Tratado dos Valores de Louis Lavelle – Capítulos II e III

  • Louis Lavelle
  • 1 dez 2023

Prezado Leitor [1] Apresentação: Isaac Fonseca. , não é segredo que, quando o assunto são obras de cunho filosófico, a nossa terra sempre sofreu de carências. Aqui, obras essenciais, ou de leitura obrigatória e imprescindível, são privilégio de alguns poucos, que, não raramente, as vêem como sendo de pouco valor ou relevância. Infelizmente, o conhecimento, a alta cultura, não tem apreço nessas terras; logo, a verdade torna-se apenas uma diversão passageira e interessante, subordinada a interesses maiores e mais importantes.

Foi devido a essas, e outras necessidades, que tomamos as providências para lançar os dois capítulos restantes da monumental obra de Louis Lavelle Tratado dos Valores Tomo I — Teoria Geral dos Valores. Esse livro é composto, em sua internalidade, por 2 livros, sendo a primeira parte formada pelos capítulos: As diferentes acepções da palavra valor [2] O qual já foi traduzido por nós e está disponível em: https://jornalcidadaniapopular.com.br/tratado-dos-valores-de-louis-lavelle-capitulo-i/ , Sobre os sinônimos da palavra valor e A ideia de uma filosofia de valores. Com o lançamento destes dois últimos capítulos, terminamos o lançamento da primeira parte, a qual é intitulada O Valor na Linguagem. Contudo, devido à extensão demasiadamente curta dos dois capítulos finais, resolvemos trazer uma introdução ao fundamento da axiologia lavelliana, a qual está baseada no Capítulo VII do livro Les puissances du moi: La révélation de la valeur.

Apresentado os devidos contextos da obra, resta dizer que o lançamento desses capítulos é uma manifestação de resistência perante aqueles se impõem contra o alvorecer de uma intelectualidade a qual não se rende aos devaneios do mercado, que não teme o lançamento de obras não rentáveis, e que, dentro do possível, lutará com os meios que possui. Que o presente trabalho possa inspirar outros a continuarem o legado de Mário Dias Ferreira dos Santos, Louis Lavelle, Eric Voegelin, José Francisco Xavier Zubiri Apalategi, Raimundo de Farias Brito, Cornelio Fabro, Diego Mas, João de São Tomas, e diversos outros que a memória, o tempo e o espaço, não permitem citar. 

 


             INTRODUÇÃO

                          I 

A característica de Lavelle é a interpretação da consciência como uma relação entre o ser e o eu, ou melhor, como a presença total do ser ao eu. O ato de autoconstituição do eu, que tem liberdade própria, é o ato de sua participação no ser: é um ato participado que pressupõe o ato participante que é o do próprio ser; e é, portanto, em última análise, um ato de autoparticipação do ser em si. [3] Abbagnano, Nicola. STORIA DELLA FILOSOFIA: Dallo Spiritualismo all’Esistenzialismo. Volume 5, p.61, 2006. (Tradução nossa).

A filosofia de Lavelle pode ser definida como um espiritualismo ontológico. O futuro, diz Lavelle, “determinará nosso lugar no ser: mas já possuímos a experiência do próprio ser. Até que ponto nos será permitido assumir a nossa participação no ser, e que nível isso nos permitirá adquirir no ser, é o que permanece, para nós, incerto, e isso é suficiente para gerar, ao nos deparamos com o futuro, o sentimento em que o medo e a esperança estão sempre misturados”. Mas o futuro, na medida do possível, já existe, porque a ausência, que ele denuncia, já é uma presença. A consciência não pode identificar-se com uma única possibilidade, que seria, então, necessária em relação a ela; é “a unidade de possibilidade de todas as possibilidades”. [4] Ibidem. p. 62-63.

Louis Lavelle (1883 – 1951), filósofo francês e professor do Collège de France, deixou um impacto duradouro na filosofia do século XX por meio de obras como: Dialética do Mundo Sensível (1921) — Do Ser (1928) — Consciência de Si (1933) — A Presença Total (1934) — Eu e Seu Destino (1936) — Do Ato (1937) — O Erro de Narciso (1939) — Mal e Sofrimento (1940) — Filosofia Francesa entre as Duas Guerras (1942) — Tempo e Eternidade (1945)
Introdução à Ontologia (1947) — As Potências do Eu (1948) — Da Alma Humana (1951) –
O primeiro volume de um Tratado dos Valores, abrangendo a “Teoria Geral do Valor” (1951). [5] Idem.  

 

                              II

          O Valor na Linguagem [6] Introdução: Isaac Fonseca.  

A primeira parte do Volume 1, do Tratado dos Valores, propõe uma análise aprofundada da evolução semântica e das diversas dimensões da palavra “valor”, explorando seu impacto contemporâneo e a capacidade singular de revitalizar questões filosóficas clássicas. A abordagem metodológica destaca a importância de examinar os múltiplos significados que a palavra pode assumir, delineando, assim, a sua formação gradual e o seu constante enriquecimento.

As ressonâncias de cada acepção revelam-se como aspectos da realidade, evocada pela palavra, transcendendo definições restritas. A aplicação, em contextos, da palavra “valor” quebra a indiferença ou igualdade entre as coisas, sendo objeto de uma experiência comum manifestada na oposição natural entre diversos conceitos. O capítulo nomeado como Les différentes acceptations du mot valeur oferece uma análise abrangente da palavra “valor”, destacando, então, a sua relevância contemporânea e o seu papel na estruturação do pensamento e valoração humana, fundamentando-se, pois, em uma meticulosa investigação das múltiplas acepções do termo.

O segundo capítulo, Sur les synonymes du mot valeur, trabalha, por sua vez, o uso do valor e sua relação com as noções de Bem, Ideal, Fim, Perfeição, Norma, Interesse, Sentido e Significado. Nele, apesar de cada tema tratado ser, à primeira vista, independente, e não possuir relação – seja com anterior ou a posterior -, é notável uma hierarquia de como o valor interage e se integra em cada modo de ser e de se apresentar. O valor, portanto, não é produzido pelo homem, mediante uma exclusividade de suas preferências ou gostos, por alguma desigualdade diante de si, mas pelo mundo. O valor é algo intrínseco à realidade, cabendo a percepção apenas distingui-la, constatar seu sentido e, nessa fundamentação, o seu significado.

O terceiro capítulo, L’idée d’une philosophie des valeurs, aborda a axiologia, ciência dos valores, conceituando-a como o estudo do estimo ou apreço, derivado do grego ϐξιος, que denota o que é precioso. A pesquisa inicialmente se vincula à lógica, ao ter em vista discernir o critério do valor, análogo à lógica na busca pelo critério da verdade. Destaca-se a inseparabilidade entre a lógica e o conhecimento, evidenciada na aplicação do critério de valor a diversos conteúdos, paralela à busca pela verdade em cada domínio de conhecimento. A interdependência entre os problemas da lógica, conhecimento e valor é explicitada, sendo estes intrinsecamente ligados aos valores particulares. A abordagem, contudo, remete ao problema metafísico, delineando a natureza do valor como uma forma de ser que se contrapõe ao ser realizado, porque visa encarnar-se neste último. O texto, assim, sinaliza para a interconexão entre axiologia, lógica, conhecimento e metafísica, delineando um terreno de análise complexa e intrincada no estudo filosófico dos valores.

                                               ***

         Uma Introdução ao Estudo do Valor em Louis Lavelle [7]N.T: Texto baseado no capítulo Les puissances du moi. Obra que coaduna grande parte da filosofia lavelliana. Trata-se de uma síntese do capítulo La révélation de la valeur, o qual decidimos que … Continue reading 

O eu, como ser de desejo, deve discernir se o fim que persegue é alcançável ou passível de ser perdido, e é por meio do prazer e da dor que essa discriminação se torna possível. A consciência, contudo, não se contenta em sucumbir meramente a esses estados, e o eu não reside em seu gozo ou sofrimento, mas na atitude interior que adota em relação a eles. Enquanto permanece confundido com esses estados, o eu não transcende a animalidade. No entanto, a essência da mente está em preservar sua iniciativa diante de todos os objetos, eventos e choques que lhe são apresentados. Existe um ponto crítico no desenvolvimento de prazer e dor onde, ao continuar a experimentá-los, podemos dar um passo para trás, julgá-los e, em vez de nos deixarmos dominar por seus ataques, fixar nossa posição em relação a eles e determinar a vantagem que desejamos extrair.

Ao afirmar que o ser ama o prazer e detesta a dor, introduz-se, através desses sentimentos aparentemente escravizantes, um início de libertação. A consciência, no momento em que sua presença lhe é dada, não pode se esgotar em prazer ou dor, revelando, ao desejar prolongar o primeiro, certa independência e, ao escapar do segundo, o desejo de controlá-los. A percepção de uma duplicação entre o ato de sentir e o estado sentido é evidente, sendo o ato de sentir o fundamento do direito de existir. Para o eu buscar manter o prazer e afastar a dor, é necessário dominá-los, destacando a capacidade de resistir ou deleitar-se com tais estados. Mesmo que o sentimento tenha um caráter de passividade, ao apoderar-se de mim, a distinção entre eu e o sentimento é clara, permitindo resistência ou deleite, como afirmado por aqueles que o vinculam à influência corporal – considerando-o expressão da limitação, não da essência.

Prazer e dor representam a forma mais elementar e clara de uma diferenciação de valores, possivelmente servindo como a origem dos valores mais elevados. A consciência comum, de modo inequívoco, exalta o prazer como algo bom, atraindo-o naturalmente para preencher o vazio interno e conferir sentido à existência. Em contraste, ela se opõe veementemente à dor, repelindo-a como um inimigo que ameaça a própria vida. A sensibilidade e a inteligência, fundamentais para nossa vida interior, enfrentam a constante tentação de estagnar e dissolver-se. A inteligência, ao buscar a verdade através das sensações, corre o risco de ser por elas obscurecida. As sensações proporcionam o contato mais direto com a realidade, mas a faculdade de julgamento deve persistir diante delas. Assim, prazer e dor não devem apenas nos alertar para a presença do real, como a sensação faz, mas para seu valor. As coisas em si não conferem verdade, bem ou mal; essas características emergem na consciência quando ela se envolve em ações, decide afirmar e escolher. A beleza da vida reside na ausência de imposições externas, permitindo que uma mesma imagem nos ilumine ou cegue, que o puro se corrompa e o trivial se transfigure.

O prazer e a dor, inicialmente percebidos como fatores que me separam do mundo para concentrar minha atenção no interesse pessoal, têm, na realidade, a missão de enraizar minha vida em um universo que se realiza pela colaboração de todos os seus membros. Embora pareçam arrancar-me da indiferença, seu propósito é fazer-me sentir o valor do ser e da vida, obrigando-me a participar na atividade que perpetua o mundo. A verdadeira realização desses estados ocorre quando, em vez de nos absorver em nós mesmos, multiplicam as relações que nos conectam a tudo o que é, tornando-nos infinitamente sensíveis às ações no mundo. Pleitear prazer ou evitar dor não é suficiente para fornecer um critério indiscutível de valor, como acreditam os empiristas. Assim como a ciência nega o testemunho da sensação em favor de uma representação mais ordenada do mundo, nossa faculdade de preferir só pode ser abalada inicialmente pela atração do prazer ou pelo medo da dor.

No entanto, prazer e dor não revelam imediatamente valores indubitáveis; são questões de julgamento que exigem constante retificação, assim como a inteligência faz com a sensação, de modo a descobrir nela a verdade subjacente. O gozo ou sofrimento que experimentamos não é o que nos pertence; é como os aceitamos ou rejeitamos. O prazer, por vezes, pode obstruir nosso desenvolvimento interior, enquanto a dor, ao servir como prova, favorece e permite superação contínua. Nega-se o prazer e a dor externos para dar lugar a uma alegria ou sofrimento cujo princípio reside em nós, não fora de nós. A experiência do prazer e da dor inicialmente parece isolar o indivíduo, centrando a atenção em seu próprio interesse. Contudo, sua verdadeira finalidade é enraizar a vida pessoal em um universo que se realiza pela colaboração de todos os seus membros. Esses estados, ao se afastarem da indiferença, são instrumentos para sentir o valor do ser e da vida, exigindo a participação na atividade contínua que perpetua o mundo.

Sua contribuição para a formação da personalidade espiritual ocorre quando encontramos, por trás deles, o bem e o mal que apenas insinuam. A verdadeira realização acontece ao sermos afastados de nós mesmos, multiplicando relações que nos conectam a tudo, tornando-nos sensíveis a todas as ações no mundo, elevando-o ou rebaixando-o constantemente. A vida afetiva, assim como a intelectual, torna-se verdadeiramente nossa quando, indo além do contato passivo proporcionado pelo corpo com a natureza, a utilizamos como uma solicitação que exige nossa resposta pessoal. Podemos simplesmente viver essa vida ou exercer uma atividade de escolha que introduza luz e amor crescentes nas próprias experiências. Assim como o cientista explora a inteligibilidade que não abole, mas explica a sensação, todo ser desejoso de guiar sua própria conduta considera prazer e dor como matéria dada, transformando-os em meios de autoformação e instrumentos de compreensão, simpatia e benevolência para os outros. Sensação, prazer e dor, são proposições dirigidas a nós, e é nossa responsabilidade fazer o melhor uso delas. Seu valor único reside na implementação, podendo iluminar ou cegar, escravizar ou libertar.

Certos prazeres desviam e arruínam o eu, enquanto certas dores, aceitas e incorporadas à vontade e ao amor, conferem à vida uma gravidade e profundidade incomparáveis. A compreensão aprofundada de prazer e dor revela que não possuem estritamente um caráter egoísta, desmentindo a atribuição ocasional desse traço. Eles funcionam como testemunhas da maneira como permito ser afetado pelo que ocorre ao meu redor. Nesse contexto, minha sensibilidade é acionada, indicando um contato direto com a realidade, em que uma espécie de penetração ocorre entre mim e o ambiente, transcendendo a mera presença para adquirir significado e valor. Surge o interesse pelo potencial do ambiente, acompanhado do envolvimento da força de desejo e a assunção de responsabilidade em relação a ele.

Enquanto a inteligência percebe todas as coisas em um mesmo plano, a intervenção da afetividade introduz uma diferenciação de níveis que exige a classificação de alguns como superiores e outros como inferiores. Surge, assim, uma nova ordem, vertical ou ascendente, em contraste com a ordem horizontal ou espetacular. A própria noção de verticalidade sugere que essa ordem é realizada por uma atividade que exercemos e um esforço que empregamos. Portanto, descobrir essa ordem implica não apenas uma percepção, mas também um auxílio ativo para sua consolidação. O maior equívoco seria considerar o valor como um objeto passivo a ser contemplado, quando, na verdade, é sempre uma ação a ser realizada e uma prática a ser observada. Neste contexto, a interação entre afetividade e inteligência delineia uma abordagem integral à realidade, enriquecendo nossa compreensão e apreciação do mundo no qual habitamos. 


                       LIVRO I
                 Primeira parte.

            O valor na linguagem

              Capítulo II


     Sobre os sinônimos da palavra valor

 

Valor e Bem [8] Cf. Le Senne, Traité de morale, p. 412.  

Se procurássemos no vocabulário da língua clássica a palavra que mais se relaciona com valor, encontraríamos, sem dúvida, a palavra bem. No uso mais cotidiano, dizer que uma coisa é boa é também dizer que ela tem valor para nós. Por mais gerais que sejam as palavras bem e bom, não se pode contestar que a palavra bem tende a receber principalmente uma aplicação moral, inclinando-nos a reduzir ao valor moral todos os outros valores. [9]Não devemos esquecer, porém, que estamos falando dos bens da terra e a palavra bom, por um curioso paradoxo, parece designar antes uma qualidade que pertence à natureza de uma coisa ou de um ser, … Continue reading Em oposição a isso, a palavra valor tem uma acepção totalmente geral, além de evocar a ideia de uma característica pertencente ou ao real, ou à ação, sendo o espírito capaz de ratificar ou justificar.

Por outro lado, podemos pensar na palavra valor implicando sempre uma referência ao bem, como se o valor fosse o bem questionado e procurado, enquanto o Bem seria o valor além de encontrado, possuído. Sem dúvida, questioná-lo e procurá-lo é a condição para encontrá-lo e possuí-lo, e isso significa que o valor só existe na mente a qual o julga e que, por sua operação, não cessa de desejá-lo e acessá-lo. Assim, sempre consideramos o bem como um objeto almejado, fazendo-o parecer um fim, enquanto que o valor só possui sentido em relação a um sujeito o qual o testemunha, e cujo compromisso interior ele de alguma forma expressa. [10]O bem quase sempre parece pertencer à categoria do ter, e não à categoria do ser. Mas este é apenas o seu significado materializado: nunca há bem senão para um sujeito que o possui, mas quando … Continue reading 

 

                       Valor e Ideal

Pode-se dizer também que o valor é apenas outro nome para o ideal. De fato, todo valor é tanto uma ideia, pois só existe na e para a mente, quanto um ideal, pois a mente nunca deixa de desejá-lo e amá-lo. O ideal se opõe ao real; ela é projetada no futuro e excluída do presente. Se o valor não é o real, mas também está longe de ser como o ideal, um puro objeto do pensamento, semelhante à miragem a qual sempre se afasta para um futuro cada vez mais longínquo, ele traz consigo uma realidade atual, que reside em uma demanda de realização à qual nossa atividade, sem dúvida, nem sempre responde. [11]Nós mesmos tentamos confirmar, em nossa Introduction à l’Ontologie, essa distinção entre o valor, por um lado, e o bem e o ideal, por outro, mostrando a conexão do valor com a existência à … Continue reading 

 

                       Valor e Fim

Poderíamos dizer também que os valores são os fins da atividade. O agrado natural do homem por objetos com uma existência independente dele, protegida de todas as variações da consciência individual e temporal, manifesta-se na objetivação espontânea dos valores, os quais se tornam um fim para nós. Na ideia de fim, encontramos objetivamente as características essenciais do valor. Por consequência, devido ao fim ser para nós o termo do desejo, permanece em relação com o poder valorizador da consciência, mas que mantém-se separado de nós por um intervalo temporal impossível de atravessar; logo, perdura nele um caráter ideal: é um objeto ideal. A ligação entre o objeto e o fim é ainda mais estreita do que se poderia pensar: é de certa forma recíproca.

Pois bem sabemos que, em oposição à coisa, o objeto não pode subsistir isoladamente: é sempre correlativo a uma ação do sujeito que o coloca, como se vê nitidamente nas expressões objeto de percepção, pensamento, desejo ou amor. Desse modo, se todo fim é um objeto ideal de atividade, o objeto real é sempre um fim possível, realizado e possuído. Embora o valor seja sempre expresso pela busca de um determinado fim, não se pode identificar valor com o fim, porque nem todo fim necessariamente tem valor meramente por ser um fim. Por outro lado, mesmo quando encarnado em um objeto, não pode com ele ser confundido: é apenas a abordagem espiritual aplicada a ele. Finalmente, a própria palavra fim parece implicar uma atividade que viria, por assim dizer, terminar e morrer nele, enquanto a originalidade do valor é exprimir, no próprio fim, esse mesmo ímpeto o qual o eleva e supera, mas que, entretanto, o fim aprisiona e imobiliza.

Digamos novamente, pode-se falar de fim como ideal apenas no futuro e de valor apenas no presente ou pelo menos em relação ao ato que, no presente, determina o futuro. [12]Poderíamos ainda sustentar que a característica do fim é expressar o termo positivo em todas as oposições de opostos pelas quais o valor é definido. Mas é no ato em que o conflito se trava, e … Continue reading Quando se é afirmado que uma atividade tem mais ou menos valor, devemos entendê-la não pela maior ou menor distância, separada de um fim cada vez mais remoto, mas pelo grau de sinceridade com que ela engaja seu destino, e o de todo o universo, no menor de seus passos. Assim, o valor deve sempre ser distinguido do fim no qual arriscaria materializar-se e tornar-se um ídolo: é um com a atividade dita propriamente, considerada na perfeição de seu exercício. Finalmente, a própria ideia de fim é correlata à ideia de meio, levando a sacrificar continuamente o valor dos meios, dando, assim, uma aparência de verdade a fórmulas como a que o fim justifica os meios. [13]É a distinção entre fim e meio que permite compreender a distinção feita, por exemplo, por Urban (Valuation, its nature and laws, cap. II, § 2), entre valor intrínseco e valor instrumental, em … Continue reading 

 

                     Valor e Perfeição

A nossa necessidade de incorporar valor em um objeto dá sentido ao conceito de perfeição. Parece-nos ser a perfeição uma espécie de acabamento do pensamento e da vontade, a qual vêm, por assim dizer, realizar-se e abolir-se nela, como se já não encontrassem circunstância para se exercitar. Contudo, é por receberem o uso mais puro, em que são removidas todas as algemas as quais os prendiam, que a satisfação, que os preenche, é indistinguível de seu próprio jogo. Assim, a perfeição parece residir na imobilidade de um objeto, apenas porque nele objetivamos a plenitude de um ato interior, que não é mais impedido ou dividido. Já na perfeição, ocorre o oposto: por ser o próprio objeto abolido, como uma tela que separa a nossa operação do fim para o qual ela tende,  a nossa impotência, que é por ele testemunhada, é vencida. Trata-se, assim, do pico extremo do valor. 

 

                       Valor e Norma

O Sr. Lalande [14] Ver Lalande, La Raison et les normes. define a norma como o tipo concreto ou a fórmula abstrata do que deve ser, onde quer que seja possível um juízo de valor. A palavra norma quase sempre evoca a ideia de uma regra contra a qual o valor de uma ação ou coisa é julgado. Porém, o mero uso da palavra levanta um duplo problema:

  I – O de saber o que justifica esta regra pela qual pensamos poder justificar tudo;

II – O de saber distinguir da norma, enquanto exprime uma espécie de média no qual exclui, por excesso ou por defeito, qualquer tipo de superação, o caráter ideal que ela possui e que exige, por conseguinte, uma espécie de superação indefinida de todo o atual e de todo o dado. 

 

                  Valor e Interesse

A palavra interesse está relacionada com a palavra valor, embora também possa ser oposta a ela, e designa a importância que as coisas têm para nós, porque nos servem ou solicitam, em nós, atenção e desejo. Mesmo a palavra interesse pode estar tão intimamente relacionada com o egoísmo, que designa apenas tudo o que serve à vida do indivíduo, ou mesmo à vida do corpo, enquanto tem em vista manter-se e aumentar no tempo. No entanto, haveria uma competição – e até uma antinomia – entre valor e interesse, o qual seria, caso acontecesse que o interesse do indivíduo e do corpo fosse perseguido por si mesmo, apenas a sua imagem invertida, obrigando-nos, consequentemente, a sacrificar a ele os valores superiores e propriamente “desinteressados”, dos quais ele representa apenas a condição e o instrumento.

Também podemos dizer da busca do valor, que é a busca do interesse supremo, sobre o qual posso basear minha existência, pois aquilo que não tem valor não se baseia em nada, e o texto de Pascal, sobre os que vão se enforcar, mostra bem que, quando a vida se torna um fardo, é em nome do interesse próprio que os indivíduos agem, e não em nome do valor – que faz do sacrifício um uso da vida, mas não uma renúncia da vida. [15]Não podemos dissociar o interesse do bem, mas a palavra interesse designa antes a referência do bem ao sujeito que o experimenta como bem, o que mostra porque é usado para designar ora uma … Continue reading

 

         Valor e Sentido ou Significação

Compararemos os termos anteriores com as palavras sentido ou significação, cujo uso é particularmente instrutivo, pois a palavra sentido evoca esta ordem temporal, o presente gera o futuro, o real o realizado, sendo constantemente negado e superado em nome de uma ideia que só existe na mente, mas que cabe precisamente a nós encarnar e tornar real; a palavra significação designa, de modo ainda mais evidente do que a palavra sentido, esse parentesco das coisas com o pensamento, porque descobre sua razão e as justifica: a significação é como uma intenção intelectualizada e imobilizada.

O sentido expressa a possibilidade de recriar, por meio da inteligência, a própria coisa, a qual ainda não é valor, mas que é por ela assumida, pois não se pode aplicar o desejo ou a vontade à coisa sem que a inteligência penetre nela, e mostre sua razão de ser. Nisso, podemos acrescentar duas características comuns entre sentido e valor: a primeira é que essas duas noções nos elevam igualmente acima do particular e do individual, pois, por um lado, nada do particular tem sentido para a inteligência senão em relação ao todo do qual faz parte e contribui para manter, e, por outro, a característica do valor é também subordinar o indivíduo a um princípio que o ultrapassa, mas que ele nunca deixa de concretizar; já a segunda é que os sentidos, como valor, precisamente porque só podem ser definidos em relação a uma atividade que os produz, implicam que uma atividade se exerça no tempo e que, como o próprio tempo, oriente-se do passado para o futuro.

No entanto, o valor não deve ser confundido com sentido, pois se a palavra sentido implica aquela orientação no tempo, que ao nos oferecer certos fins, pelos quais podemos julgar as coisas, nos permite compreendê-los e desejá-los, o valor é o que neles apreendemos, quando dizemos que os entendemos e os queremos, de modo a fazer com que a nossa inteligência os justifique e que a nossa vontade os assuma. O sentido expressa, desse modo, a direção que o valor dá à nossa existência. Assim, o valor funda o sentido, e não o sentido o valor.

Perguntamos também qual é o sentido que a existência tem para nós. Contudo, a existência não tem sentido senão o sentido que cabe a nós atribuí-la. Seu sentido é, de certa forma, o uso que a mente consegue fazer dela, mas que ela já o traz em si, como uma virtualidade que é apenas uma questão de redescobrir e fazer nossa. De tal modo, embora a existência nos pareça excluir o sentido, cabe a nós realizá-lo, não como se permanecessemos estranhos à existência, considerando-a como um puro espetáculo, mas sim penetrando em sua intimidade e conseguindo dominá-la. 

 


                              LIVRO I

                    Primeira parte.

            O valor na linguagem

                Capítulo III


     A ideia de uma filosofia dos valores sobre a palavra axiologia [16] É sem dúvida a partir de W. M. Urban que a palavra axiologia se espalhou na linguagem filosófica e recebeu uso geral.  

 

A ciência dos valores recebeu o nome de axiologia, sendo geralmente designada por esse termo. A palavra ϐξιος indica em grego o que é precioso e digno de estima, já o verbo ϐξιόω significa eu aprecio. Axiologia seria, desse modo, a ciência do estimar ou do apreciar. Contudo, as palavras de formação abstrata não se aclimataram bem em nossa língua, a qual tem em vista encontrar, na linguagem, tanto signos não algébricos como uma maior experiência familiar. Chamamos esta obra de Tratado dos Valores pela razão de que a palavra valor tem talvez a vantagem de evocar imediatamente para o leigo o objeto a que se aplica. Vemos, desde o início, que esta pesquisa está relacionada à lógica, pois se trata primeiro de discernir o critério do valor (assim como a lógica busca discernir o critério da verdade), e do conhecimento propriamente dito, por aplicar este critério a diferentes conteúdos (como o conhecimento que visa alcançar a verdade de cada coisa). Digamos que esses dois problemas são inseparáveis um do outro, assim como o estudo do valor, em geral, é inseparável dos valores particulares. Entretanto, ambos os problemas dependem do problema metafísico, o único que nos permite ver como o valor é uma forma de ser, que se opõe ao ser realizado, mas que tem em vista encarnar-se nele. 

 

                    Seção I     

    Esse valor diz respeito à existência e não à representação

 

A preeminência da palavra valor na linguagem filosófica moderna, atesta uma mudança de orientação no olhar sobre o qual a consciência dirige para o mundo. Em geral, podemos afirmar, o sujeito se considerou por muito tempo colocado diante de um espetáculo o qual lhe cabia descrever. Permaneceu, de certa forma, como se estivesse fora do mundo, o qual se tratava apenas de obter a representação. E o próprio ser desse sujeito consciente apresentava uma dificuldade. Acabamos por lhe atribuir uma existência exclusivamente formal, ou seja, apenas possuía sentido em relação à representação que lhe cabia precisamente sustentar. A existência também não pertencia ao objeto, e era, em relação a esse próprio sujeito, apenas uma aparência ou um fenômeno. O idealismo intelectualista, ao mostrar que o sujeito é o autor da representação, deu a esta um caráter de inteligibilidade ao mostrar como ela pode ser construída. Ele não mostrou porquê tem que ser.

A consideração do valor, ao contrário, obriga o eu a se questionar não mais sobre a representação, mas sobre a existência, pois o que é válido só pode ser a própria existência enquanto ela quer a si mesma e quer suas próprias determinações. A representação é, consequentemente, relegada a segundo plano, apenas esclarecendo o testamento, já que a característica da inteligência é revelar suas próprias razões à vontade, em vez de revelar a ela um espetáculo, ao qual ela própria permaneceria estranha. Estamos, assim, no próprio âmago do ser, isto é, no próprio segredo do ato criativo, em que o eu põe e justifica sua própria existência, de modo a buscar, em relação a cada coisa, seus títulos de existência.

O problema do valor nos coloca diante do universo não como um enigma que temos de decifrar, mas sim como parte de uma responsabilidade que temos para com sua existência, que não pode estar dissociada da responsabilidade que temos por nós mesmos. Expressa, assim, uma espécie de primazia da vontade, à qual a característica da inteligência é dar consciência de si mesma e de seus próprios fins. Não é surpreendente que o valor nunca possa ser transformado em conhecimento: ele só aparece onde a pessoa se envolve internamente, onde ela sente, onde ela quer. A axiologia é uma espécie de metafísica da sensibilidade e da vontade.

Também vemos que, no Dictionnaire de philosophie et psychologie, Baldwin aponta, com muita razão, que o valor sempre tem em nós relação com a sensibilidade e a vontade, de modo que a inteligência se limita a saber, mas não avalia; pode-se acrescentar, quando se fala de valores intelectuais, apenas até enquanto o ato da vontade está sempre presente no ato da inteligência, que dele não pode ser dissociado. “As duas expressões worth e value e seus opostos são, no uso mais amplo que se faz delas, aplicados àqueles conteúdos da consciência, os quais são escolhidos ou rejeitados, segundo as disposições volitivas e afetivas, em vez de satisfazer requisitos ou padrões lógicos”. 

 

                   Seção II     

        Ciência ou filosofia dos valores

 

                        Valor e fato

A oposição que se estabelece entre, por um lado, a realidade, tal como nos é imediatamente oferecida, e, por outro, os desejos profundos da consciência, obriga-nos a perguntarmo-nos de que modo o valor pode tornar-se objeto de pensamento. Ora, podemos, sem dúvida, descrever como fatos as diferentes opiniões que o homem formou sobre o valor, como foram constituídas, sua origem psicológica e social, seu sucesso ou seu declínio – e poderíamos até chamar essa pesquisa de ciência dos valores. Mas permanece o fato de que essa ciência escaparia ao valor como tal, porque como o valor não é um fato, não pode ser descrito de fora, Isso significa que não há experiência objetiva disso, mas sim apenas um insight subjetivo, que nunca pode ser percebido, mas apenas aprovado e assumido, ou seja, o valor se dissipa onde cessa o ato que me obriga a acreditar nele e a vivê-lo. [17]Assim se explica facilmente que existe uma espécie de desconfiança entre os cientistas em relação ao valor, não apenas em matemática ou física, o que pareceria bastante legítimo, mas mesmo … Continue reading 

 

    O ponto de vista de empiristas e sociólogos 

Não obstante, é notável que o valor tenha, muitas vezes, sido introduzido na filosofia, por exemplo, na filosofia francesa, por empiristas e sociólogos, os quais acreditavam poder dar-lhe um lugar no mundo considerando-o como um fato ou como um dado. Tratava-se de reintegrá-lo à ciência e refutar de antemão as teses de todos os que, para manter seu caráter espiritual, faziam dele um ideal impossível de definir. Em vez de negar o valor, pretendiam reduzi-lo a um objeto de experiência, dando-lhe sempre um conteúdo positivo, mas isso era pior do que negá-lo.

Foi uma espécie de aberração confundir valor com opinião sobre valor quando jamais se confundira verdade com opinião sobre verdade. Querer atingir o valor como um fato é destruí-lo, mais ou menos como aconteceria a quem pede uma demonstração para acreditar na alma ou em Deus. Nenhum fato tem valor sem que eu o aprove e ratifique: esta aprovação, ou esta ratificação, por sua vez, não constitui um fato, mas um ato cuja validade deve ser verificada. O erro comum dos sociólogos, e dos empiristas em geral, é acreditarem que toda a realidade é dada, não enxergando que todo o dado está suspenso em um ato que o apreende, que carrega em si uma exigência interior de justificação, e que nunca pode transformar-se em dado, precisamente porque ele é o árbitro de tudo o que nos pode ser dado. [18]Talvez o argumento supremo contra o empirismo consistisse em mostrar que, ao invés de se basear em evidências imediatas, ele representa uma aposta impossível, pois não há descrição sem … Continue reading

 

   Podemos conceber uma ciência autônoma dos valores como tal? 

Se se afirma que se poderia conceber a possibilidade de uma ciência autônoma dos valores como tais, cujo objetivo seria determinar a característica original, a qual torna cada um deles um valor, e buscar entre eles uma ordem hierárquica, verificada por um experimento apropriado – como a matemática verifica, por exemplo, segundo Descartes, a ordem que vai do simples ao complexo ou a física a ordem da causalidade fenomênica -, responderemos que é impossível para a ciência definir os valores justamente porque o mundo dos valores está sujeito a uma ordem hierárquica, porque não há exigência lógica ou empírica que nos obrigue a postulá-la. Qualquer ordem hierárquica, ao contrário, expressa os graus de uma ascensão que se propõe à vontade. É uma ordem preferencial que não nos constrange, mas que nos compromete, e o que ajuda a mostrar isso é que a ciência postula o valor não científico da própria ciência. Longe da ciência ser suficiente, portanto, a vontade que escolhe ou recusa dedicar-se à ciência, para fundar a noção de valor, não pode deixar de questionar o valor da própria ciência.

Não temos dificuldade em reconhecer que o valor não pode ser em si um fato, um objeto, ou mesmo no caso de não haver propriamente objeto, se é verdade que o valor se confunde com a atividade de nossa consciência, considerada em seu exercício mais puro – e o fato ou o objeto só tem valor enquanto, em vez de limitá-lo e cegá-lo, eles o deixam transparecer e conseguem, de alguma forma, traduzi-lo. Talvez possamos considerar a filosofia dos valores como um encerramento, o qual é pertencente à evolução da filosofia do sujeito, que, em vez de procurar descrever apenas a ordem que reina entre as coisas, mostra como procede a atividade da mente, a qual é posta como uma exigência, sendo ela mesma o árbitro.

Assim, se tivermos que aceitar a palavra de Nietzsche de que o valor parece surgir da avaliação, poderíamos mostrar que a característica da reflexão filosófica é, após consumada a redução do objeto real à representação, a eliminação do objeto ideal em favor do valor. No entanto, esta interpretação não poderia ser aceita sem reservas, pois, por um lado, não admitiremos, como fez Nietzsche, que a vontade decida o valor de forma arbitrária, mas veremos, por outro lado, um ressurgimento da teoria do objeto ideal, no mesmo sentido no qual Platão falava da existência da ideia, cujo valor muitas vezes é outro nome. É, portanto, um desafio querer considerar a filosofia do valor como uma espécie de negação e substituta da metafísica, porque ela é o seu aprofundamento, como se depreende desta tríplice consideração:

I –  Se a característica da metafísica é reduzir o ser ao ato que o faz ser, será necessário buscar, nesse mesmo ato, “a razão” que o sacode e que o justifica; esta razão só pode ser outro nome para o valor, de modo que nada que se conforme a ela precise de explicação, precisamente porque é a explicação de todas as coisas, ao passo que tudo o que a contradiz é um escândalo, precisamente porque não se encontra razão para isso. Assim, o problema metafísico fundamental é o problema do Mal; 

II – Além disso, se toda a metafísica gira em torno da distinção e da relação entre essência e existência, não se pode deixar de se perguntar se não é o valor que é revelador da essência, como já atestam o vocabulário mais popular e o próprio problema da passagem da essência à existência, seja em nós ou em Deus, tal como o encontramos tanto na filosofia tradicional como no pensamento atual, em que a essência é considerada ora como o valor, do qual a existência procede, ora como o valor para o qual tende;

III – Finalmente, de maneira mais geral, se a característica da metafísica é ir além da aparência, isto é, do objeto visível, para atingir uma realidade que a funda e no qual consegue ser autossuficiente, esta não pode assumir tal dignidade em relação ao fenômeno, não pode dar-lhe seu sentido, não pode ser o último termo onde nossa mente encontra seu apaziguamento, exceto na condição precisa de que se funde com o valor. 

Além disso, só podemos aprovar a observação do Sr. Forest, a saber, que “a metafísica nada mais é do que a capacidade de apreender valores” (Revue néo-scolastique de Philosophie, fevereiro de 1940, p. 16).


 

                       

                     ESCLARECIMENTO E BIBLIOGRAFIA

 

As análises lexicográficas anteriores nos permitiram identificar certas características de valor para as quais a reflexão dialética trará confirmação sistemática: é que o valor se atribui a uma coisa ou a uma ação quando consideramos sua relação com uma exigência da mente que nelas encontra um meio de expressão ou realização. Ela não pode ser separada nem do indivíduo que a afirma e assume, nem do absoluto do qual procede, para o qual tende e cuja marca introduz no mundo. Tem uma escala hierárquica, desde a satisfação das necessidades do corpo até às aspirações desinteressadas a que o próprio corpo é sacrificado. Essa escala não quebra a natureza, mas, indo além dela, faz da natureza o veículo do espírito, o que implica diferenças de graus; todavia, são graus de qualidade. Há, em todos os lugares que trazem consigo valor, um testemunho de uma presença ativa do espírito, seja para penetrar no significado do que lhe é dado, seja para transformá-lo, ou para constantemente acrescentar a ele alguma nova criação. Esse poder de criação testemunha a sua fecundidade infinita, do qual nada escapa, e nenhum objeto consegue satisfazer, por ser sempre uma limitação para ela, mas que, no entanto, encontra, no mais humilde, um meio de ascensão. É apenas uma possibilidade, apesar disso, traz em si a razão que nos leva a realizá-la. 

References

References
1 Apresentação: Isaac Fonseca.
2 O qual já foi traduzido por nós e está disponível em: https://jornalcidadaniapopular.com.br/tratado-dos-valores-de-louis-lavelle-capitulo-i/
3 Abbagnano, Nicola. STORIA DELLA FILOSOFIA: Dallo Spiritualismo all’Esistenzialismo. Volume 5, p.61, 2006. (Tradução nossa).
4 Ibidem. p. 62-63.
5 Idem.
6 Introdução: Isaac Fonseca.
7 N.T: Texto baseado no capítulo Les puissances du moi. Obra que coaduna grande parte da filosofia lavelliana. Trata-se de uma síntese do capítulo La révélation de la valeur, o qual decidimos que serviria como uma instrução adequada à temática axiológica, além de acrescentar novos elementos.
8 Cf. Le Senne, Traité de morale, p. 412.
9 Não devemos esquecer, porém, que estamos falando dos bens da terra e a palavra bom, por um curioso paradoxo, parece designar antes uma qualidade que pertence à natureza de uma coisa ou de um ser, como quando dizemos que uma fruta é boa ou que um homem é bom.
10 O bem quase sempre parece pertencer à categoria do ter, e não à categoria do ser. Mas este é apenas o seu significado materializado: nunca há bem senão para um sujeito que o possui, mas quando falamos do seu bem, é um bem do qual ele participa, que se incorpora ao seu ser e se torna a sua própria essência.
11 Nós mesmos tentamos confirmar, em nossa Introduction à l’Ontologie, essa distinção entre o valor, por um lado, e o bem e o ideal, por outro, mostrando a conexão do valor com a existência à qual ele dá sentido, do bem com o ser, do qual é a razão de ser, do ideal com o real, que ele contradiz para promovê-lo.
12 Poderíamos ainda sustentar que a característica do fim é expressar o termo positivo em todas as oposições de opostos pelas quais o valor é definido. Mas é no ato em que o conflito se trava, e que o faz triunfar, que reside o verdadeiro valor.
13 É a distinção entre fim e meio que permite compreender a distinção feita, por exemplo, por Urban (Valuation, its nature and laws, cap. II, § 2), entre valor intrínseco e valor instrumental, em que o primeiro se assenta na estima que o valor merece, e que ele próprio o define como fim, enquanto o segundo na apropriação a um fim cujo valor se supõe. Essa distinção corresponde aproximadamente à oposição entre o que chamamos de valor categórico e valor hipotético.
14 Ver Lalande, La Raison et les normes.
15 Não podemos dissociar o interesse do bem, mas a palavra interesse designa antes a referência do bem ao sujeito que o experimenta como bem, o que mostra porque é usado para designar ora uma satisfação real do indivíduo, ora um meio indireto destinado a obtê-la. Em ambos os sentidos, evoca a ideia de utilidade, e não é de estranhar que apareça, então, como idêntico ao bem, caso em que observamos não apenas em um empirista como Mill, mas em um intelectual como Spinoza.
16 É sem dúvida a partir de W. M. Urban que a palavra axiologia se espalhou na linguagem filosófica e recebeu uso geral.
17 Assim se explica facilmente que existe uma espécie de desconfiança entre os cientistas em relação ao valor, não apenas em matemática ou física, o que pareceria bastante legítimo, mas mesmo nas ciências do homem, embora seja próprio do homem introduzir valor em cada um dos passos que dá. Deste modo, em uma coletânea de conferências, dedicadas pelo Centre de Synthèse à noção de civilização, vemos, por sua vez, Sr. Berr expressando o temor de que a palavra civilização possa ser afetada por uma preocupação com o valor que lhe conferiria um caráter irremediavelmente subjetivo (p. XI), e Sr. L. Febvre, com clareza ainda maior, pedindo, de uma forma que pode ser contraditória, “dissociar essa noção de qualquer juízo de valor” (p. 44). Encontramos as mesmas tendências nas observações de Sr. Mauss (p. 112) sobre a comunicação de Sr. Niceforo. Observamos em todos esses estudiosos a preocupação comum de chegar aqui a uma espécie de objeto puro, independentemente de qualquer apreciação que a consciência humana pudesse exercer sobre ele e que arriscasse criar discórdia entre os espíritos. Mas aqui o objeto é um juízo de valor feito por outros, e nos perguntamos se poderíamos compreender sua natureza simplesmente forçando-nos a descrevê-lo independentemente de qualquer relação com nosso próprio juízo de valor, isto é, sem abordar o problema de seu fundamento e do direito que nós mesmos teríamos de fazê-lo.
18 Talvez o argumento supremo contra o empirismo consistisse em mostrar que, ao invés de se basear em evidências imediatas, ele representa uma aposta impossível, pois não há descrição sem apreciação, nem conhecimento sem preferência.

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