Não é o valor que falha, é a leitura: notas críticas a “Os erros de Marx: a destruição da teoria da mais-valia” (Murilo Resende)

  • Walber Ribeiro Jr
  • 23 fev 2026

As críticas contemporâneas à teoria marxiana do valor e da mais-valia costumam apresentar-se como refutações definitivas de um edifício conceitual supostamente corroído por contradições internas. Em geral, tais críticas seguem um roteiro relativamente estável: (i) imputam a Karl Marx a defesa de uma determinação direta e exclusiva do preço pela quantidade de trabalho; (ii) apontam o papel da concorrência, do risco e do investimento como elementos “externos” ignorados pela teoria do valor-trabalho; e (iii) concluem que, ao introduzir mediações como lucro médio e preços de produção, Marx teria abandonado — ou “salvo no macro” — aquilo que afirmara no plano microeconômico.

O resultado é a acusação recorrente de incoerência metodológica e de artificialidade teórica. O presente texto é, por índole, continuação natural do artigo A querela do valor [1]NASCIMENTO JUNIOR, Walber Luiz Ribeiro do. A querela do valor: sobre a confusão entre valor e preço. Jornal Cidadania Popular, João Pessoa, 19 fev. 2026. Disponível em: … Continue reading e parte de tese similar e decisiva: essa crítica não falha por excesso de rigor, mas por erro de leitura. Mais precisamente, ela projeta sobre O Capital uma expectativa explicativa que Marx jamais assumiu e, em seguida, declara fracassada a teoria por não cumprir uma promessa que não lhe pertence. O núcleo do equívoco reside na identificação imediata entre valor e preço, na recusa da distinção entre essência e forma de manifestação e na incapacidade de reconhecer a mudança de nível de abstração como elemento constitutivo — e não corretivo — do método marxiano.

Ao confundir categorias analíticas com grandezas empíricas, a crítica liberal transforma mediações necessárias em remendos ad hoc e toma a aparência do fenômeno econômico como seu fundamento último. O que se perde, nesse movimento, não é apenas a especificidade da teoria do valor-trabalho, mas a própria possibilidade de uma crítica imanente da sociabilidade capitalista. Não se trata, portanto, de defender Marx contra toda objeção possível, mas de restituir o debate ao seu plano conceitual adequado, onde as categorias de valor, trabalho abstrato, concorrência e preço de produção possam ser compreendidas em sua articulação lógica e histórica.

 

1§ Os “erros de Marx”: exame crítico de uma leitura liberal


A presente resposta toma como objeto a live intitulada “Os erros de Marx: a destruição da teoria da mais-valia”, publicada pelo canal do Instituto Borborema e conduzida por Murilo Resende. [2]RESENDE, Murilo. Os erros de Marx: a destruição da teoria da mais-valia. 28 jan. 2026, Instituto Borborema. Disponível em: https://www.youtube.com/live/9WszN5qZ2zA? si=NXSToOLnrpoVVrLG. Acesso em: … Continue reading Ao longo da exposição, são apresentados argumentos que pretendem demonstrar a inconsistência interna da teoria marxiana do valor-trabalho e, em particular, da categoria de mais-valia, com base em considerações sobre risco, concorrência, investimento em capital fixo e heterogeneidade do trabalho. A live articula, de forma relativamente sistemática, um conjunto de objeções recorrentes na tradição liberal-austríaca e marginalista, razão pela qual constitui um material privilegiado para exame crítico. Não se trata, contudo, de uma resposta ad hominem, nem de um exercício de polêmica circunstancial.

A live funciona aqui como caso exemplar de um tipo específico de leitura de Marx, leitura esta que, embora frequente, incorre em confusões conceituais decisivas. O objetivo, portanto, não é refutar uma opinião individual, mas esclarecer os pressupostos teóricos que tornam tais objeções plausíveis e, ao mesmo tempo, limitadas. A exposição segue uma lógica progressiva: parte-se da identificação entre valor e preço, passa-se à interpretação da concorrência como fator externo à lei do valor, e conclui-se pela acusação de que Marx, ao introduzir mediações como lucro médio e preços de produção, teria abandonado sua própria teoria. Essa sequência, no entanto, só se sustenta à custa de uma leitura que ignora o método expositivo de O Capital, a distinção entre níveis de abstração e o estatuto específico das categorias econômicas enquanto formas sociais historicamente determinadas.

Assim, a resposta que se segue não pretende “defender” Marx, no sentido apologético do termo, mas recolocar os argumentos no plano em que eles podem ser adequadamente avaliados. Ao examinar ponto a ponto as teses apresentadas na live, o que se evidenciará é que as supostas contradições da teoria da mais-valia decorrem menos de falhas internas do edifício marxiano do que da imposição de critérios analíticos estranhos à sua problemática fundamental. É nesse sentido que a crítica aqui desenvolvida se orienta: não contra a discordância teórica legítima, mas contra a redução da teoria do valor a uma caricatura empiricista, na qual mediação aparece como exceção e não como estrutura constitutiva da sociabilidade capitalista.

 

26:00 — “No mundo real, nunca existe o equilíbrio geral, o equilíbrio total da economia” 

Correto — Marx nunca exige um “equilíbrio geral”. A crítica relevantemente marxiana não depende da existência de equilíbrios estáveis: ela pergunta quais relações sociais (produção, propriedade, salário) produzem certos resultados recorrentes. Invocar a inexistência de equilíbrio real não derruba a teoria do valor; apenas muda o plano da explicação: em vez de criticar modelos de equilíbrio, Marx analisa as mediações sociais que persistem independentemente de equilíbrios momentâneos.

 

28:14 — “A remuneração do capitalista puro advém da tomada de risco real. Na economia clássica, a receita total tende a equivaler ao custo total” 

Confunde explicação normativa/empírica com determinante estrutural. Sim, na prática há remuneração por risco; e sim, a concorrência tende a nivelar rendimentos. Marx distingue formas imediatas de distribuição (juros, lucro, prêmio de risco) da determinante da mais- valia (tempo de trabalho excedente). O fato de risco gerar rendimento não explica a origem social da mais-valia, apenas descreve como ela pode ser apropriada e distribuída.

 

33:17 — “O trabalho é condição necessária do valor, mas por si só não produz valor” 

Ambíguo e perigoso: se quer dizer que trabalho isolado e concreto não basta para constituir valor, até que concordo. Marx fala de trabalho socialmente necessário e de trabalho abstrato (forma), não do esforço psíquico individual. Dizer “por si só não produz”, sem explicitar o nível (concreto vs abstrato; socialmente mediado), é perder o ponto central: o trabalho é a fonte objetiva do valor numa sociedade onde o trabalho é mercadoria, mas só nessa forma social e como medida socialmente validada.

 

35:35 — “O trabalhador não faz nada que possa vender automaticamente. Há camadas anteriores de produção, o processo produtivo vai ser delongado no tempo, e o trabalhador não está disposto a esperar para receber sua remuneração” 

Observação factual verdadeira, porém irrelevante como refutação. Marx já incorpora processos sociais complexos (produção prolongada, circulação, adiantamento de salários). O salário não é “venda automática” do produto final — é pagamento da força de trabalho antecipado/externalizado —, e isso não nega que o trabalho, ao ser socialmente valorizado, gere mais-valia realizada e apropriada pelo capital.

 

38:00 — “No mundo onde existe risco real, existe a mais-valia enquanto renda do investidor. Para Marx, o progresso que é efeito do investimento possui uma semente de mal intrínseca, que é a exploração do proletário” 

Melhor dizer: risco e progresso não explicam a origem da mais-valia; explicam modalidades de apropriação e distribuição. Marx argumenta que o acúmulo e o progresso técnico aumentam produtividade e, frequentemente, a mais-valia relativa, isto é, a forma histórica da exploração muda, não desaparece. Chamar isso de “mal intrínseco” é uma leitura normativa possível, mas a análise marxiana é descritiva-crítica: mostra uma contradição social real, não apenas moral.

 

45:30 — “Segundo Marx, apenas a quantidade de trabalho determina o valor de uma mercadoria. O maquinário e a tecnologia só acrescentam valor através do trabalho despendido para se fabricar a determinada máquina” 

Impreciso: Marx concebe valor como função do tempo de trabalho socialmente necessário incorporado. O maquinário incorpora trabalho passado (trabalho cristalizado), logo, contribui indiretamente ao valor das mercadorias por meio desse trabalho acumulado. Mas o ponto crítico é a distinção entre trabalho concreto e abstrato socialmente necessário. Dizer “apenas quantidade”, sem essa mediação, elimina a historicidade da categoria.

 

47:00 — “Pela perspectiva do Marx de O Capital 1, ao se investir em maquinário, aumenta-se a quantidade de trabalho sem influenciar na mais-valia. A previsão seria diminuição da taxa de lucro após investimento — o que não se cumpriu” 

Erro de interpretação metodológica. Marx mostra que a composição orgânica do capital tende a elevar-se (mais capital constante), pressionando a taxa média de lucro, ceteris paribus; mas ele também analisa contramovimentos (aumento da exploração relativa, queda do valor da força de trabalho, expansão do mercado, etc.) que podem compensar essa tendência. A ausência empírica de queda contínua da taxa média de lucro não é uma refutação trivial da teoria; é uma indicação de mediações históricas e contraforças que o próprio Marx discute.

 

1:19:50 — “Em O Capital 3, Marx reformula: flutuação da taxa de lucro… o somatório — o valor agregado — tende a ser zero” 

Explicação técnica simplificada demais. No livro III de O Capital, Marx mostra como, através da concorrência, preços de produção se formam a partir da redistribuição da mais-valia entre capitais, e que mudanças micro em desvios tendem a se compensar no agregado. O ponto não é “tornar o valor inútil”, mas explicar a mediação entre determinação (valor) e forma de manifestação (preço de produção); novamente: nível de análise diferente, não contradição.

 

1:24:00 — “Marx admite que a competição impacta o valor dos produtos — afirmação contrária à fundação no valor-trabalho” 

Falsa polaridade. Reconhecer que a concorrência modifica preços é coerente com a teoria: Marx distingue determinação (valor) e manifestação (preço). A competição não “impacta o valor” enquanto causa fundante do valor, ela impacta os preços e a distribuição da mais-valia. Confundir os dois é recair naquilo que A querela do valor nomeia: tomar a aparência (preço) por essência (valor).

 

1:28:00 — “A constatação de que diminuição de tempo de trabalho diminui o preço não prova que quantidade de trabalho seja o único fator. Conclusão apressada” 

Concordo que é uma conclusão apressada se tomada isoladamente. Marx não afirma que o tempo de trabalho é o único fator conjuntural que aparece nos preços; ele afirma que, em sociedades onde o trabalho é mercadoria, o tempo de trabalho socialmente necessário é a fonte objetiva do valor. Isso é uma explicação estrutural, não uma fórmula de um fator único para todos os movimentos de preços.

 

1:42:00 — “Estratégia de ‘em última instância’: a lei de valor se aplica em última instância ao valor agregado — ‘salvar no macro’” 

A dificuldade do argumento, em geral, não está em contradições inevitáveis em Marx, mas numa expectativa equivocada sobre o que a teoria do valor está tentando fazer. Quando se diz que Marx teria tentado “atrelar tudo exclusivamente à quantidade de trabalho”, já se pressupõe aquilo que o próprio Marx rejeita explicitamente: que o valor devesse aparecer imediatamente nos preços empíricos. Essa expectativa — e não a teoria do valor — é que gera a aparência de contradição. A distinção entre valor e preço não é um remendo tardio nem um expediente ad hoc para “salvar no macro”. Ela é constitutiva do método desde o início. O valor não é uma grandeza empírica observável na circulação, mas uma determinação social da produção, que só se manifesta de forma mediada, instável e frequentemente distorcida na forma-preço. Exigir que os preços coincidam diretamente com os valores é confundir determinação estrutural com forma de manifestação, exatamente a confusão que Marx identifica como traço recorrente da economia vulgar.

Quando Marx introduz concorrência, lucro médio e preços de produção, ele não “desmantela” a teoria do valor; ele abandona deliberadamente a abstração inicial para mostrar como o valor se realiza e se redistribui na superfície do sistema. O que muda não é o fundamento do valor, mas o nível de mediação da análise. O lucro médio não cria valor, assim como a concorrência não o funda; ambos apenas regulam sua distribuição entre capitais. Dizer que isso invalida a teoria do valor equivale a afirmar que a existência de fenômenos atmosféricos invalida a lei da gravidade porque os corpos não caem em linha reta no mundo real. A ideia de que, ao explicar a diferença entre valor e preço, Marx estaria “se contradizendo” parte de uma pressuposição tipicamente moderna: a de que a verdade teórica só é válida se aparecer imediatamente no fenômeno.

Mas é precisamente contra essa identificação imediata entre essência e aparência que se dirige toda a crítica da economia política. A divergência entre valor e preço não é um defeito lógico da teoria; é uma característica objetiva da sociabilidade capitalista. Por isso, o chamado “valor agregado” não salva nada “no macro”. Ele apenas descreve, em outro plano, aquilo que já estava pressuposto: que o mercado não é o lugar da determinação do valor, mas de sua validação social ex post. Se o valor se constituísse na circulação, então sim, Marx estaria refutado por suas próprias categorias. Mas como o valor pertence à estrutura das relações sociais de produção, sua não coincidência imediata com os preços não é um problema, é o ponto de partida da crítica. Em suma, o argumento parece bem amarrado apenas enquanto se mantém no nível da aparência.

Quando se exige que o valor se comporte como um preço disfarçado, qualquer teoria que recuse essa redução parecerá contraditória. O problema não está em Marx ter ido longe demais, mas em lê-lo como se estivesse fazendo aquilo que ele explicitamente diz não estar fazendo. A argumentação de Marx é dialética entre abstração e mediação: as categorias usam abstrações metodológicas para explicar regularidades estruturalmente profundas, e depois descem ao nível empírico para mostrar realizações. Não é um salva-vidas retórico; é procedimento teórico responsável por conectar níveis.

 

1:54:29 — “Para Marx, em última instância, indiretamente, o preço de produção é inteiramente determinado pela lei do valor… Mas lucro médio, gasto total e salário desviam da simples quantidade de trabalho” 

Exato: eles desviam a manifestação do valor. Marx não nega esses desvios; ele os explica como formas pelas quais a mais-valia se realiza e é repartida. Reconhecer desvios empíricos não é refutar a tese, é mostrar a complexidade da mediação social.

 

2:04:00 — “Essa ideia de que trabalho ou esforço é igual à valor [direto/imediato] é anti-intuitiva” 

Intuição não substitui análise histórica: muitas intuições modernas resultam da naturalização mercantil. A teoria do valor exige abandono de intuições imediatas sobre equivalência mercantil; isso incomoda, mas não é motivo lógico por si só para rejeição teórica.

2:08:00 — “Aristóteles: troca pressupõe igualdade sob certo aspecto — a moeda é esse terceiro elemento; preço é determinado por oferta e demanda (subjetivo)” 

Histórico correto, mas não contraditório com Marx: moeda regula a troca, e preços resultam de oferta/demanda. Marx pergunta por que a moeda e a forma-preço passam a mascarar as relações sociais constitutivas do valor. O argumento marginalista usa a moeda para explicar tudo sem explicar por que certas relações sociais (trabalho assalariado) se tornam regra, é deslocamento explicativo, não falsificação.

 

2:12:00 — “São descartados elementos subjetivos e qualidades da mercadoria. Resta o valor de troca determinado exclusivamente pela quantidade de trabalho” 

Falsa caricatura: Marx não “descarta” subjetividade; ele delimita o campo de validade da categoria valor para entender regularidades sociais. Qualidades, preferências, etc, operam na esfera dos preços e da utilidade; Marx integra esses fatores como mediações da realização do valor.

 

2:14:00 — “Trabalho é sempre heterogêneo; abstrair ‘trabalho simples’ é artificial” 

Abstração metodológica é ferramenta teórica e não afirma que, empiricamente, os trabalhos são homogêneos. O conceito de trabalho abstrato é uma construção para poder comparar socialmente o dispêndio de trabalho sob a forma mercadoria; isso não é mágica ontológica, é procedimento analítico legítimo, desde que se reconheça sua condição histórica.

 

2:19:00 — “Equivalência entre dias de operário e dias de escultor é absurda; depois de tantos furos, só resta a instrumentalidade política de Marx” 

Ad hominem teórico. A comparação é hipotética para construir medida social; Marx sabe da heterogeneidade e discute como mercados e produtividade reconfiguram relações de equivalência. Dizer que sobra só instrumentalidade política é ignorar o corpo teórico que trata precisamente das mediações que tornam essas abstrações operacionais.

 

2:24:00 — “Por que preços de produção desviam do valor? ‘A realidade desvia da lei… embora a lei que criei continua valendo’ ” 

Isso é uma fórmula simplista do crítico. Marx formula leis de tendência, mediação e realização e não leis empíricas incondicionais. A pergunta correta é: em que sentido e em que condições a lei do valor opera? Marx responde mediante abstração progressiva e análise histórica; não por decretar uma lei que ignora a realidade, mas por explicá-la a partir de níveis distintos.

                          ***

Em conjunto, os pontos analisados revelam um padrão consistente: as objeções formuladas não decorrem de falhas internas da teoria marxiana, mas da leitura de suas categorias como se fossem grandezas empíricas imediatas. A crítica não demonstra que a lei do valor falha; demonstra apenas que ela não responde às perguntas que lhe são indevidamente impostas.

 

2§ Conclusão


A análise das objeções dirigidas à teoria da mais-valia revela um padrão recorrente: a crítica não enfrenta a teoria marxiana tal como ela se apresenta, mas como ela precisaria ser para caber nos pressupostos da economia marginalista. Quando se exige que o valor determine diretamente os preços individuais; quando se toma o risco como fonte autônoma de valor; quando se interpreta a concorrência como negação da lei do valor e não como sua forma de manifestação; o que se opera não é uma refutação, mas uma substituição silenciosa do problema. A lei do valor não é, em Marx, uma fórmula empírica destinada a prever preços, tampouco uma tese psicológica sobre esforço individual.

Trata-se de uma determinação social objetiva que só se realiza por meio de mediações — concorrência, capital, crédito, tecnologia — que não a anulam, mas a efetivam sob formas contraditórias. O fato de que os preços de produção desviem dos valores individuais não constitui um escândalo teórico; é, ao contrário, a expressão necessária de uma sociabilidade em que o trabalho só se afirma como social a posteriori, por meio do mercado. Assim, a estratégia de acusar Marx de “salvar no macro” o que não funcionaria no micro revela mais sobre a expectativa positivista do crítico do que sobre a consistência da teoria criticada.

Ao exigir coincidência imediata entre essência e fenômeno, a crítica liberal abdica precisamente daquilo que permitiria compreender a dinâmica real do capitalismo: sua forma social mediada, fetichizada e contraditória. Em última instância, não é o valor que falha, mas a leitura que se recusa a abandonar a superfície dos preços. E enquanto essa recusa persistir, a crítica à teoria da mais-valia continuará a girar em torno de um alvo imaginário; refutando não Marx, mas uma caricatura funcional aos seus próprios pressupostos teóricos.

References

References
1 NASCIMENTO JUNIOR, Walber Luiz Ribeiro do. A querela do valor: sobre a confusão entre valor e preço. Jornal Cidadania Popular, João Pessoa, 19 fev. 2026. Disponível em: https://jornalcidadaniapopular.com.br/a-querela-do-valor-sobre-a-confusao-entre-valor-e-preco/.
2 RESENDE, Murilo. Os erros de Marx: a destruição da teoria da mais-valia. 28 jan. 2026, Instituto Borborema. Disponível em: https://www.youtube.com/live/9WszN5qZ2zA? si=NXSToOLnrpoVVrLG. Acesso em: 9 fev. 2026 [os trechos extraídos de cada minutagem foram transcritos por Brenner Magno].
Walber Ribeiro Jr

Economista marxiano, inscrito na tradição da crítica da economia política da dependência, com ênfase na financeirização periférica, em especial a brasileira. Bacharel em Finanças pela Universidade Federal do Ceará, com a monografia “Aristóteles e a economia: contribuições, desdobramentos e lugar na história”; é escritor e ensaísta, leitor de Dostoiévski, Proust e Virgínia Woolf. Sua pesquisa articula economia política, ontologia e crítica da substancialização, investigando a negatividade, o nada e a vacuidade, em diálogo com Heidegger, a Escola de Kyoto — em particular Kitarō Nishida — e tradições filosóficas orientais, como Nāgārjuna, Sun Tzu e Lao Tsé, bem como com a tradição cristã medieval, sobretudo Duns Scot, no tratamento da questão de Deus como problema-limite da razão e da ontologia. Discípulo de Olavo de Carvalho desde 2017, é autor de “Aristóteles e a economia” (UICLAP, 2025), versão aprimorada de sua monografia.

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