A ECONOMIA DE FIDES: a confiança e sua relação com o desenvolvimento socioeconômico – Parte I

  • Yan Ribeiro Paes Barretto
  • 2 maio 2024

O objetivo geral deste trabalho [1]N.E. O presente artigo adapta o trabalho de conclusão de curso de Yan Ribeiro Paes Barretto, autor que gentilmente nos concedeu o direito de publicação. Ver: BARRETTO, Yan Ribeiro Paes. A Economia … Continue reading é verificar o efeito que o nível de confiança pode ter no desenvolvimento socioeconômico de países desenvolvidos e em desenvolvimento. Em vista disso, os objetivos específicos são: identificar as relações da confiança com o capital social e capital intelectual e verificar o grau de confiança nos países selecionados. Para tal, adotou-se o aporte teórico de Alain Peyrefitte. Sob essa ótica, a confiança pode ser considerada como um fator cultural que explique o desenvolvimento social e econômico, em oposição a fatores materiais como capital e trabalho. Quanto aos procedimentos metodológicos, empregou-se a técnica de dados em painel para estimar o impacto da confiança, em conjunto com as variáveis educação e investimento em P&D, sobre o PIB per capita.

Para este estudo, as fontes de dados utilizadas foram os bancos de dados do Banco Mundial e da World Valeus Survey (WVS) para os anos de 2009, 2014 e 2020. Os resultados da análise econométrica indicam que a confiança apresentou significância estatística sobre as variações do PIB per capita em conjunto com o nível de escolaridade da população de 25 anos ou mais de idade que concluiu, pelo menos, o ensino secundário e o investimento em P&D. As implicações destes resultados indicam que a confiança, em associação com outras variáveis, deve ser considerada em estudos sobre o desenvolvimento econômico dos países, em especial quando se considera sua relação com o capital social e o capital intelectual. 

 

1§ INTRODUÇÃO


Um questionamento pertinente na economia, e que Acemoglu e Robinson (2012) [2] ACEMOGLU, Daron; ROBINSON, James A. Por que as nações fracassam. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012. tentam responder, é o seguinte: Quais são os fatores que levam algumas nações a serem tão ricas e outras tão pobres? Como é sabido pelos economistas, o desenvolvimento econômico é um fator determinante e altamente significativo para a prosperidade das nações. Tal se traduz em aspectos que são característicos de sociedades que são bem estruturadas social e economicamente: bons níveis de renda per capita (o que leva a uma distribuição de renda com mais equidade); baixos níveis de desemprego geral (em contraste com o alto nível de emprego); infraestrutura adequada; nível de saúde geral elevado e assistência médica adequada às necessidades da população; altos índices de educação e alimentação populacionais; enfim, elevado grau de desenvolvimento humano.

Entre os aspectos citados, todos são fundamentalmente de caráter empírico e quantitativo, isto é, fatores materiais (Peyrefitte, 1999) [3] PEYREFITTE, Alain. A Sociedade de Confiança: Ensaio sobre as Origens e a Natureza do Desenvolvimento. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999. , os quais são comumente usados pelos estudiosos para a avaliação do desenvolvimento socioeconômico; contudo, é possível estudar as causas desse desenvolvimento pelos aspectos culturais das sociedades, ou seja, os fatores imateriais subjacentes ao indivíduo e às relações individuais. Entre tais fatores, um se destaca peremptoriamente, e que o presente estudo se dedica a explanar: a confiança. A questão da confiança é algo básico para as relações humanas. Possui caráter atemporal, e que perpassa as sociedades em todos os tempos. Na antiga Roma, Fidēs, era a personificação divina da confiança e da boa-fé (Peck, 1898) [4]PECK, Harry Thurston. Harpers Dictionary of Classical Antiquities. Perseus Hopper. New York: Harper and Brothers, 1898. Disponível em: … Continue reading; e como alegoria simbólica, podemos definir a economia pautada parcialmente pelo sentimento de confiança como a economia idealizada por Fidēs.

Passeti (2004) [5]PASSETI, Edson. Segurança, confiança e tolerância: comandos na sociedade de controle. São Paulo em Perspectiva, v.18, n.1, p. 151-160, 2004. Disponível em: … Continue reading constatou que é no âmbito interpessoal, nos seios familiares, nas tribos e nas diversas comunidades que a confiança se desenvolve, e que posteriormente avança para a configuração em sede de instituições, como a que existe na relação entre cidadão e governo (Estado); sendo que tais aspectos também incidem na esfera econômica. A predisposição do homem a algo ou alguém, de certo modo, se sustenta em suas convicções, conhecimento e na sua capacidade de confiar. No âmbito econômico, a confiança pode ser destacada de várias formas: Arrow (1972) [6] ARROW, Kenneth J. Gifts and exchanges. Philosophy & Public Affairs, p. 343-362, 1972. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/2265097. Acesso em: 21 jun. 2023. argumenta que a relação de confiança subjaz quase todas as relações comerciais. Fukuyama (1995) [7] FUKUYAMA, Francis. Trust: The social virtues and the creation of prosperity. Nova York: The Free Press, 1995. verificou, ao analisar a relação entre desenvolvimento e confiança, que a principal forma desta última afetar positivamente a renda é por meio da redução de custos nas transações comerciais.

Nunn, Qian e Wen (2018) [8] NUNN, Nathan; QIAN, Nancy; WEN, Jaya. Distrust and political turnover during economic crises. National Bureau of Economic Research, working paper n. 24187, 2018. , ao examinarem países que adotam democracia como regime de governo, identificaram que turnovers na política podem ser causados por recessões econômicas, e que ocorrem especialmente em nações que possuem baixos níveis de confiança. A confiança, como fator cultural-imaterial, já foi estudada por intelectuais que buscavam a relação daquele com o desenvolvimento das nações. Acemoglu e Robinson (2012) analisam o percurso econômico-social dos países através de uma interpretação institucional da história. Neste âmbito, a causa do “fracasso das nações”, em suas perspectivas, reside na disparidade institucional entre as nações: enquanto países mais desenvolvidos (e mais ricos) possuem instituições políticas e econômicas inclusivas, países menos desenvolvidos (e mais pobres) são regidos por instituições políticas e econômicas de cunho extrativista (Acemoglu; Robinson, 2012).

Em matéria de análise de sociologia/antropologia econômica, Peyrefitte (1999), em seu célebre livro A Sociedade de Confiança – Ensaio sobre as Origens e a Natureza do Desenvolvimento, realiza uma análise antropológica do desenvolvimento para identificar as causas do desenvolvimento econômico que vão além dos fatores materiais que são costumeiramente considerados pelos economistas, a saber: capital e trabalho. Em sua pesquisa, o autor destaca que foi preciso admitir um fator residual para explicar o desenvolvimento, e que este só poderia ser analisado se fosse levado em consideração os fatores culturais que estão implícitos nos comportamentos humanos (Peyrefitte, 1999). No que concerne ao capital social, este possui conexões com a concepção de confiança. Para Putnam, o capital social são práticas sociais, normas e relações de confiança que existem entre indivíduos em uma determinada sociedade; e pode ser considerado como sistemas de participação e associação que estimulam a cooperação (Putnam, 2006). [9] PUTNAM, Robert. Comunidade e Democracia: A experiência da Itália Moderna. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 2006.  

Coleman (1988 apud Santos; Pase; Matos, 2020) [10]SANTOS, Everton Rodrigo; PASE, Hemerson Luiz; MATOS, Isis Oliveira Bastos. A confiança como base para o desenvolvimento no Rio Grande do Sul. Um estudo na região metropolitana de Porto Alegre. … Continue reading argumenta que esse conjunto está ligado às relações de confiança que ampliam a capacidade de ação coletiva, e que facilita e otimiza os recursos socioeconômicos; o que leva a crer que é a confiança interpessoal que fortalece o capital social. Nesse sentido, a economia de confiança, a qual se caracteriza como um processo de vinculação social que interliga a noção de economia a de comunicação, e que leva aos estudiosos a refletirem sobre as formas de produzir e consumir bens e serviços por meio das práticas de compartilhamento e colaboração (Costa, 2020) [11] COSTA, Ramon Bezerra. Economia da confiança: comunicação, tecnologia e vinculação social. Curitiba: Editora Appris, 2020. , pode ser um instrumento analítico importante para o estudo da relação da confiança com o capital social e o capital intelectual (Do Rosário Cabrita, 2012). [12] DO ROSÁRIO CABRITA, Maria. Capital intelectual e desempenho organizacional no sector bancário português. Revista Portuguesa e Brasileira de Gestão, v. 11, n. 2-3, p. 63-73, 2012. De acordo com os achados da literatura, especialmente Peyrefitte, Acemoglu e Robinson, o presente trabalho tem o intuito de responder a seguinte pergunta: a confiança (trust) impacta no desenvolvimento socioeconômico dos países?

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References

References
1 N.E. O presente artigo adapta o trabalho de conclusão de curso de Yan Ribeiro Paes Barretto, autor que gentilmente nos concedeu o direito de publicação. Ver: BARRETTO, Yan Ribeiro Paes. A Economia de Fides: a confiança e sua relação com o desenvolvimento socioeconômico. 2024. 42f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Ciências Econômicas)  Faculdade de Estudos Sociais, Universidade Federal do Amazonas, Manaus. 2024.
2 ACEMOGLU, Daron; ROBINSON, James A. Por que as nações fracassam. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012.
3 PEYREFITTE, Alain. A Sociedade de Confiança: Ensaio sobre as Origens e a Natureza do Desenvolvimento. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999.
4 PECK, Harry Thurston. Harpers Dictionary of Classical Antiquities. Perseus Hopper. New York: Harper and Brothers, 1898. Disponível em: https://www.perseus.tufts.edu/hopper/text?doc=Perseus%3Atext%3A1999.04.0062%3Aalpha betic+letter%3DF%3Aentry+group%3D3%3Aentry%3Dfides2-harpers. Acesso em: 9 jun. 2023.
5 PASSETI, Edson. Segurança, confiança e tolerância: comandos na sociedade de controle. São Paulo em Perspectiva, v.18, n.1, p. 151-160, 2004. Disponível em: https://www.scielo.br/j/spp/a/pmD7b4zNkLPp6qjmQXY9Bfz/?lang=pt. Acesso em: 9 jun. 2023.
6 ARROW, Kenneth J. Gifts and exchanges. Philosophy & Public Affairs, p. 343-362, 1972. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/2265097. Acesso em: 21 jun. 2023.
7 FUKUYAMA, Francis. Trust: The social virtues and the creation of prosperity. Nova York: The Free Press, 1995.
8 NUNN, Nathan; QIAN, Nancy; WEN, Jaya. Distrust and political turnover during economic crises. National Bureau of Economic Research, working paper n. 24187, 2018.
9 PUTNAM, Robert. Comunidade e Democracia: A experiência da Itália Moderna. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 2006.
10 SANTOS, Everton Rodrigo; PASE, Hemerson Luiz; MATOS, Isis Oliveira Bastos. A confiança como base para o desenvolvimento no Rio Grande do Sul. Um estudo na região metropolitana de Porto Alegre. Redes. Revista do Desenvolvimento Regional, v. 25, n. 2, p. 652-670, 2020.
11 COSTA, Ramon Bezerra. Economia da confiança: comunicação, tecnologia e vinculação social. Curitiba: Editora Appris, 2020.
12 DO ROSÁRIO CABRITA, Maria. Capital intelectual e desempenho organizacional no sector bancário português. Revista Portuguesa e Brasileira de Gestão, v. 11, n. 2-3, p. 63-73, 2012.
Yan Ribeiro Paes Barretto

Yan Ribeiro Paes Barretto, é natural de Manaus, Amazonas. Discente em Ciências Econômicas na UFAM. Amante das ciências, artes e filosofias.

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