Brasil Paralelo – Domingo sem Deus

  • Everton de Holanda
  • 25 jun 2026

A ficção [1] N.E. A imagem de capa deste artigo é adaptada da cena do filme Domingo sem Deus (2026). Fonte: Brasil Paralelo. é um universo criado pelo artista para retratar a realidade ou fazer com que o leitor entenda a realidade através da arte, na medida em que ela se assemelha ao mundo possível. E para que essa síntese seja perfeita, o conteúdo da obra precisa de uma forma que eleve o conteúdo, mesmo sendo ele superficial. Machado de Assis contemplava a superficialidade do meio em que vivia e ironizava-o. Criava formas de fazer com que seus leitores descobrissem a fragilidade do ambiente, a deficiência de caráter e o desejo de validação sem pudor através da fantasia.

Machado de Assis não precisava dizer que estava rodeado de gente que manipulava a opinião pública — para isso, ele criou o Segredo do Bonzo, onde um monge Pomadista e guru era capaz de esconder a realidade através de uma teoria que não condizia com a realidade. A Brasil Paralelo criou uma forma de negócio substancialmente lucrativo; seus financiadores conservadores e direitistas compraram, por anos, os documentários e aulas da produtora — com diversos especialistas — para manter de pé as suas produções.

Mesmo acompanhando e considerando a importância do trabalho da Brasil Paralelo, observei que eles deveriam dedicar-se a um projeto de revolução cultural capaz de criar um cenário superior à narrativa esquerdista e sem aquela roupagem político-ideológico, anti-esquerda, anti-woke e pró-cristã dos documentários, mas com o mesmo empenho vocacional de um Graciliano Ramos, que não reduzia a arte literária para obedecer aos desejos da classe política. Mas eles acordaram e decidiram criar ficção. E creio que o lançamento fez mais sucesso do que o produto-final — causando euforia aos que compraram por meio de gatilhos mentais positivos, e decepção dos que possuem o mínimo de capacidade crítica.

Domingo sem Deus” (2026) possuí algumas falhas de roteiro e direção. O filme tenta mostrar um dilema moral e religioso de um criminoso. A escolha da trama deixa o enredo inverossímil, criando, literalmente, um Brasil Paralelo completamente diferente da realidade em que vivemos. Walter, o protagonista, cresceu sem a presença paterna — é difícil imaginar um destino diferente quando um garoto cresce sem os limites que só a figura masculina consegue impor. Mas o filme não deixa a obviedade escapar; então, o roteirista constrói um personagem caricato que, inevitavelmente, entra para o mundo do crime ao ser influenciado pelas mais indigestas companhias.

O mesmo personagem que carrega um solo psíquico previsível, possui também uma sabedoria filosófica que não combina com a de um traficante. Logo no início do filme, Walter descobre que sua namorada está grávida e, junto à notícia, ouve a belíssima companheira dizer que “não consegue cuidar nem de si mesma, muito menos de uma criança” (itálicos nossos). Mas o traficante, com uma consciência moral e religiosa aguçada, diz que “Deus tem um propósito, e não colocaria aquela alma no ventre dela à toa” (itálicos nossos). É difícil acreditar que algo dessa amplitude poderia sair da boca de um traficante — e mesmo que a “suspension of disbelief” seja a chave interpretativa para absorvermos o discurso poético, a força da inverossimilhança da cena e do diálogo nos impede de sermos feitos de trouxa.

A previsibilidade do enredo e o destino de Walter tem uma verossimilhança com a vida de muitos criminosos. Entretanto, a mistura entre o “sagrado e o profano” construído no filme tende a nos oferecer um estereótipo de conversão ao Cristianismo que, em vez de nos fazer mergulhar nas profundezas da alma humana, deixa a leve impressão de que roteirista desejaria que esse estereótipo existisse na realidade sem a devida correspondência com a vida brasileira. E a progressão da narrativa vai deixando isso cada vez mais claro com a cena em que Walter entra numa paróquia para ser batizado à força. Apesar de achar a cena irreal, fiz o que Samuel Taylor Coleridge diz ser a condição básica para a apreciação da poesia: a suspensão da dúvida.

Mas é difícil acreditar que o protagonista, através de um sonho, ao ver a própria morte, se dirige na manhã seguinte para uma paróquia. Walter coloca uma arma na cabeça do padre e exige o Batismo. E cá entre nós: se um dia um criminoso contemplar na figura estereotipada de Walter um exemplo a ser seguido, o filme terá alcançado valor apologético, e não literário. O conteúdo e a forma fazem parte da engenharia literária. E no cinema, a direção, as decisões sobre o ritmo e atuação precisam condizer com a verossimilhança do enredo e dos diálogos. E nisso, o filme também acaba falhando. Os atores, por mais talentosos que sejam, deixam uma impressão — aos olhares mais atentos — de que eles não são os personagens em si.

É diferente quando contemplamos Leonardo Dicaprio interpretando uma cena bem construída. Em “Django livre”, por exemplo, assistimos o Calvin nas telas do cinema, e não o Leonardo Dicaprio. O roteiro e os diálogos estão tão bem construídos que enxergamos apenas o personagem, e não o ator. Em “Domingo sem Deus”, a construção do enredo desfavorece até os atores, como se eles precisassem manter a inverossimilhança apenas com a força da atuação — mas, se os diálogos, o enredo, ritmo e direção não estiverem impecáveis, a atuação perde força. O ritmo do filme também atropela os elementos primordiais que deveria existir: a tensão psicológica e o dilema moral sutil.

Um processo de conversão e tensão psicológica precisaria de muito mais do que duas horas de filme. Talvez, numa minissérie, fosse possível explorar o terreno psicológico, social e religioso — ou numa trilogia. Michael Corleone, em “O Poderoso Chefão”, precisou de dois filmes para fazer uma confissão sincera no terceiro filme. A mistura entre “sagrado e profano” era sutil: ao mesmo tempo que Michael dizia que aceitava o batismo, já havia mandado matar todos os inimigos da família Corleone. Mas em “Domingo sem Deus”, a tentativa de colocar todos esses elementos num só filme, deixou o dilema espiritual forçado e precoce. A vida na favela é retratada com honestidade e clareza. O personagem Dropê é um reflexo verossímil do mundo do crime.

Ele não é romantizado e nem menosprezado, mas está ali expressando de modo real as nuances do mal que um chefe do crime organizado carrega na alma, mas que se torna inverossímil quando pede a Walter para “se lembrar dele quando chegar no céu” (itálicos nossos) quando ambos estão caídos no chão depois de levarem um tiro. Ele poderia ter morrido ali mesmo, sem redenção, sem Deus, sem céu e sem inferno, bem como acontece no cotidiano na favela. “Domingo sem Deus” poderia ser melhor como ficção — e a Brasil Paralelo tem potencial para fazer ótimos filmes. Todavia, ele poderá servir de rascunho, um treino de escrita e direção para as próximas obras.

 

§ Referências


CARVALHO, Olavo de. Aristóteles em nova perspectiva: introdução à teoria dos quatros discursos. Campinas: Vide Editorial, 2013.

DJANGO Unchained. Direção: Quentin Tarantino. Produção: Stacey Sher, Reginald Hudlin e Pilar Savone. Nova York: The Weinstein Company; Los Angeles: Columbia Pictures, 2012. 1 DVD (165 min), colorido.

DOMINGO sem Deus. Direção: Breno Moreira. Produção: Henrique Carvalhaes e Ariel Hidal. São Paulo: Brasil Paralelo, 2026. 1 vídeo (100 min), colorido.

THE GODFATHER. Direção: Francis Ford Coppola. Produção: Albert S. Ruddy. Hollywood: Paramount Pictures, 1972. 1 DVD (175 min), colorido. 

References

References
1 N.E. A imagem de capa deste artigo é adaptada da cena do filme Domingo sem Deus (2026). Fonte: Brasil Paralelo.
Everton de Holanda

Everton de Holanda é formado em Administração de Empresas e, desde 2016, atua como psicoterapeuta, administrando sua própria clínica online. Além de atuar como psicoterapeuta em tempo integral, é escritor de ficção, professor de literatura e crítico literário e de cinema. A psicologia, a filosofia, a literatura, a poesia e o cinema constituem seus campos de pesquisa e estudo, aos quais se dedica há muitos anos, com a finalidade de ajudar seus pacientes a encontrar sentido, desenvolver força de personalidade e alcançar sobriedade psicológica.

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