com ordem ajuda as crianças e os adolescentes a terem um contato com a tradição.
Segundo Fausto Zamboni:
“É necessário um princípio de Ordem que permita, em consonância com a estrutura da realidade, ordenar a alma e, a partir dela, a convivência humana. Como diz Edmund Husserl, “uma nação, uma coletividade humana vive e cria na plenitude de suas forças quando impulsiona-lhe a fé em si mesma, o bom sentido e a beleza de sua vida cultural”. Para buscar um ponto firme, é preciso voltar à Tradição e confrontá-la com a nossa situação e, através da arte da distinção, escolher entre as tradições que a Tradição oferece”. [1] ZAMBONI, Fausto. Contra a escola: ensaio sobre literatura, ensino e educação liberal. Campinas: Vide Editorial, 2016, p.202.
A arquitetura sacra precisa ser capaz de catequizar, não é à toa que as arquiteturas predominantemente cristãs, como a Gótica e a Barroca, nos trazem várias passagens bíblicas em pinturas e referências simbólicas na própria arquitetura, como os arcos das catedrais góticas que simbolizam uma ponte entre o céu e a terra. Toda a arte, todos os materiais usados, toda uma simbólica dentro de uma arquitetura sacra precisa ajudar a educar e catequizar os fiéis, senão o que pode acabar sobrando é puro sentimentalismo – ou pior.
Para o filósofo Olavo de Carvalho (1947-2022):
“Religiosos e leigos que não entendem o sentido dos edifícios onde oram estão, literalmente, perdidos no espaço. Mas a perda da compreensão dos símbolos é, ao mesmo tempo, a perda da ciência que eles veiculam. E esta ciência constitui, para dizer o mínimo, o único fundamento intelectualmente satisfatório de uma distinção entre o sagrado e o profano. Os que a perderam, por mais religiosos que sejam, estão condenados a curvar suas cabeças ante a ciência materialista, rebaixando-se ao ponto de esperar dela a legitimação racional da sua fé”. [2] CARVALHO, Olavo de. A filosofia e seu inverso: e outros estudos. Campinas: Vide Editorial, 2012, p.232.
Nossas casas precisam ser como catedrais, capazes de catequizar e educar nossos filhos. Já não temos mais fotos de nossos bisavôs nas paredes, perdemos o contato com nossas próprias raízes e com a tradição simbólica através de materiais como a madeira e a pedra, já não temos mais ornamentos, nossas salas são espaços brancos vazios somente com alguns móveis e a TV, que não desligamos nenhum minuto. O ambiente familiar é o primeiro local onde formamos nossas experiências mais decisivas; é ali que os pais precisam ter um ambiente capaz de ajudar na educação imaginativa dos filhos. Desde cedo, os pais precisam se preocupar com a educação imaginativa. É a partir do imaginário que conseguimos nos mover no mundo, que conseguimos argumentar sobre algo e tomar decisões na vida.
O crítico literário Northrop Frye (1912-1991), em seu livro “A Imaginação Educada”, nos diz que existe um nível mental que nos separa dos animais, um querer maior do que aquele querer básico. Para Frye, é nesse nível que está a imaginação, onde conseguimos harmonizar a consciência e a habilidade prática. Um João-de-barro é um pássaro que consegue construir seu ninho usando barro em um formato como se fosse um forno, mas, por mais que tenha alguma harmonia ali na forma meio arredondada, nada se compara a uma catedral gótica ou a uma casa Painted Ladies. [3] Painted Ladies são casas construídas em São Francisco entre o período da arquitetura vitoriana e eduardina.
De acordo com Frye:
“As ações humanas são motivadas pelo desejo, e alguns desses desejos são necessidades, como as de alimento, calor e abrigo. Outro desejo é o sexual, o desejo de se reproduzir e trazer à existência mais seres humanos. Mas há ainda o desejo de trazer à existência uma forma humana social: a forma das cidades, jardins e fazendas a que chamamos civilizações. Muitos animais e insetos também têm essa forma social, mas o ser humano é consciente de tê-la: ele é capaz de comparar o que faz com o que imagina poder fazer. Começamos então a perceber o lugar da imaginação no quadro das ocupações humanas. Ela é o poder de construir modelos possíveis da experiência humana”. [4] FRYE, Northrop. A imaginação educada. Campinas: Vide Editorial, 2017, p.18 [grifo nosso].
Já conseguimos perceber que a imaginação é o início do caminho do conhecimento. Sem uma educação imaginativa, não entendemos modelos reais e, nós, como seres humanos, precisamos nos educar e educar as crianças e adolescentes para desejar sempre aquilo que é belo, bom e verdadeiro. No início da Metafísica, Aristóteles diz que a visão é sensação que mais amamos, pois ela nos proporciona mais conhecimento do que as outras sensações. [5] ARISTÓTELES. Metafísica. São Paulo: Edição Loyola, 2002, p.8. A arquitetura é a arte ligada à visão; eu capto o que tem de bom em uma arquitetura através da visão, daquilo se organiza na minha imaginação e fica na minha memória, permitindo-me captar a experiência que pode influenciar-me ao longo da vida. Só agimos a partir dos conceitos de bondade e maldade, beleza e feiura, verdades e mentiras que temos na nossa imaginação.
2§ A Forma segue a função
Quando, em 1896, Louis Sullivan publicou, na Lippincott’s Monthly Magazine [6] Revista literária americana fundada no século XIX. , um artigo chamado “The Tall Office Building Artistically Considered”, ele abriu espaço para todo o pensamento da arquitetura moderna: “The architects of this land and generation are now brought face to face with something new under the sun,—namely, that evolution and integration of social conditions, that special grouping of them, that results in a demand for the erection of tall office buildings”. [7]Tradução nossa: “Os arquitetos desta terra e geração são agora confrontados com algo novo sob o sol – a saber, aquela evolução e integração das condições sociais, aquele … Continue reading Sullivan começa o artigo justamente falando das mudanças sociais devido à Revolução Industrial, famílias saindo do campo e indo morar nas cidades.
Logo depois, Sullivan demonstra como a modernidade facilitou a vida das pessoas com elevadores que podem fazer “viagens verticais mais rápidas e mais confortáveis”: “The invention and perfection of the high-speed elevator make vertical travel, that was once tedious and painful, now easy and comfortable”. [8]Tradução nossa: “A invenção e a perfeição do elevador de alta velocidade tornam a viagem vertical que antes era tediosa e dolorosa, agora fácil e confortável”. SULLIVAN, Louis. The tall … Continue reading Ora, isso é fácil de conseguirmos analisar: quantas pessoas que começam a trabalhar em escritórios começam a ficar mais obesas e com menos preparo físico? Afinal, o tempo de almoço é pequeno, dando tempo somente para um fast food. O tão glorioso elevador de Sullivan é, como sabemos atualmente, um meio de se exercitar menos; pegamos o elevador de um andar para o outro, e não subimos mais nem um andar de escada.
Em determinado ponto do artigo, Sullivan diz da importância da grandiosidade dos edifícios, e de como isso seria algo glorioso para os arquitetos, como se a cada andar fosse um aspecto eletrizante para o arquiteto. Como o próprio Sullivan diz: “Um aspecto emocionante do artista”:
“What is the chief characteristic of the tall office building? And at once we answer, it is lofty. This loftiness is to the artist-nature its thrilling aspect. It is the very open organ-tone in its appeal. It must be in turn the dominant chord in his expression. of it, the true excitant of his imagination. It must be tall, every inch of it tall. The force and power of altitude must be in it, the glory and pride of exaltation must be in it. It must be every inch a proud and soaring thing, rising in sheer exultation that from bottom to top it is a unit without a single dissenting line,—that it is the new, the unexpected”. [9]Tradução nossa: “Qual é a principal característica dos edifícios altos de escritórios? E imediatamente respondemos, é sublime. Essa grandeza é para a natureza do artista e seu aspecto … Continue reading
A ideia de grandeza arquitetônica simplesmente por ser grande é uma característica totalitária, visto que é uma espécie de domínio do homem sobre a natureza, como se o ser humano tivesse o domínio de moldar a natureza a seu prazer. A partir do momento em que desejamos essa grandeza arquitetônica sem a importância simbólica, desejamos não somente um controle social, mas um controle do ambiente também. Perdemos o olhar para o horizonte, perdemos o contato com as estrelas, o contato visual mesmo, perdemos o olhar para o céu, a partir do qual conseguimos contar o tempo. Não conseguimos enxergar o ambiente à nossa volta, a contagem do tempo natural. Mas o ponto principal do artigo de Louis Sullivan é sua famosa frase: “A forma segue a função”, uma frase que foi perdendo, cada vez mais, o sentido e esvaziando qualquer profundidade interpretativa.
O que Sullivan pensou para prédios de escritórios foi, posteriormente, sendo aplicado em casas e prédios familiares (residenciais, aglomerados, etc.) por arquitetos. A busca por altura, pelo simples utilitarismo e pragmatismo, é uma ideia que, além de tirar todo o significado simbólico da arquitetura, acaba moldando as pessoas a partir da estrutura arquitetônica, usando-a como uma espécie de controle social, regras e mais regras para construir com base utilitária, com base pragmática.
3§ Walter Gropius e a Bauhaus
A frase de Sullivan, “A forma segue a função”, não foi o grande problema, mas sim a base dela. Sullivan tentava resolver o problema do crescimento populacional nas cidades, colocando os escritórios na vertical, para economizar espaços. Isso abriu portas para uma nova revolução na arquitetura, saindo do espaço empresarial e tomando casas, escolas, igrejas, museus, prédios públicos, etc. Os novos arquitetos que começaram a surgir colocaram a ideia de progresso e tecnicismo além das expectativas esperadas, transformando a arquitetura em traços simples e sem representação simbólica.
“Para os novos arquitetos, a ciência e a indústria eram quase uma religião. Ao rejeitar todo e qualquer ornamento histórico, seus projetos aerodinâmicos deram forma à Idade da Máquina”. [10] STRICKLAND, Carol; BOSWELL, John. Arte Comentada: da pré-história ao pós-moderno. 8. ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999, p.146. Mas, quando colocamos algo material no lugar de algo transcendental, perdemos a perspectiva metafísica daquilo. Uma casa passa a ser “uma máquina de morar”, não mais o local onde guardamos memórias e afetos, o local que mais tem a representação do nosso “eu”.
“Quando falamos “eu”, empregamos a palavra para denotar nossa presença imediata num certo lugar e numa certa circunstância. Recebo, por exemplo, uma série de estímulos do meio exterior e me torno consciente deles – recebo-os e, de algum modo, recebo o recebimento. A consciência é esse segundo grau de percepção que vai além das meras sensações. Tanto é assim, que não noto todas as sensações, mas somente aquelas a que dou atenção”. [11] CARVALHO, Olavo de. A consciência de imortalidade. Campinas: Vide Editorial, 2021, p.18.
Se recebemos os estímulos do meio exterior, então, o nosso “eu” imediato é formado pelas sensações que recebemos. A arquitetura moderna é feita de traços retos e com materiais frios e artificiais, como, por exemplo: vidro, concreto, etc, enquanto a arquitetura tradicional usa materiais naturais como a pedra e a madeira, fazendo uma harmonia perfeita entre a sensação de frio e quente nos materiais. Percebemos essas sensações e percebemos a harmonia que ali está exposta. São Tomás de Aquino, na Suma Teológica, diz que para a beleza é necessário três condições: Integridade, Proporção e Claridade. [12]”Para la belleza se requiere lo siguiente: Primero, integridad o perfección, pues lo inacabado, por ser inacabado, es feo. También se requiere la debida proporción o armonía. Por último, se … Continue reading A proporção, São Tomás de Aquino coloca como Harmonia, pois ela é o equilíbrio de partes que produz uma sensação agradável e forma a ordem perfeita de um objeto. Quando Gropius concebe “edifícios totalmente em termos de tecnologia do século XX, sem referências ao passado” [13] STRICKLAND, Carol; BOSWELL, John. Arte Comentada… Op.cit. , perdemos as referências históricas e religiosas, perdemos os ornamentos, aquilo que dava pontos de suspiros nos prédios e casas.
Segundo Charles Sanders Peirce, um dos principais representantes da filosofia pragmática:
“O pragmatismo é uma doutrina correta apenas na medida em que se reconhece que a ação material é o mero aspecto exterior das ideias […] Mas o fim do pensamento é a ação na medida em que o fim da ação é outro pensamento, [e] […] das duas implicações do pragmatismo, de que os conceitos são dotados de propósito e que seus significados residem em suas concebíveis consequências práticas”. [14] IBRI, Ivo Assad. Kósmos Noétó: a arquitetura metafísica de Charles S. Peirce. São Paulo: Editora Perspectiva, 1992, p.98.
O pragmatismo, dessa forma, é pensado como uma teoria utilitária. O objeto vai depender de sua ação prática imediata e não da sua relação transcendente. Gropius seguia esse ideal em suas construções. Seus prédios eram utilitários, “eram simples caixas de vidro que se tornaram um clichê em termos mundiais”. [15] STRICKLAND, Carol; BOSWELL, John. Arte Comentada… Op.cit. Gropius era totalmente tomado pela ciência do século XX. Queria que a produção de seus prédios fosse em ritmo de produção em massa. Pregava que os arquitetos, para uma maior produção em massa, deixassem de lado o seu “eu pessoal” em favor da coletividade: “A arquitetura é uma arte coletiva”, dizia Gropius, incitando seus colegas da Bauhaus a colaborar como faziam os construtores das catedrais medievais. A arquitetura preconizada por ele obliterava a personalidade individual em favor de projetos viáveis para a produção em massa”. [16] Ibidem.
Gropius cita as catedrais góticas como exemplo de colaboração, mas as catedrais tinham um motivo que transcendia a própria obra. Os arquitetos, as pessoas que participavam das construções das catedrais, o faziam porque tinham a concepção de que aqueles monumentos eram como uma ponte que ligava o céu e a terra. As catedrais foram obras que deram um sentido de algo além do material para o medievo. Dessa maneira, “o Templo ressantifica continuamente o Mundo, uma vez que o representa e o contém ao mesmo tempo. Definitivamente, é graças ao Templo que o Mundo é ressantificado na sua totalidade”. [17] ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano: a essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 2019. p.56. As catedrais, igrejas, templos têm sua importância não somente na beleza física, mas na beleza ligada à bondade de purificação. Os templos não são meras construções em massa, assim como pensava Gropius.
Para Eliade: “[…] é evidente, por exemplo, na igreja bizantina. As quatro partes do interior da igreja simbolizam as quatro direções do mundo. O interior da igreja é o Universo. O altar é o paraíso, que foi transferido para o oriente. A porta imperial do altar denomina-se também porta do paraíso” [18] ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano… Op.cit., p.58. A colaboração nas catedrais medievais, era uma colaboração visando a purificação,a salvação, o contato com o que há de mais transcendente. Já Gropius pregava uma colaboração para uma mera produção em massa, um materialismo visível. A arquitetura trata-se muito mais de forma, símbolos, ornamentos e sentimento de pertença do que mero pragmatismo.
4§ Uma casa é um lar e não uma máquina
Uma casa não é uma máquina de morar, como Le Corbusier dizia. Uma casa é um lar, o local onde preservamos nossa intimidade, personalidade e construímos afetividade familiar. Vale mencionar que, segundo Ann Sussman, o arquiteto Le Corbusier tinha problemas psicológicos. Sussman aponta que “o autismo e o transtorno de estresse pós-traumático levaram ao estilo minimalista de Le Corbusier e Walter Gropius”. [19]SUSSMAN, Ann; CHEN, Katie. The mental disorders that gave us modern architecture. Common Edge, New Orleans, 22 ago. 2017. Disponível em: … Continue reading
Toda a arquitetura moderna tem início no contexto do caos gerado pela Primeira Guerra Mundial: “A história sustenta que o modernismo foi o impulso idealista que emergiu dos destroços físicos, morais e espirituais da Primeira Guerra Mundial. Embora também houvesse outros fatores em ação, essa explicação, embora indubitavelmente verdadeira, mostra um quadro incompleto”. [20] Ibidem. As neuroses desses arquitetos podem ser uma grande resposta para a fuga da representação humana na arquitetura moderna. Traços fixos e falta de ornamentação, verdadeiros blocos de concreto, a dificuldade que tinham de fazer desenhos, projetos mais elaborados, fazia-os resumir tudo a curvas retas.
Erwin Panofsky diz que os artistas abandonaram o estudo da Natureza e viciaram a arte pela ideia extravagante que se baseia na prática e não na imitação [21] Ver: Erwin Panofsky. Idea: a evolução do conceito de belo. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2013. , ou seja, no ponto da arquitetura moderna, os arquitetos, vistos como artistas deixaram de lado a imitação da natureza e começaram a querer mudá-la, desconstruí-la, à luz de seus próprios pensamentos egoístas. “Apesar de todo o seu gênio, Le Corbusier permaneceu completamente insensível a certos aspectos da existência humana”, escreve Weber em Le Corbusier: A Life (Knopf 2008). “Sua fé fervorosa em sua própria maneira de ver o cegou para o desejo das pessoas de manter o que mais apreciam (incluindo edifícios tradicionais) em suas vidas cotidianas”. [22] SUSSMAN, Ann; CHEN, Katie. The mental disorders that gave us… Op.cit.
A arquitetura moderna deixa de lado as relações humanas, as condições naturais do dia a dia das pessoas e foca em materiais, em formas geométricas irrelevantes, construindo espaços frios de espírito, longe do que é natural. Tentar educar os filhos em um local onde não há uma preocupação com a vida humana e com o contato com o transcendente é quase impossível. Jane Jacobs, em seu livro “Morte e Vida de Grandes Cidades”, conta de um acontecimento interessante: a experiência de um documentarista, Charles Guggenheim, ao observar crianças saindo de uma escola. Quando foi gravar um documentário, ele notou que as crianças que moravam em um conjunto habitacional tinham certo receio em voltar para casa, enquanto as crianças que moravam em bairros tradicionais voltavam tranquilas para casa.
Segundo Jacobs: “Guggenheim notou que o terreno ajardinado e o playground do conjunto habitacional eram extremamente desinteressantes; pareciam sempre desertos, em comparação com as ruas tradicionais da vizinhança, cheias de coisas interessantes, diversidades e elementos tanto para a máquina fotográfica quanto para a imaginação”. [23] JACOBS, Jane. Morte e vida de grandes cidades. São Paulo: Martins Fontes, 2011, p.82. Nesse exemplo, podemos notar como a arquitetura moderna desumaniza todo o espaço e transforma o ambiente em um local mais perto de uma grande fábrica do que um ambiente saudável para se viver. As crianças, nesses exemplos, tinham um afastamento da vida dos adultos e, consequentemente, de sua proteção, deixando o “mundo das crianças” e o “mundo dos adultos” muito distantes.
Para Jacobs, Guggenheim também percebeu que os bairros tradicionais tinham mais comércios e mais adultos nas ruas, algo que protegia as crianças de possíveis violências de crianças maiores: “Guggenheim descobriu que as crianças que voltavam para as ruas tradicionais não corriam o risco de extorsão. Elas tinham uma quantidade enorme de ruas para escolher e, espertas, escolhiam as mais seguras. ‘Se alguém implicasse com elas, havia sempre um comerciante a quem podiam recorrer ou alguém que as ajudasse’”. [24] Ibidem.
Várias vezes, andando pelas grandes cidades onde há uma predominância de arquitetura moderna, podemos notar espaços vazios, playgrounds, quadras de futebol ou basquete que geralmente são pontos de drogas, assaltos e violência. A vida adulta é afastada desses locais e os adolescentes e crianças constroem um nova sociedade nesses espaços onde domina o mais forte e não há responsabilidades. John Taylor Gatto afirma que: “Parece que perdemos nossa identidade. As crianças e os velhos são enjaulados e mantidos à distância das questões do mundo em um nível sem precedentes; As pessoas já não conversam com eles, e sem crianças e idosos misturando-se na vida cotidiana, a comunidade não tem futuro e nem passado, apenas um constante presente”. [25] GATTO, John Taylor. Emburrecimento programado: o currículo oculto da escolarização obrigatória. Campinas: Editora Kírion, 2019, p.91.
Desvinculamos os espaços das crianças e os espaços dos adultos; assim, criamos pessoas sem nenhuma experiência imaginativa do que é o mundo dos adultos ou deixamos que outros criem essas possibilidades para nossas crianças e adolescentes. É preciso que tenhamos mais espaços de convivência entre idosos e jovens, assim como era na antiguidade. Zamboni destaca que: “A verdadeira educação pressupunha uma ligação mais profunda entre o mestre e o discípulo, que se dava por meio do desejo de imitação do ‘herói espiritual’ (muito diferente da relação entre aluno e professor nos dias de hoje, frequentemente marcada pelo desprezo e a indiferença)”. [26] ZAMBONI, Fausto. Contra a escola… Op.cit., p.42.
Nos espaços urbanos, a arquitetura moderna conseguiu esse “grande feito”: separar o espaço dos adultos do espaço das crianças, fazendo com que as crianças e os adolescentes pudessem criar uma nova sociedade longe dos adultos, onde impera a lei do mais forte, onde começa a surgir o bullying. Veja como é a arquitetura das escolas a partir da década de 70 no Brasil: dois blocos de cimento com uma quadra de futebol ao lado; o espaço dos adultos é apenas a sala dos professores e a diretoria, onde os mesmos se trancam ali dentro no horário do recreio, deixando esse tempo totalmente dominado por essa sociedade de crianças e adolescentes que surgiu. Nesse tempo, eles usam o espaço para praticar todo tipo de vandalismo, bullying e, em muitas escolas, até vendas de drogas dentro do ambiente escolar. Gatto diz que “a verdade é que as escolas não ensinam nada, de fato, a não ser a obedecer a ordens” [27] GATTO, John Taylor. Emburrecimento programado… Op.cit., p.53. e na arquitetura escolar isso fica claro. Ela é planejada justamente para que os alunos sejam pequenos servos que precisam sentar em fileiras até escutar uma sirene para a próxima aula. Depois saem em corredores minúsculos em direção a um espaço de concreto todo cinza e sem nenhuma presença de humanidade, um espaço cinzento que mais lembra um pátio de fábrica do que um local que deveria ser para educar.
Toda a arquitetura escolar é voltada para a educação coletivista e não para a formação da personalidade humana. No recreio, as crianças têm somente um minúsculo playground para se divertir, pouca ou quase nenhuma presença de elementos naturais, um jardim pequeno que as crianças nem podem explorar direito sem escutar a professora ou a supervisora gritando para sair de perto das plantas. Não há algo que ascenda a curiosidade e a vontade de explorar das crianças e, como disse anteriormente, quase nenhuma presença de adultos nesse momento do recreio. Jacobs diz que “os urbanistas (e os arquitetos) parecem não perceber quão grande é a quantidade de adultos necessários para cuidar de crianças brincando. Parecem também não entender que espaço e equipamentos não cuidam de crianças. Estes podem ser complementos úteis, mas só pessoas cuidam de crianças e as incorporam à sociedade civilizada”. [28] JACOBS, Jane. Morte e vida de grandes cidades… Op.cit., p.89.
Não há uma loucura maior do que deixar que as crianças e os adolescentes passem tanto tempo sozinhos nesses espaços. Toda a arquitetura moderna trouxe consigo essa separação entre o mundo dos adultos e o mundo das crianças, até mesmo em nossas casas. Hoje, muitas casas têm o “quartinho de brinquedo”, um quarto reservado somente para as crianças brincarem e poderem jogar todos os brinquedos no chão. Se usamos a desculpa de que precisamos isolar as crianças para podermos manter a ordem, nós já perdemos a ordem. Afinal, se uma casa organizada, sem brinquedos espalhados, é mais importante do que a criação e a educação e o cuidado de nossas crianças, isso quer dizer que já perdemos a ordem e o senso de proporções, não é mesmo?
Separar os espaços em um lar dessa maneira é tirar a autoridade de perto das crianças, fazendo com que elas criem um mundo somente delas. Olhem o exemplo que citei acima dos playgrounds em condomínios planejados: esses lugares viraram pontos de drogas e violência entre adolescentes justamente porque se afastaram dos adultos, se afastaram daqueles que deveriam guiar os adolescentes para o caminho da bondade e da verdade. Não é por acaso que na antiguidade os jovens passavam parte de sua juventude no convívio com os mais velhos para aprender a entrar nesse caminho, para aprender a entrar na vida adulta. Zamboni indica que “a educação era, precipuamente, de ordem moral: formação do caráter, da personalidade […] O seu ideal era fazer um homem belo e bom. Era um processo que se desenvolvia na intimidade entre o aprendiz e um tutor”. [29] ZAMBONI, Fausto. Contra a escola… Op.cit., p.41. A arquitetura moderna nos afasta do transcendente, nos deixa presos no materialismo e nos afasta da metafísica. Vivemos em quadrados que parecem fábricas. Como é possível educar uma criança para conhecer algo além do material se vivemos em espaços totalmente materialistas?
Werner Jaeger aponta que:
“Existe e existiu sempre uma arte que prescinde dos problemas centrais do homem e tem de ser compreendida apenas pela sua ideia formal. E mais: existe uma arte que despreza os chamados assuntos elevados ou fica indiferente perante o conteúdo do seu objeto. É claro que esta frivolidade artística deliberada tem por sua vez efeitos ‘éticos’, pois desmascara sem qualquer consideração os valores falsos e convencionais, e atua como uma crítica purificadora”. [30] JAEGER, Werner. Paidéia: a formação do homem grego. São Paulo: Martins Fontes, 1995, p.63.
A educação imaginativa através do espaço de nosso lar é o que irá ajudar, de início, a formar e a educar as crianças e adolescentes. Conhecer quem foram seus bisavós, contar-lhes histórias de quadros artísticos, fotografias e histórias de santos, ter o contato com a natureza através dos jardins e de materiais como a madeira. À medida que o ideal materialista burguês foi entrando cada vez mais na sociedade e perdemos a conexão com as virtudes, com a beleza, com a bondade e a verdade, deixamos de lado os valores estéticos que criam afeto e memórias para as crianças e adolescentes. Perdemos a ligação com as virtudes e entregamos ao utilitarismo.
Segundo Santo Tomás de Aquino: “É da essência da virtude humana tornar bom um ato humano. Ora, entre outros atos seus, é próprio do homem deliberar, porque isso implica uma certa indagação racional sobre as ações que deve praticar e que lhe constituem a vida”. [31] AQUINO, Tomás de. Suma Teológica: segunda parte, questão 51, artigo 1. [S.l.]: [s.n.], [2012?]. Disponível em: https://hjg.com.ar/sumat/c/c51.html. Acesso em: 12 ago. 2023 [tradução nossa]. A vida em uma casa se constrói com ações humanas, mas com uso de materiais quentes como a madeira e a pedra e menos uso de materiais frios como o vidro e o mármore. O uso desses materiais já transforma a casa em um lar mais próximo da natureza e mais próximo do transcendente. Pensemos em ter casas com vida, casas com materiais naturais, materiais quentes, cômodos mais próximos, assim como são as casas de nossas avós.
À medida que a arquitetura moderna foi conquistando espaço e o pensamento materialista e tecnicista burguês foi avançando, fomos perdendo conexão com as virtudes reais, fomos perdendo o sentido do belo, do bom e do verdadeiro. Uma casa colonial de vó tem mais beleza que um prédio com grandes apartamentos na zona sul, justamente porque ali, na casa de vó, há vida, há conexões, há memórias. Conseguimos entender muito da história de nossa família simplesmente observando os detalhes da casa de nossas avós: os quadros, os retratos, as imagens religiosas e até mesmo os forros de mesa de renda. Tudo isso gera conexões com aquilo que está presente, gera memórias e, a partir delas, conseguimos entender nossas origens e formar nossa visão de mundo, porque todas aquelas imagens vão para a nossa imaginação, a partir da qual conseguimos agir no mundo.
Como vamos gerar memórias e imaginação em uma casa sem memória? Uma casa de concreto sem ornamentos, sem quadros e retratos familiares? Voltemos a ter uma ligação com as virtudes ao pensar em construir nossas casas e qual a finalidade das mesmas. Uma casa não é uma “máquina de morar”, é o nosso lar onde temos as nossas maiores intimidades, onde praticamos nossa vida espiritual mais íntima com Deus e onde educamos as nossas crianças e adolescentes. Comecemos a entender qual a finalidade real de uma casa e a importância de voltarmos a ter ligação com a natureza em nosso lar e as memórias presentes naquele espaço, termos mais prudência ao pensar no espaço do lar.
Ora, assim como diz São Tomás de Aquino, “a prudência não é senão um discernimento correto em relação a alguns atos e matérias” [32] AQUINO, Tomás de. Suma Teológica: segunda parte, questão 61, artigo 3. [S.l.]: [s.n.], [2012?]. Disponível em: https://hjg.com.ar/sumat/c/c61.html. Acesso em: 12 ago. 2023 [tradução nossa]. , lembro que as virtudes são o meio termo entre o moralismo e a libertinagem. Nesse sentido, pensemos nos espaços do lar não como perfeição na terra, mas espaços belos e que tenham vida, pessoas circulando, ações acontecendo, crianças brincando e não somente um espaço esteticamente perfeito e minimalista, mas sem nenhuma vida. Afinal, para se ter beleza é necessário que tenha vida no lar também.
References
| ↑1 | ZAMBONI, Fausto. Contra a escola: ensaio sobre literatura, ensino e educação liberal. Campinas: Vide Editorial, 2016, p.202. |
|---|---|
| ↑2 | CARVALHO, Olavo de. A filosofia e seu inverso: e outros estudos. Campinas: Vide Editorial, 2012, p.232. |
| ↑3 | Painted Ladies são casas construídas em São Francisco entre o período da arquitetura vitoriana e eduardina. |
| ↑4 | FRYE, Northrop. A imaginação educada. Campinas: Vide Editorial, 2017, p.18 [grifo nosso]. |
| ↑5 | ARISTÓTELES. Metafísica. São Paulo: Edição Loyola, 2002, p.8. |
| ↑6 | Revista literária americana fundada no século XIX. |
| ↑7 | Tradução nossa: “Os arquitetos desta terra e geração são agora confrontados com algo novo sob o sol – a saber, aquela evolução e integração das condições sociais, aquele agrupamento especial delas, que resulta na demanda pela construção de edifícios altos de escritórios”. SULLIVAN, Louis. The tall office building artistically considered. Lippincott´s Magazine, Philadelphia, v. 57, n. 340, p.403-409, abr.1896 [itálicos nossos]. Disponível em: https://ia601307.us.archive.org/29/items/tallofficebuildi00sull/tallofficebuildi00sull.pdf. Acesso em 12 out. 2023 [citado na p.403]. |
| ↑8 | Tradução nossa: “A invenção e a perfeição do elevador de alta velocidade tornam a viagem vertical que antes era tediosa e dolorosa, agora fácil e confortável”. SULLIVAN, Louis. The tall office building artistically… Op.cit., p.403 [itálico nosso]. |
| ↑9 | Tradução nossa: “Qual é a principal característica dos edifícios altos de escritórios? E imediatamente respondemos, é sublime. Essa grandeza é para a natureza do artista e seu aspecto emocionante. É o tom de órgão muito aberto em seu apelo. Deve ser, por sua vez, o acorde dominante em sua expressão. Dele, o verdadeiro excitante de sua imaginação. Deve ser alto, cada centímetro dele alto. A força e o poder da altitude devem estar nele, a glória e o orgulho da exaltação devem estar nele. Deve ser cada centímetro uma coisa orgulhosa e ascendente, elevando-se em pura exultação que, de baixo para cima, é uma unidade sem uma única linha dissidente – que é o novo, o inesperado”. SULLIVAN, Louis. The tall office building artistically… Op.cit., p.406, itálico nosso. |
| ↑10 | STRICKLAND, Carol; BOSWELL, John. Arte Comentada: da pré-história ao pós-moderno. 8. ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999, p.146. |
| ↑11 | CARVALHO, Olavo de. A consciência de imortalidade. Campinas: Vide Editorial, 2021, p.18. |
| ↑12 | ”Para la belleza se requiere lo siguiente: Primero, integridad o perfección, pues lo inacabado, por ser inacabado, es feo. También se requiere la debida proporción o armonía. Por último, se precisa la claridad, de ahí que lo que tiene nitidez de color sea llamado bello”. AQUINO, Tomás de. Suma Teológica: primeira parte, questão 39, artigo 8. [S.l.]: [s.n.], [2012?]. Disponível em: https://hjg.com.ar/sumat/a/c39.html. Acesso em: 12 ago. 2023 [tradução nossa]. |
| ↑13, ↑15 | STRICKLAND, Carol; BOSWELL, John. Arte Comentada… Op.cit. |
| ↑14 | IBRI, Ivo Assad. Kósmos Noétó: a arquitetura metafísica de Charles S. Peirce. São Paulo: Editora Perspectiva, 1992, p.98. |
| ↑16, ↑20, ↑24 | Ibidem. |
| ↑17 | ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano: a essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 2019. p.56. |
| ↑18 | ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano… Op.cit., p.58. |
| ↑19 | SUSSMAN, Ann; CHEN, Katie. The mental disorders that gave us modern architecture. Common Edge, New Orleans, 22 ago. 2017. Disponível em: https://commonedge.org/the-mental-disorders-that-gave-us-modern-architecture/. Acesso em: 02 mar. 2023 [tradução nossa]. |
| ↑21 | Ver: Erwin Panofsky. Idea: a evolução do conceito de belo. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2013. |
| ↑22 | SUSSMAN, Ann; CHEN, Katie. The mental disorders that gave us… Op.cit. |
| ↑23 | JACOBS, Jane. Morte e vida de grandes cidades. São Paulo: Martins Fontes, 2011, p.82. |
| ↑25 | GATTO, John Taylor. Emburrecimento programado: o currículo oculto da escolarização obrigatória. Campinas: Editora Kírion, 2019, p.91. |
| ↑26 | ZAMBONI, Fausto. Contra a escola… Op.cit., p.42. |
| ↑27 | GATTO, John Taylor. Emburrecimento programado… Op.cit., p.53. |
| ↑28 | JACOBS, Jane. Morte e vida de grandes cidades… Op.cit., p.89. |
| ↑29 | ZAMBONI, Fausto. Contra a escola… Op.cit., p.41. |
| ↑30 | JAEGER, Werner. Paidéia: a formação do homem grego. São Paulo: Martins Fontes, 1995, p.63. |
| ↑31 | AQUINO, Tomás de. Suma Teológica: segunda parte, questão 51, artigo 1. [S.l.]: [s.n.], [2012?]. Disponível em: https://hjg.com.ar/sumat/c/c51.html. Acesso em: 12 ago. 2023 [tradução nossa]. |
| ↑32 | AQUINO, Tomás de. Suma Teológica: segunda parte, questão 61, artigo 3. [S.l.]: [s.n.], [2012?]. Disponível em: https://hjg.com.ar/sumat/c/c61.html. Acesso em: 12 ago. 2023 [tradução nossa]. |