Este artigo reconstrói o conceito de experiência pura em Kitarō Nishida (1870-1945) como tentativa de pensar a unidade originária da experiência anterior à distinção sujeito–objeto. Argumenta-se que a experiência pura não constitui um fundamento epistemológico, mas um nível lógico-ontológico no qual ainda não se instauraram as categorias de juízo, significado e normatividade. A partir de interpretações de Shizuteru Ueda, Ryōsuke Ōhashi e Lucas Murata, demonstra-se que sua anterioridade é estrutural, e não temporal, e que sua função consiste em explicitar o campo dinâmico de emergência das distinções que tornam possível o conhecimento. Introduz-se a noção de “momentum” como chave expositiva para compreender o caráter não substancial e processual dessa unidade originária. Conclui-se que a instabilidade conceitual da experiência pura não constitui um defeito, mas o índice do nível limítrofe em que a filosofia tenta pensar a gênese de suas próprias categorias.
§ Introdução
A noção de experiência imediata ocupa, desde o início da filosofia moderna, um lugar estruturalmente ambíguo. Por um lado, ela parece indispensável para explicar como o pensamento se ancora no real; por outro, resiste a toda tentativa de estabilização conceitual sem recorrer a distinções que ela própria deveria preceder. Sempre que a filosofia tenta pensar um nível originário da experiência anterior à cisão entre sujeito e objeto, emerge uma tensão recorrente: ou esse nível é reintegrado ao interior de uma epistemologia normativa, perdendo seu caráter originário, ou é acusado de ultrapassar os limites legítimos da razão conceitual e deslizar para o domínio do místico.
É nesse horizonte que se insere o debate em torno da noção de experiência pura (純粋経験, junsui keiken) formulada por Kitarō Nishida em Ensaio sobre o bem (善の研究, zen no kenkyū). Longe de ser um conceito marginal ou idiossincrático, a experiência pura representa uma tentativa sistemática de pensar a unidade originária da experiência antes da diferenciação reflexiva que estrutura a maior parte da linguagem filosófica moderna. A controvérsia que ela suscita, contudo, não pode ser adequadamente compreendida como um simples desacordo interpretativo sobre o sentido dos textos de Nishida. O que está em jogo é um conflito mais profundo, que atravessa a história da filosofia: o confronto entre dois regimes de inteligibilidade distintos. De um lado, encontra-se aquele que toma a distinção sujeito–objeto como condição intransponível de sentido. Nesse horizonte, falar de conhecimento, verdade ou experiência significativa implica, desde o início, a presença de normatividade, critérios de correção e inserção no espaço das razões.
Qualquer tentativa de pensar um “antes” dessa distinção aparece, inevitavelmente, como incoerente, vazia ou filosoficamente ilegítima. De outro lado, há outro que tenta pensar essa distinção como resultado, e não como pressuposto: um esforço de interrogar as condições ontológicas de possibilidade da própria epistemologia, mesmo ao custo de tensionar os limites da linguagem conceitual herdada. Nesse sentido, não é irrelevante que a recepção de Nishida ocorra, em grande parte, a partir de tradições filosóficas moldadas por um ideal de racionalidade no qual a distinção sujeito–objeto e o espaço das razões constituem o horizonte intransponível do sentido. Como observa Nishitani (1991) [1] Ver: NISHITANI, Keiji. Nishida Kitarō: the man and his thought. Berkeley: University of California Press, 1991. , a ciência e a filosofia ocidentais desenvolveram-se como formas de saber essencialmente racionais, lógicas e reveladoras, cuja criatividade opera pela produção gradual de novidade conceitual. Essa configuração histórica do filosofar ajuda a compreender por que tentativas de pensar um nível anterior à cisão sujeito–objeto tendem a ser imediatamente suspeitas de obscuridade, incoerência ou misticismo. [2]Ao longo deste artigo, “não-dualidade” não designa uma posição espiritual ou religiosa, mas uma estratégia filosófica voltada à suspensão metodológica da cisão sujeito–objeto como … Continue reading
Conforme visto no artigo anterior [3]Ver: NASCIMENTO JUNIOR, Walber Luiz Ribeiro do. Introdução a Kitarō Nishida: o bashô e a crítica heideggeriana do ser como posição. Jornal Cidadania Popular, João Pessoa, 04 abr. 2026. … Continue reading, nas últimas décadas, o pensamento de Kitarō Nishida vem conquistando uma presença cada vez mais consistente no debate filosófico brasileiro. Seu primeiro livro, publicado em 1911, Ensaio sobre o bem marca o início sistemático da filosofia de Nishida e ocupa um lugar singular na história do pensamento japonês moderno. Nesse texto, Nishida propõe a noção de experiência pura como ponto de partida absoluto da filosofia, entendida como a vivência imediata dos fatos antes de qualquer distinção reflexiva entre sujeito e objeto. Trata-se de um gesto filosófico ambicioso: pensar a unidade originária da experiência sem recorrer, desde o início, às categorias que estruturam a epistemologia moderna. É precisamente nesse gesto que reside tanto a maior força quanto a maior vulnerabilidade da filosofia inicial de Nishida.
A experiência pura pretende responder a uma exigência fundamental: evitar que a filosofia tome como pressuposto aquilo que ela deveria explicar; a cisão entre consciência e mundo, entre conhecer e ser conhecido. Ao mesmo tempo, ao tentar formular esse nível originário com a linguagem filosófica disponível, Nishida se expõe a ambiguidades conceituais que tornaram sua proposta alvo de críticas persistentes ao longo do século XX e início do XXI.
1§ O conceito de experiência pura em Nishida
O conceito de experiência pura ocupa, desde o início, uma posição ambígua e estratégica na filosofia de Nishida. Ele é apresentado como ponto de partida absoluto, mas não no sentido de um princípio deduzido ou de um fundamento epistemológico no interior de uma teoria do conhecimento. A experiência pura não é introduzida como uma resposta à pergunta sobre a validade do conhecimento, mas como uma tentativa de pensar o nível originário no qual algo como conhecimento, sujeito e objeto pode vir a emergir. Essa diferença de nível é decisiva para compreender tanto a força quanto a vulnerabilidade do conceito.
Nishida define a experiência pura como a experiência direta dos fatos “como eles são” [4] NISHIDA, Kitaro. Ensaio sobre o bem. Campinas: Editora Phi, 2016, p.23. , anterior a qualquer elaboração reflexiva, juízo ou discriminação. No entanto, essa caracterização não deve ser entendida como referência a um estado psicológico elementar, a um dado empírico bruto ou a um conteúdo imediato da consciência no sentido empirista. Desde o início, Nishida rejeita a identificação da experiência pura com aquilo que a psicologia experimental chamaria de sensação simples ou percepção elementar, chegando a afirmar que tais entidades são apenas hipóteses acadêmicas, e não experiências concretas e factuais. [5] NISHIDA, Kitaro. Ensaio sobre o bem… Op.cit., p.26. A experiência pura, portanto, não é simples por pobreza de estrutura, mas por ausência de cisão reflexiva.
Para evitar equívocos recorrentes, é necessário sublinhar que a experiência pura não designa um “algo” dado, isolável e descritível como objeto. Ela tampouco corresponde a um estado mental privilegiado que poderia ser recuperado por introspecção. Trata-se, antes, de um acontecimento originário, de um fato da consciência presente no qual ainda não se instaurou a distinção entre quem conhece e aquilo que é conhecido. Quando Nishida afirma que, nesse nível, não há ainda sujeito nem objeto, mas uma unidade rigorosa entre ambos [6] NISHIDA, Kitaro. Ensaio sobre… Op.cit., p.23. , ele não está negando a realidade da distinção, mas suspendendo-a metodologicamente para investigar sua gênese. É nesse sentido que a experiência pura deve ser compreendida como um momentum lógico-ontológico pré-reflexivo. [7]O termo momentum não é empregado por Nishida. Seu uso neste artigo constitui uma proposta conceitual do autor, destinada, de maneira provisória e conceitualmente controlada, ao caráter dinâmico … Continue reading Ela não é um estado imóvel que precederia o pensamento no tempo, nem um ponto zero da consciência a partir do qual tudo se seguiria linearmente. Seu caráter originário consiste em ser o campo dinâmico no qual a consciência se dá como fato presente, antes de se estabilizar em posições, significados ou juízos. A experiência pura é anterior à reflexão não porque esteja fora do tempo, mas porque constitui o plano no qual o tempo vivido, a atenção e a diferenciação podem surgir. Essa interpretação é exigida pelo próprio modo como Nishida descreve a experiência pura ao longo do Capítulo I do Ensaio sobre o Bem.
A unidade da experiência não exclui continuidade, desenvolvimento ou diferenciação; ao contrário, ela os torna possíveis. O desafio, portanto, consiste em reconstruir conceitualmente a experiência pura sem reduzi-la a um dado empírico, a um estado psicológico ou a um conhecimento proposicional, mas também sem neutralizar sua dinâmica interna, que impede que ela seja pensada como identidade substancial ou presença plena. É com esse objetivo que se procede, a seguir, à análise da experiência pura como anterioridade lógica, da não-dualidade como condição de emergência funcional de sujeito e objeto, e do uso inevitavelmente ambíguo do termo “conhecimento” em Nishida. Essa reconstrução não visa ainda defender o conceito contra suas críticas, mas esclarecer o nível em que ele opera e as exigências conceituais que impõe à linguagem filosófica.
2§ Experiência pura como anterioridade lógica, não temporal
Nishida introduz o conceito de experiência pura a partir de uma definição que, à primeira vista, parece simples, mas que rapidamente revela sua densidade problemática. Experiência, afirma ele, significa “conhecer os fatos como eles são”, isto é, conhecer em concordância com os fatos, “abandonando completamente nossas elaborações”. [8] NISHIDA, Kitaro. Ensaio sobre… Op.cit., p.23 e seguintes. O qualificativo “pura” não indica, portanto, uma experiência empobrecida ou elementar, mas uma experiência que ocorre antes de qualquer acréscimo reflexivo, antes de qualquer medida de juízo ou discriminação. O exemplo decisivo fornecido por Nishida é o da percepção sensível imediata: o instante em que vemos uma forma ou ouvimos um som é anterior não apenas ao pensamento de que se trata de um objeto externo percebido por um sujeito, mas também a qualquer determinação conceitual do que seja essa forma ou esse som. Nesse nível, “ainda não existe sujeito nem objeto”, ocorrendo uma “perfeita unidade entre o conhecimento e o seu objeto”. É essa unidade que Nishida chama de “supremo aspecto da experiência”.
Importa notar que esse “antes” não é cronológico. Nishida insiste que a experiência pura não é uma etapa inicial no tempo psicológico, logo substituída por formas mais elaboradas de consciência. Trata-se, antes, de uma anterioridade estrutural: toda reflexão, todo juízo e toda distinção pressupõem essa unidade originária como sua condição de possibilidade. Mesmo a recordação de uma experiência passada, quando ocorre, já não é a experiência pura original; trata-se de uma consciência presente que assume um novo sentido, irredutível ao passado como tal. [9] NISHIDA, Kitaro. Ensaio sobre… Op.cit., p.25 e seguintes. Do mesmo modo, aquilo que é analisado nunca é idêntico à consciência presente enquanto tal, pois a análise já opera sobre algo que deixou de ser imediato. Desse modo, por mais complexa que a experiência pura possa ser quando considerada retrospectivamente (enquanto síntese de experiências passadas ou enquanto passível de decomposição analítica), ela é sempre simples no instante de sua ocorrência. “Visto sob o ponto de vista da experiência pura, tudo é simples e originário em cada caso”. A simplicidade aqui não é pobreza de conteúdo, mas ausência de cisão reflexiva.
É nesse ponto que se torna possível introduzir, como chave expositiva, a noção de momentum da experiência pura. Embora Nishida não utilize esse termo, sua descrição exige que a experiência pura seja compreendida não como um estado imóvel, mas como um acontecimento originário, um “fato” que se dá no presente e cuja unidade não exclui a dinâmica interna. A experiência pura é anterior à distinção sujeito–objeto não porque esteja fora do tempo, mas porque constitui o campo dinâmico no interior do qual a diferenciação pode emergir. Sua anterioridade é lógica e ontológica [10]O uso do termo “ontológico” neste artigo não remete a uma ontologia de entidades ou substâncias, mas ao nível de descrição no qual se investiga a gênese das distinções que tornam … Continue reading, não cronológica. [11]A representação do Instinto Superior (Migatte no Gokui, 身勝手の極意) no mangá de Dragon Ball Super oferece uma analogia de modo particular fecunda (ainda que estritamente ilustrativa) para … Continue reading
Essa interpretação encontra respaldo na análise que Nishida faz da continuidade temporal do presente da experiência pura. O presente não é um ponto instantâneo que desaparece no momento em que é pensado; ele possui uma certa extensão e continuidade, vinculadas à atenção. Fenômenos como a “série perceptiva” [12] NISHIDA, Kitaro. Ensaio sobre… Op.cit., p.26 e seguintes. (exemplificada pela atenção contínua de um alpinista ou pela execução musical apaixonada) mostram que a experiência pura pode se estender no tempo sem perder seu caráter direto nem a unidade entre sujeito e objeto. A diferença entre a percepção instantânea e a série perceptiva é apenas de grau, não de natureza. A experiência pura, portanto, não é um ponto zero imóvel, mas um presente vivo, atravessado por um momentum interno que sustenta sua unidade ao longo do desenvolvimento da consciência.
3§ Não-dualidade e emergência funcional de sujeito e objeto
Como observa Murata (2024) [13]Ver: MURATA, L. E. S. A experiência pura em Nishida como conhecimento imediato da realidade. Revista Paranaense de Filosofia, Paraná, v. 4, n. 2, p. 99–117, 2024. Disponível em: … Continue reading, a experiência pura não deve ser compreendida como um conteúdo psicológico isolado nem como uma percepção sensorial atomizada, mas como o próprio campo unitário no qual a realidade se manifesta antes de qualquer cisão reflexiva. Trata-se de um conhecimento imediato apenas no sentido de não ser mediado por operações conceituais ou juízos proposicionais, e não no sentido de um acesso privilegiado a dados brutos da experiência. Enfatiza que a experiência pura não é um objeto do conhecimento, mas a própria realidade enquanto vivida antes da objetivação conceitual, sendo, portanto, irredutível tanto ao empirismo clássico quanto a uma epistemologia fundacionalista.
Essa caracterização converge com a leitura aqui proposta segundo a qual a experiência pura designa um momentum lógico-ontológico pré-reflexivo, e não um fundamento epistemológico no sentido tradicional. A imediaticidade em questão não diz respeito ao conteúdo da experiência, mas à sua posição estrutural na gênese da distinção sujeito–objeto. A consequência decisiva dessa concepção é a recusa de qualquer forma de substancialismo. Para Nishida, a consciência não surge como associação de fatores mentais simples, mas como um “sistema originariamente unitário”. Ele chega a caracterizar essa unidade originária como “caótica”, comparável à consciência de um recém-nascido que ainda não distingue entre luz e escuridão. Essa caracterização, longe de indicar confusão ou indistinção negativa, visa afirmar que a unidade precede logicamente toda diferenciação.
A multiplicidade dos estados mentais surge e se desenvolve a partir dessa unidade originária, mas sem jamais romper com ela. “Não importa quão detalhada seja sua fragmentação, ela não perde em momento algum a forma sistemática fundamental”. Mesmo na percepção imediata, a atenção se movimenta, acompanhando os movimentos dos olhos, e é esse movimento que possibilita a apreensão de uma totalidade. A unidade da consciência, portanto, não exclui a diferenciação; ela a sustenta. Nesse sentido, sujeito e objeto não são entidades dadas de antemão, mas diferenciações funcionais internas à experiência. Originariamente, “não existe na experiência uma distinção de interior e exterior” [14] NISHIDA, Kitaro. Ensaio sobre… Op.cit., p.27 e seguintes. ; o que a constitui como experiência é sua unidade, não suas modalidades. A distinção entre percepção e representação, por exemplo, não é absoluta: em certas condições (como nos sonhos), a representação pode confundir-se completamente com a percepção, assumindo o caráter de uma unidade experiencial não tematizada.
“Tendo estabelecido, então, a eliminação destes dois pressupostos — o dualismo e a noção de substância — Nishida alcança o grau mais fundamental da sua certeza: a unificação dos fenômenos da consciência, onde ainda não ocorreu a separação entre o sujeito e o objeto. Este estado é o que ele chama de experiência pura, isto é, a realidade como ela é (cf. NKZ 1, 11). Assim, a certeza resultante da sua dúvida metódica, e que serve como ponto de partida para sua investigação filosófica, não é uma certeza de natureza epistemológica, lógica ou linguística. Ela difere da certeza que resulta da análise de um juízo: trata-se da certeza da experiência pura, compreendida enquanto única realidade” (MURATA, 2024, p.105).
A emergência da distinção sujeito–objeto ocorre quando a experiência se separa da unidade presente e estabelece relações com outras consciências, isto é, quando entra no campo do significado. Trata-se, portanto, de um processo de diferenciação interna, e não da aplicação de uma estrutura externa à experiência. Aqui novamente se impõe a ideia de momentum: a unidade da experiência pura não é identidade imóvel, mas unidade tensional, cujo desenvolvimento e diferenciação não representam uma ruptura com sua origem, mas a explicitação progressiva de suas próprias determinações internas. Essa dinâmica aparece de modo particularmente claro na análise que Nishida faz da função unificadora da consciência. Assim como ocorre com realidades orgânicas, o sistema da consciência realiza sua totalidade por meio de um desenvolvimento e diferenciação ordenados de uma realidade unificadora. [15] NISHIDA, Kitaro. Ensaio sobre… Op.cit., p.28. Enquanto essa função unificadora opera de modo rigoroso, a totalidade se realiza como experiência pura; quando ela é bloqueada ou se separa, surgem a representação e a reflexão.
A compreensão da experiência pura como unidade originária não-dual, dotada de força unificadora, tem sido reiterada por leituras contemporâneas da obra de Nishida. Como observa Corrêa (2024) [16]Ver: CORRÊA, Juliane. Espaço livre da experiência pura-possibilidade de encontro e unificação. Annales Faje, Belo Horizonte, v. 9, n. 1, p. 177-177, 2024. Disponível em: … Continue reading, a separação sujeito–objeto pode ser compreendida como uma fratura ontológica característica do pensamento ocidental, cuja superação exige um deslocamento em direção a uma lógica que não tome a dualidade como ponto de partida. Nesse sentido, a experiência pura, não opera como fundamento epistemológico, mas como espaço originário de unificação, no qual a distinção sujeito–objeto pode emergir sem ser absolutizada. A experiência pura aparece, desse modo, como possibilidade de encontro e unificação, situada simultaneamente na realidade originária e no lugar do nada.
4§ O uso problemático do termo “conhecimento”
Um dos pontos mais delicados (e filosoficamente mais férteis) do texto de Nishida é o uso reiterado do termo “conhecimento” para caracterizar a experiência pura. À primeira vista, isso parece introduzir uma tensão: como falar em conhecimento onde ainda não há sujeito nem objeto, nem juízo, nem proposição? O próprio Nishida fornece elementos para esclarecer essa ambiguidade. A experiência pura, afirma ele, “é a intuição dos fatos como eles são e está desprovida de significado”. [17] NISHIDA, Kitaro. Ensaio sobre… Op.cit., p.29. Significado e juízo não acrescentam nada ao conteúdo da experiência; eles apenas estabelecem relações com outros fatores da consciência, abstraindo partes da riqueza originária da experiência. Quando discernimos uma cor como azul ou identificamos uma percepção como sendo uma escrivaninha, não enriquecemos a experiência, mas apenas a situamos em relação a experiências passadas.
O surgimento do significado e do juízo ocorre quando a unidade rigorosa da consciência é rompida, isto é, quando a consciência presente entra em relação com outras consciências e passa a ser analisada. Nesse sentido, experiência pura e significado não são realidades heterogêneas, mas “dois aspectos da consciência” [18] NISHIDA, Kitaro. Ensaio sobre… Op.cit., p.30. , duas formas de ver o mesmo processo. Toda consciência se desenvolve sistematicamente, e mesmo as formas mais reflexivas pressupõem, em seu pano de fundo, uma consciência unificada que torna possíveis as relações. É nesse contexto que o termo “conhecimento” deve ser compreendido. Ele não designa, em Nishida, um conhecimento proposicional, normativo ou justificável no espaço das razões. Designa, antes, o acontecer originário da consciência enquanto fato presente. A experiência pura é chamada de conhecimento apenas porque nela não há ainda separação entre conhecer e ser conhecido; trata-se de uma unidade imediata entre o fato e sua apreensão. [19] NISHIDA, Kitaro. Ensaio sobre… Op.cit., p.23.
Aqui, a noção de momentum permite esclarecer definitivamente a ambiguidade terminológica. O que Nishida descreve como “conhecimento” na experiência pura não é um ato epistêmico, mas o momentum lógico-ontológico no qual a consciência ainda não se estabilizou em posições, juízos ou critérios de validade. A linguagem filosófica herdada obriga Nishida a recorrer a termos como “conhecimento”, “intuição” ou “consciência”, mas o que está em jogo é um nível anterior à própria distinção entre conhecer e julgar. Essa instabilidade linguística não constitui uma falha acidental, mas o sinal de que Nishida está tentando pensar um nível da experiência que excede as categorias tradicionais da epistemologia. A experiência pura é conceitualmente instável porque tenta nomear, com os recursos da linguagem reflexiva, um campo pré-reflexivo no qual a própria possibilidade de sentido ainda está em formação.
5§ Conclusões
A reconstrução do conceito de experiência pura permite, assim, delinear com maior precisão seu estatuto filosófico. A experiência pura não é um estado psicológico originário, nem um dado empírico imediatamente disponível, nem tampouco uma forma embrionária de conhecimento proposicional. Ela designa o acontecer originário da consciência enquanto fato presente, no qual a unidade ainda não se diferenciou em sujeito e objeto, mas já contém, de modo imanente, a possibilidade dessa diferenciação. Essa unidade originária não deve ser confundida com indistinção caótica no sentido negativo. Embora Nishida recorra, em certos momentos, à imagem de uma unidade “caótica” [20] NISHIDA, Kitaro. Ensaio sobre… Op.cit., p.26. , o que está em jogo não é a ausência de estrutura, mas a precedência lógica da unidade sobre a distinção. A experiência pura é una porque é anterior à fragmentação reflexiva, e não porque careça de dinamismo interno.
Pelo contrário, como mostrou a análise da continuidade da atenção, da série perceptiva e do desenvolvimento sistemático da consciência, essa unidade é atravessada por um movimento interno, por um momentum que sustenta sua continuidade e torna possível sua diferenciação.
References
| ↑1 | Ver: NISHITANI, Keiji. Nishida Kitarō: the man and his thought. Berkeley: University of California Press, 1991. |
|---|---|
| ↑2 | Ao longo deste artigo, “não-dualidade” não designa uma posição espiritual ou religiosa, mas uma estratégia filosófica voltada à suspensão metodológica da cisão sujeito–objeto como pressuposto. Nesse sentido, a não-dualidade opera como problema filosófico estrutural, comparável a tentativas ocidentais de pensar a unidade originária da experiência sem reduzir-se a psicologismo ou metafísica substancialista. |
| ↑3 | Ver: NASCIMENTO JUNIOR, Walber Luiz Ribeiro do. Introdução a Kitarō Nishida: o bashô e a crítica heideggeriana do ser como posição. Jornal Cidadania Popular, João Pessoa, 04 abr. 2026. Disponível em: https://jornalcidadaniapopular.com.br/introducao-a-kitaro-nishida-o-basho-e-a-critica-heideggeriana-do-ser-como-posicao/. |
| ↑4 | NISHIDA, Kitaro. Ensaio sobre o bem. Campinas: Editora Phi, 2016, p.23. |
| ↑5 | NISHIDA, Kitaro. Ensaio sobre o bem… Op.cit., p.26. |
| ↑6 | NISHIDA, Kitaro. Ensaio sobre… Op.cit., p.23. |
| ↑7 | O termo momentum não é empregado por Nishida. Seu uso neste artigo constitui uma proposta conceitual do autor, destinada, de maneira provisória e conceitualmente controlada, ao caráter dinâmico e tensional da experiência pura tal como ela é descrita em Ensaio sobre o bem. Não se trata de introduzir um conceito estranho ao texto, mas de explicitar um traço estrutural já operante na análise nishidiana: a experiência pura como unidade originária que não é identidade imóvel, mas processo de diferenciação interna no qual a distinção sujeito–objeto pode emergir sem ser pressuposta. O uso do termo momentum busca, assim, evitar tanto a reificação psicológica da experiência quanto sua interpretação como dado estático, preservando seu estatuto lógico-ontológico pré-reflexivo. |
| ↑8 | NISHIDA, Kitaro. Ensaio sobre… Op.cit., p.23 e seguintes. |
| ↑9 | NISHIDA, Kitaro. Ensaio sobre… Op.cit., p.25 e seguintes. |
| ↑10 | O uso do termo “ontológico” neste artigo não remete a uma ontologia de entidades ou substâncias, mas ao nível de descrição no qual se investiga a gênese das distinções que tornam possível o discurso epistemológico. Trata-se, portanto, de um emprego metodológico do termo, voltado à explicitação das condições de possibilidade da própria normatividade, e não de uma metafísica concorrente às teorias do conhecimento. |
| ↑11 | A representação do Instinto Superior (Migatte no Gokui, 身勝手の極意) no mangá de Dragon Ball Super oferece uma analogia de modo particular fecunda (ainda que estritamente ilustrativa) para pensar a noção nishidiana de experiência pura. Diferente da adaptação animada, o mangá atribui a primeira manifestação efetiva desse estado não a Goku, mas a Mestre Kame, no arco do Torneio do Poder. Ali, o velho mestre não “ativa” uma técnica no sentido comum, nem opera por cálculo estratégico ou decisão reflexiva: seus movimentos surgem como resposta imediata à situação, sem deliberação consciente, permitindo-lhe inclusive esquivar-se e atingir Jiren, personagem que encarna a supremacia da força baseada na vontade e no domínio ativo. Trata-se de uma ação que não passa pelo “eu que decide”, mas emerge de um nível anterior à separação entre percepção e movimento. Essa configuração narrativa aproxima-se, por analogia estrutural, do que Nishida denomina experiência pura: um campo originário em que sujeito e objeto ainda não se encontram diferenciados por um ato reflexivo, e no qual o acontecer precede toda posição (Setzung) conceitual. Assim como no Instinto Superior a ação ocorre sem que o agente se coloque diante de si como sujeito que executa um gesto, na experiência pura não há ainda um “eu” que observa um “algo”; há apenas o aparecer enquanto tal. Percepção e ação, estímulo e resposta, não se sucedem como momentos distintos, mas coincidem num mesmo fluxo imediato. É decisivo, contudo, não absolutizar essa aproximação. O Instinto Superior permanece, mesmo no mangá, uma condição extraordinária, ligada ao corpo treinado, ao limite da técnica e ao desempenho excepcional (ainda que, ironicamente, só se realize quando a técnica já não é afirmada como técnica). A experiência pura, ao contrário, não designa um estado psicológico privilegiado nem um ápice místico acessível por treinamento, mas um nível lógico-ontológico fundamental: o “lugar” (bashô) que torna possível qualquer distinção posterior entre sujeito e objeto, entre ação deliberada e reação instintiva, entre consciência e mundo. Enquanto o Instinto Superior é um acontecimento dentro do mundo narrativo, a experiência pura é condição de possibilidade de qualquer acontecimento. Ainda assim, a analogia ilumina um ponto decisivo: tanto na concepção nishidiana quanto na representação do Instinto Superior, a maestria mais elevada não coincide com o máximo de afirmação do eu, mas com sua suspensão. A ação mais eficaz é aquela que ocorre quando o sujeito deixa de se interpor como centro controlador do acontecimento. Nesse sentido, o mangá de Dragon Ball Super oferece, talvez involuntariamente, uma figura contemporânea para um tema filosófico antigo: a ideia de que o agir verdadeiramente livre e preciso emerge não da intensificação da vontade, mas do seu recolhimento. |
| ↑12 | NISHIDA, Kitaro. Ensaio sobre… Op.cit., p.26 e seguintes. |
| ↑13 | Ver: MURATA, L. E. S. A experiência pura em Nishida como conhecimento imediato da realidade. Revista Paranaense de Filosofia, Paraná, v. 4, n. 2, p. 99–117, 2024. Disponível em: https://periodicos.unespar.edu.br/rpfilo/article/view/9780. |
| ↑14 | NISHIDA, Kitaro. Ensaio sobre… Op.cit., p.27 e seguintes. |
| ↑15 | NISHIDA, Kitaro. Ensaio sobre… Op.cit., p.28. |
| ↑16 | Ver: CORRÊA, Juliane. Espaço livre da experiência pura-possibilidade de encontro e unificação. Annales Faje, Belo Horizonte, v. 9, n. 1, p. 177-177, 2024. Disponível em: https://www.faje.edu.br/periodicos/index.php/annales/article/view/5598. |
| ↑17 | NISHIDA, Kitaro. Ensaio sobre… Op.cit., p.29. |
| ↑18 | NISHIDA, Kitaro. Ensaio sobre… Op.cit., p.30. |
| ↑19 | NISHIDA, Kitaro. Ensaio sobre… Op.cit., p.23. |
| ↑20 | NISHIDA, Kitaro. Ensaio sobre… Op.cit., p.26. |