Tratado simbólico dos valores: um estudo onto-cosmológico da ordem – Parte III

  • Isaac Denyon Fonseca
  • 15 ago 2022

O escrito mais antigo que temos do universo criado por J.R.R. Tolkien é O Silmarillion. O primeiro capítulo, ao qual narra a origem de tudo o que será apresentado nas obras posteriores, AINULINDALË, traduzido como A Música dos Ainur, descreve – através do gênero conto – o modo como se deu o nascimento dos poderosos seres angelicais – que, através de sua música, criaram o universo. O primeiro personagem a que somos apresentados é Eru – que em Arda, à terra-média, local onde ocorre a maioria das histórias – é conhecido como Ilúvatar. Através de seu pensamento, ele cria seres de extremo poder chamados Ainur. A estes foram dados, no início, temas musicais – onde eles puderam descobrir, e treinar, suas artes musicais. Passado algum tempo, quando todos chegam ao nível de um entendimento profundo e harmônico entre si, foi-lhes confiado um tema poderoso.

Através deste, eles conseguiriam criar uma sinfonia, onde cada um complementaria, harmonicamente, a música do outro – e, com isso, seria criada a primeira Grande Música; uma segunda seria criada no fim dos tempos – sendo que aquela será muito maior. Através da sinfonia criada pelos Ainur, o que era vazio foi ocupado – e, já que não havia falhas na música entoada, Ilúvatar se agradou do que escutara. Somos, então, apresentados ao segundo personagem desse conto, qual seja: Melkor. Ele era o mais forte dos irmãos – tinha o seu próprio poder e ainda possuía os dons atribuídos dos outros. Quando a sinfonia estava tocando, ele começou a desejar ter mais poder do que era devido. O motivo desse desejo era que Melkor tinha o costume de ir ao vazio em busca da Chama Imperecível – poder do qual apenas Eru possuía acesso ilimitado -, enquanto seus irmãos usavam apenas aquilo que lhes foi cedido. Como não a encontrou, já que a Chama estava com Ilúvatar, ele ficava apenas com os seus pensamentos – aos quais começaram a lhe corromper.

Retornando ao momento em que a orquestra está sendo tocada, os pensamentos de Melkor – que ele concebeu enquanto estava no vazio – começam a ter efeito na música na qual ele estava tocando. Ele passa, então, a modificá-la segundo as intenções do seu coração, e os Ainur que estavam próximos dele ficam perturbados, perdem o ânimo – tornando a sua música fraca e hesitante. Começa, então, um evento que, sob certo ponto de vista, pode ser engraçado: apesar de haver aqueles que estavam titubeantes, alguns  gostaram do modo como Melkor estava tocando – e começaram a afinar a sua música com a dele. As melodias, às quais estavam sendo tocadas no início, foram abandonadas, e o que ficou no lugar delas foi apenas um mar tempestuoso – onde o som que se criava era violento e turbulento. Enquanto isso, Eru foi se sentar; ao escutar a música, tudo em volta do seu trono parecia um mar agitado em noites de tempestade sem fim.

Passado algum tempo, Eru se levanta e, diferentemente do que todo mundo poderia pensar, sorri. Então, temos uma nova batalha, pois ao se levantar, Ilúvatar levanta a sua mão esquerda, colocando-os para tocarem um novo tema, ao qual, em certos aspectos, era semelhante ao anterior. Melkor, porém, seguiu da forma que julgava ser a mais desafiadora, levando alguns Ainur a cessaram o seu canto – de modo que Melkor começou a ter autoridade de mando. Ilúvatar levantou-se novamente, e, dessa vez, o seu semblante era severo. Quando levantou a sua mão direita, lançou um terceiro tema, no qual diferia muito mais do anterior – pois era profundo, suave e doce, algo que poderia dar origem a melodias delicadas. Este não poderia ser extinto, e se forçava ao poder, e a profundidade, na sinfonia tocada.

Dessa forma, tinha-se a impressão que estavam sendo tocadas duas músicas em progresso – onde, diante do trono, elas eram completamente opostas. Uma era rica em beleza, suavidade – como uma tristeza que não se poderia medir. Já a outra era repetitiva, quase não possuía harmonia, mas era um uníssono clamoroso – como se várias trombetas estivessem sendo tocadas em poucas notas. Apesar da segunda – pela sua violência – tentar afogar a primeira, as suas maiores, e mais triunfantes, notas eram tomadas pela segunda – já que as notas eram repetidas sempre no mesmo padrão. No meio da briga entre as melodias – às quais faziam até mesmo os salões vibrarem – Eru, dessa vez, levantou-se  com uma expressão assombrosa.

Levantando as suas mãos, com apenas um acorde, a Música cessou. Ele, então, diz que todos os Ainur são poderosos, e que, dentre estes, Melkor é o mais poderoso. Diz também que nenhum tema pode ser tocado senão aquele ao qual tenha sido originado dele, assim como nenhuma música poderia ser tocada sem este ter autorizado. Se assim o tentar, descobrirá ter sido apenas um instrumento daquele, ou seja: ter sido usado para a criação de coisas mais maravilhosas do que jamais imaginou. Os Ainur, sem conseguir entender o que Eru quis dizer, ficaram temerosos. Melkor, por sua vez, sentindo-se humilhado, fica ressentido – nutrindo, assim, uma raiva secreta. Então, ele dirige-se às regiões produzidas para os Ainur – que o seguem.

A história se desenrola em uma série de eventos aos quais são um pouco mais internalizados pelos Ainur – como a primeira contemplação do mundo criada através da sinfonia tocada, a fala de Eru, a advertência a Melkor, e muitas outras coisas que não foram sequer relatadas.. No meio da contemplação do mundo criado, ele parecia pequeno comparado às forças possuídas pelos Ainur, ou a vastidão do universo – cheio de estrelas. Mas, quando observavam a beleza que o mundo teria – onde os Elfos e os humanos nasceriam -, Melkor convenceu a si mesmo que gostaria de produzir esforços na tentativa de atrair os seres para o bem – muito embora seus desejos secretos eram apenas pela dominação dos seres que estavam para nascer. Ser chamado de Senhor, e ser mestre de vontades, não parecia uma má ideia.

O lugar era apreciado pelos demais e eles queriam, cada um à sua maneira, prepará-lo para a chegada dos filhos de Ilúvatar. Depois de alguns eventos – onde, dentre estes, a neve é mostrada como sendo algo que veio da tentativa de ataque de Melkor às águas – , os Ainur se dirigem a Arda. Alguns ficaram com Ilúvatar; já os que foram ficaram conhecidos como Valar. Visto que foram, eles não poderiam mais retornar, até que tudo esteja completo. Dos que adentraram em Arda, os mais poderosos e belos viram que o mundo não estava terminado. Colocaram-se, para que tudo estivesse adequado à chegada dos primogênitos, a trabalhar. É narrado que Melkor atrapalhava em tudo – reivindicando, ainda, toda à terra enquanto esta ainda era jovem, a ponto de dizer que este seria o seu reino, e a ele daria o seu nome.

É, então, introduzido um personagem ao qual teve um papel importante no momento em que Eru colocou o segundo tema, qual seja: Manwë. Na mente de Ilúvatar, ele era irmão de Melkor, sendo também o meio principal usado contra o desacordo ao qual havia sido causado. Então, ele juntou todos os espíritos, dos mais poderosos aos mais fracos, e com isso conseguiu impedir a reivindicação de Arda por parte de Melkor. Disse também que todos trabalharam, por igual, na construção do lugar, e, assim, ele não tinha uma autoridade maior que a dos outros. Melkor retirou-se para outras regiões – e lá fez aquilo ao qual desejava em seu íntimo; entretanto, Arda ainda era o maior objeto de desejo que ele queria conquistar.

 

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Isaac Denyon Fonseca

Isaac Denyon Fonseca, natural de Teresina, Piauí. Bacharel em Jornalismo e Licenciando em Língua Portuguesa/Inglesa. Estudante da obra de Mário Ferreira dos Santos e Louis Lavelle.

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