Tratado simbólico dos valores: um estudo onto-cosmológico da ordem – Parte I

  • Isaac Denyon Fonseca
  • 9 jul 2022

Prezado Leitor, em seu Cuestiones Disputadas Sobre La Verdad, Tomás de Aquino nos afirma – como solução da pergunta se a mente humana recebe o conhecimento das realidades sensíveis – que toda ciência nos é dada, de alguma forma, à luz do entendimento, por concepções universais. Estas, por serem frutos de princípios universais, são julgadas com base em outras realidades das quais conhecemos anteriormente. Diogo Mas, em sua Disputación Metafísica Sobre El Ente Y Sus Propiedades Transcendentales [1] MAS, Diego. DISPUTACIÓN METAFÍSICA SOBRE EL ENTE Y SUS PROPIEDADES TRANSCENDENTALES. Barañáin (Navarra): EUNSA. EDICIONES UNIVERSIDAD DE NAVARRA, S.A., 2003 , afirma – em resposta a sobre se a verdade segue a natureza da entidade – que a verdade segue a natureza do ente: ela é a sua propriedade; porém, encontra-se em uma área distinta. Apesar dela estar relacionada às coisas, a verdade é algo que somente pode ser entendido quando inteligida, ou seja: por uma ação da inteligência. Portanto, a verdade também lhes compete desde a realidade.

Para entender melhor como o homem adquiriu essa compreensão das verdades – que existem ao seu redor -, iniciamos o nosso artigo com um estudo ontológico e cosmológico da Experiência do Ser: como temos a origem dessa experiência? Como começa essa experiência de estar no mundo? Já na segunda parte, a partir dos autores Greimas e Lavelle, utilizaremos o símbolo da ordem, em sentido estritamente voegeliano, para entendê-lo como história, ou seja: como que no processo narrativo, a partir do sentido que a Presença influi e advém do logos, o homem introduz valores nas narrativas. Realizamos, para a compreensão desta questão, um estudo do valor entendido como categoria pela qual o homem percebe a ordem.

Ao longo da semiótica narrativa, constatamos – na sua parte sintática, onde centramos os nossos esforços – que o homem é simbolicamente investido de valores da Presença do Ser universal, do qual advém ao homem por meio dos logos, pelo seu logos intrínseco – tendo como intermediário os logoi, e, possibilitando, assim, a contemplação do real. Concentramos nosso foco em como o homem concentra sua atenção na Presença e, assim, faz certas interpretações na forma de valores. O Logos, em sua ordem, gera a Presença universal do Ser, onde o ser finito, em sua existência, dele participa – e ignorar essa participação seria contrapor a própria existência.

Ao observar esta presença, percebe-se determinados padrões aos quais são aplicáveis a todas as coisas; porém, na própria realidade que nos cerca, ela, em si mesma, é incompreensível. Criam-se, portanto, as narrativas simbólicas, que têm a capacidade de expressar – em termos compreensíveis – aquilo no qual naturalmente é incompreensível. Cronos, um titã que consome os seus próprios filhos – mesmo estes sendo deuses -, expressa bem o conceito da destruição do tempo – nos dando meios de entender o mistério que é o tempo, e a verdade na qual ele contém. A verdade das coisas não pode ser acessada por qualquer meio, deve ser algo que vá para além da mera contemplação do físico.

Escolhemos a semiótica textual, devido a sua característica de nos fornecer, a partir das características mais internas de um texto, o seu sentido mais externo. Usaremos toda a semiótica textual, e, com isso, exporemos toda a sua potência em futuras obras – sempre seguindo este mesmo procedimento. Por enquanto, realizaremos essa junção entre Greimas e Lavelle apenas na sintaxe narrativa, explorando – ao máximo das nossas competências – as semelhanças que existem entre a semiótica e as filosofias francesas. Seguindo essa linha, esperamos abrir espaço para novas linhas de estudo, e de pesquisa, dessa corrente comparativa – onde a significação seja analisada, e descrita, ao lado de um denso pensamento como o lavelliano.


Em seu primeiro livro, que compõe o seu Opus Magnum, Ordem e História, o filósofo e cientista político, Eric Voegelin escreveu: “A ordem da história emerge da história da ordem. Todas as sociedades carregam o fardo de, sob condições concretas, criar uma ordem que atribua ao fato de sua existência um significado, em termos de metas divinas e humanas“. [2] VOEGELIN, Eric. Ordem e história: Israel e a revelação. 3. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2009 Cada civilização existente compreende a si mesma como uma mediação para um fim. Usando das condições e situações às quais estão disponíveis, buscam criar uma ordem na qual se justifique a sua existência como sociedade e civilização. Desse modo, as ações que as comunidades humanas tomam devem ser vistas como buscas de um significado à existência.

Assim sendo, as metas estabelecidas, sejam divinas ou humanas, são as buscas pelo motivo de sua existência. O homem em sociedade, estabelece uma relação ambígua com a comunidade que ele participa. Por um lado, ela é um dado da sua experiência –  e esta somente torna-se compreensível para ele quando se envolve no mistério da existência da sociedade; por outro, ela não pode ser um dado do mundo exterior – já que ela não se manifesta como um objeto. Seu conhecimento é possível apenas pela participação que o homem realiza, ou seja: a busca do motivo da existência da sociedade.

A perspectiva da participação deve ser compreendida em toda a sua qualidade perturbadora. Ela não significa que o homem, mais ou menos confortavelmente localizado na paisagem do ser, pode olhar à sua volta e enumerar o que ele vê, tão longe quanto sua vista alcança“. [3] Ibidem O modo paradoxal com que essa experiência ocorre no homem é bastante complexa, pois difere do modo normal como as coisas aparecem para nós. Geralmente, tenho o meu mundo interior; as coisas – que aparecem para mim – são dados que estiveram sempre aí. Compreendê-lo-ei na medida em que adéquo esses dados no meu mundo.

Já com as comunidades isso difere, pois passo a integrar, e a compreender, o sentido de sua existência, quando participo da concretização do objetivo da ordem à qual ela deseja. Isso quer dizer que em uma situação oposta ao dado, não temos ideia dos limites que as ações praticadas podem levar. Tão longe quanto a vista alcança, ou seja, por não saber qual a sua localização de maneira completa, isso nos gera um pavor, pois estamos realizando uma ordem à qual não sabemos completamente como se dará – embora o seu entendimento só é possível nesse conhecimento desconhecido.

Deus e homem, mundo e sociedade formam uma comunidade primordial do ser“. Nessa frase, temos o início do livro Israel e a Revelação. Podemos, assim, compreender como ocorre o processo de simbolização. Devemos entender primeiramente que, em Voegelin, toda cosmologia implicará em uma antropologia. Isso quer dizer que podemos ter uma noção de como se dão as visões de uma sociedade a partir do modo como eles encaram o mundo do qual os cerca. Uma pessoa espiritualista poderá entender o mundo como sendo fruto das ações de divindades; já um materialista como sendo fruto da união de átomos. Sempre que um homem cria uma definição cosmológica, ele também está descrevendo antropologicamente a si mesmo. Podemos afirmar que toda criação de alguma ideia que explique o mundo é consubstancial ao modo como o homem observa a si mesmo. [4] DAMAZIO FRANCO, Pedro. Eric Voegelin e as Religiões Políticas: Deus e homem, mundo e sociedade (Parte II). In: DAMAZIO FRANCO, Pedro. Eric Voegelin e as Religiões Políticas: Deus e homem, mundo … Continue reading

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1 MAS, Diego. DISPUTACIÓN METAFÍSICA SOBRE EL ENTE Y SUS PROPIEDADES TRANSCENDENTALES. Barañáin (Navarra): EUNSA. EDICIONES UNIVERSIDAD DE NAVARRA, S.A., 2003
2 VOEGELIN, Eric. Ordem e história: Israel e a revelação. 3. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2009
3 Ibidem
4  DAMAZIO FRANCO, Pedro. Eric Voegelin e as Religiões Políticas: Deus e homem, mundo e sociedade (Parte II). In: DAMAZIO FRANCO, Pedro. Eric Voegelin e as Religiões Políticas: Deus e homem, mundo e sociedade (Parte II). [S. l.], 21 jun. 2019. Disponível em: https://estadodaarte.estadao.com.br/eric-voegelin-e-as-religioes-politicas-deus-e-homem-mundo-e- sociedade-parte-ii/ . Acesso em: 6 jun. 2022.
Isaac Denyon Fonseca

Isaac Denyon Fonseca, natural de Teresina, Piauí. Bacharel em Jornalismo e Licenciando em Língua Portuguesa/Inglesa. Estudante da obra de Mário Ferreira dos Santos e Louis Lavelle.

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