Desde 2023, o Jornal Cidadania Popular deu início a problematização das tipologias de status-teórico através das quais os termos distinguem e conjugam as correntes em torno do filósofo Olavo de Carvalho (1947-2022), defendendo, pois, que os termos carvalhiana e carvalhianos eram (respectivamente) mais corretos, precisos e rigorosos para designar a filosofia de Olavo de Carvalho e conjugar os estudiosos do filósofo. A partir de então, recebemos uma centena de objeções, cujas alegações podem ser resumidas nos seguintes pontos: (i) o termo é horrível, seja sonoramente, estilisticamente ou esteticamente; (ii) o termo não se adequa à pronúncia gramatical e expressiva da língua portuguesa; e (iii) o termo não remete ou não faz menção a pessoa de Olavo de Carvalho.
§ Introdução
Foi com a resposta que Ronald Robson, no dia 06 de março de 2024, escreveu (“Rodolfo e o carvalho”) para objetar a nossa posição e proposta, que tivemos a oportunidade de esclarecer certos equívocos e ininteligibilidades presentes nessas centenas de objeções, bem como de contra-objetar certas (in)consciências gerais que possibilitam aos “alunos” plataformizados de Olavo de Carvalho (os quais, tomando o conceito descritivo que, desde junho de 2022, problematizamos criticamente e programaticamente — “O Imbecil Coletivo da direita” —, denominamos de “Imbecilidade Coletiva de olavistas”) proferi-las.
Em minhas duas contra-objeções [1]Ver: MEDEIROS, Rodolfo Melo de. O mínimo sobre Ronald Robson e os “subletrados” da mera tradição revolucionária. Jornal Cidadania Popular, João Pessoa, 11 abr. 2024. Disponível em: … Continue reading (“O mínimo sobre Ronald Robson e os “subletrados” da mera tradição revolucionária” e “O mínimo sobre o ventríloquo (ou Ronald Robson e o analfabetismo funcional)”), tentei explicar que a proposta de iniciar uma problematização terminológica (pesquisadores ‘carvalhianos’ e filosofia ‘carvalhiana’) não tinha por objetivo designar um termo que enriquecesse ou condizesse (estilisticamente, esteticamente, sonoramente ou visualmente) à língua portuguesa, mas sim problematizar um léxico científico que, tendo elevado rigor e exatidão conceitual, permitisse conceber um termo-conjugador designante [2] Ver: KRIPKE, Saul Aaron. O nomear e a necessidade. Lisboa: Gradiva Publicações, 2012, p.70. de uma comunidade de pesquisadores e estudiosos de Olavo de Carvalho, cujos membros buscariam, mediante procedimentos epistêmicos-teóricos de controle, revisão crítica e refino, gramaticalizar (enquanto temáticas proposicionais) as proposições que enunciam.
Essa proposta estava, pois, calcada na lógica do processo de pesquisa científica contemporânea, que compreende, como assinala Mauro Lucio Condé, professor de história da ciência da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que, para baixar a “complexidade dos sistemas complexos” [3] CONDÉ, Mauro Lúcio Leitão. Ciência, história e linguagem. 26 nov. 2018, São Carlos, IFSC/USP. Disponível em: https://www.youtube.com/live/Digy0tlaoQs?si=d7js_pFZDMkpSh1O. do real, é preciso criar “mais regras complexas” [4] Ibidem. , porque, “ao introduzir mais complexidade na complexidade” [5] Ibidem. (ou seja, um complexo aparato gramatical e representativo da natureza do real), “estabelecemos um tipo de simplicidade do sistema”. [6]Ibidem. Condé ilustra esse processo citando o exemplo das complexas sociedades contemporâneas, em que, através da criação de uma imensa complexidade de procedimentos e aparatos tecnológicos, … Continue reading Como busquei elucidar em minhas contra-objeções (ainda de que modo breve e geral), sabe-se, desde a epistemología de Thomas Samuel Kuhn [7]Para fins de esclarecimento, todos os termos, esquemas conceituais e léxicos citados, rearranjados operativamente ou tensionados de obras e/ou palestras de língua estrangeira foram traduzidos pelo … Continue reading (1922-1996), que a ciência, ao modificar a “forma como as palavras e frases se conectam à natureza” [8] KUHN, Thomas Samuel. El camino desde la estructura: ensayos filosóficos (1970-1993). Barcelona: Paidós: 2002, p.42. , muda o “significado do vocabulário conceitual” [9] KUHN, Thomas Samuel. El camino desde… Op.cit., p.41-50. , mudando, por sua vez, a “forma como seus referentes são determinados”. [10] KUHN, Thomas Samuel. El camino desde… Op.cit., p.42.
Ao apresentar os termos de um vocabulário a um “público não iniciado” [11] KUHN, Thomas Samuel. El camino desde… Op.cit., p.44. , a educação científica transmite e mantém o ensinamento de uma “taxonomia lexical” [12] KUHN, Thomas Samuel. El camino desde… Op.cit., p.116. através da qual os “novos iniciados aprenderão a reconhecer as semelhanças e diferenças da linguagem com a natureza” [13] KUHN, Thomas Samuel. El camino desde… Op.cit., p.44-45. , de modo a agrupá-las como uma “lista ou espaço de características, em que as justaposições metafóricas” [14] KUHN, Thomas Samuel. El camino desde… Op.cit., p.44. são generalizadas “como exemplos característicos da mesma coisa” [15] Ibidem. numa linguagem que, separando-os de “outras situações e outros objetos com os quais poderiam ser confundidos” [16] Ibidem. , proporciona um aprendizado de “duas faces da mesma moeda” [17] Ibidem. , quer dizer, aprendizado do “conhecimento das palavras e, ao mesmo tempo, do conhecimento da natureza”. [18] Ibidem.
Pois bem, duas situações instaram e fomentaram a escrita deste artigo:
(i) nas contra-objeções, não tive como problematizar (devido às limitações próprias e inerentes a um debate) uma tipologia epistêmica (status-teórico) dos termos-conjugadores, o que, posteriormente, levou-me a destacar o assunto e projetá-lo (idea-lo) como pesquisa autónoma de conjectura lógica-relacional mais gramaticalizada;
(ii) no dia 18 de maio de 2026, Bernardo Santos, tradutor e fundador do site “Diário Intelectual”, postou, em seu perfil no Instagram (Figura 1), que o termo “olaviano”, embora seja “uma das coisas mais horrendas que alguém pode escrever”, só não é pior do que “optar por “carvalhiano” (literalmente: “pau no cu”)”, de modo que o uso do termo “de Olavo” seria a “única opção sensata”.
A fim de atender às exigências do ponto (i) e de rebater, de modo científico e metodológico, as imbecilidades (a queda de consciência) do personagem do ponto (ii), o qual este artigo toma como representação do horizonte de (in)consciência que a “Imbecilidade Coletiva de olavistas” têm acerca do tema, é que se escreve esta pesquisa, que tem, pois, o objetivo de problematizar, desde uma inaugural e programática sistematicidade intra-lógica (pesquisa cuja unidade metodológica encontra-se na ordem lógica-relacional [19]Em vista dessa metodologia, esta pesquisa apresentará, em certas ocasiões, notas de rodapé definidoras dos esquemas conceituais operados, a fim de condensar seu procedimento (isto é, o … Continue reading interna de investigação em torno do objeto de estudo), como o status-teórico das taxonomias lexicais distingue e determina as linhas de formação das correntes em torno de Olavo de Carvalho, isto é, como os termos conjugam os modos pelos quais os sujeitos se situam, se determinam e se reconhecem como pertencentes a uma corrente (olavista, olaviana ou carvalhiana).
Como a Sociogenealogia [20]O termo “sociogenealogia” foi cunhado (recebendo uma primeira problematização conceitual) pelo sociólogo da educação Jean-Paul Laurens, em sua obra “1 sur 500” (1992). A sociologia de … Continue reading pragmática-epistemológica das correntes intelectuais (S(P-E) → CI) [21]Esta pesquisa esquematiza conceitualmente a S(P-E) → CI sob o léxico descritivo-programático de: investigação que formaliza reconstrutivamente a historicidade das pragmáticas (o fazer e o … Continue reading pode ser considerada uma agenda de pesquisa que não apenas não tem uma matriz disciplinar constituída ou instituida, como também não tem uma sistemática de objetos, metodologias e corpo teórico-referencial próprio, este artigo buscou inaugurar (ao tensionar o horizonte epistêmico da problemática das epistemologias de Thomas Kuhn e Paul Karl Feyerabend (1924-1994), das sociologias da ciência de Pierre Bourdieu (1930-2002) e Robert King Merton (1910-2003), da filosofia analítica de Saul Kripke (1940-2022) e da filosofia da linguagem de Ludwig Wittgenstein (1889-1951) em direção a um rearranjo teórico-objetal e problematizador) a cartografia programática dessa agenda de pesquisa.
Esta pesquisa intenta, portanto, problematizar, dentre outras, as seguintes perguntas:
(i) o uso dos termos “olavista”, “olaviano” e “carvalhiano” difere apenas por estilística gráfica ou pela correspondência a determinado status-objetal?
(ii) ao usar um determinado termo para designar algo, o indivíduo não estaria, ao mesmo tempo, conjugando-se em um tipo determinado que o diferencia do tipo determinado designado pelo termo de outra pessoa?
(iii) ser e se declarar como “olavista” é o mesmo que ser e se declarar como “olaviano”, assim como ser e se declarar como “olaviano” é o mesmo que ser e se declarar como “carvalhiano” (ou, dito de outro modo, se os termos são equivalentes, isso implica uma identidade de tipo entre eles)?
Por fim, será apresentado, na parte final deste artigo, uma cartografia bibliográfica-referencial para as possíveis futuras pesquisas.
1§ A pragmática linguística-semântica de mundo como tipologia epistêmica de determinação sociogenealógica das correntes intelectuais em torno de Olavo de Carvalho
Desde, pelo menos, o positivismo lógico-empirista de Rudolf Carnap (1891-1970), passando pelo naturalismo empirista de Willard Van Orman Quine (1908-2000), o historicismo epistemológico de Thomas Kuhn, o pluralismo metodológico de Paul Karl Feyerabend, a ontologia-epistemológica de Mario Augusto Bunge (1919-2020), até a sistemática-estrutural de Lorenz Bruno Puntel (1935-2024), a epistemologia (percorrendo uma trajetória de progressão, revisão crítica, até a sucessão de disputas, rupturas e refinamentos) passou a compreender que a linguagem tem um estatuto ontológico no interior de uma teoria, tendo em vista que as entidades teóricas são admitidas, excluídas, enunciadas, observadas, descritas, pensadas, operadas, estabilizadas e legitimadas como domínio-objetal [22] Ver: PUNTEL, Lorenz Bruno. Estrutura e ser: um quadro referencial teórico para uma filosofia sistemática. São Leopoldo: Editora UNISINOS, 2008, p.37-38. mediante uma pragmática linguística (linguagem ontológica), isto é, que as coisas, mediante uma pragmática linguística-semântica [23]Esta pesquisa toma esse esquema conceitual mediante o tensionamento e rearranjo operativo dos léxicos wittgensteiniano (“prática linguística”) e bungiano (“semântica”) enquanto exercício … Continue reading, revelam-se e manifestam-se (enquanto status-objetais pensados ou pensáveis) como um mundo de compromissos.
Como a filosofia analítica de John Searle (1932-2025) ensina, uma comunidade [24]Para fins desta pesquisa, o esquema conceitual do termo ‘corrente intelectual’ é tomado tensionalmente do léxico (“comunidade”) da sociologia da ciência de Robert Merton, qual seja, as … Continue reading, mediante “atos de fala” [25] Ver: SEARLE, John Rogers. The logical structure of human civilization. 2014, Bloomington, Indiana University. Disponível em: https://youtu.be/wO6WcPX7BR0?si=3S_FvjxHZVno-K3O. , aplica “regras constitutivas” [26] Ibidem. (consideradas enquanto regras declarativas que constituem o próprio comportamento que regulam), de modo que, ao declarar a existência de uma coisa, os indivíduos que pertencem àquela comunidade tornam a coisa (a que os termos declarativos se referem) uma realidade própria (ontológica) dentro de um mundo semântico-epistêmico, isto é, impõem um “status de função a objetos e pessoas” [27] Ibidem. , cujas atribuições só podem ser realizadas em virtude da aceitação coletiva que esse status tem perante os membros da comunidade.
Em sua epistemologia, Feyerabend entendeu que a “linguagem usada pelo ‘homem comum’ (seja ele quem for)” [28] FEYERABEND, Paul Karl. Philosophical papers: realism, rationalism and scientific method. Cambridge: Cambridge University Press, 1981, v.1, p.31. é uma “mistura de línguas” [29] Ibidem. que descreve os resultados de um comportamento verbal ou sensorial, quer dizer, um “meio de comunicação dotado de uma interpretação recebida de teorias diversas (frequentemente incompatíveis e obsoletas)” [30] Ibidem. , de tal forma que as teorias adotadas pelo ‘homem comum’ não apenas influenciam as suas pragmáticas ou “hábitos linguísticos” [31] Ibidem. , como também convertem a sua própria linguagem em uma linguagem de observação, entendida, pois, como uma interpretação que foi determinada pela teoria utilizada na explicação do observado (interpretação que, por sua vez, “muda assim que a teoria muda” [32] Ibidem. ).
Tendo, pois, uma linguagem que “contém elementos teóricos” [33] FEYERABEND, Paul Karl. Philosophical papers: knowledge, science and relativism. Cambridge: Cambridge University Press, 1999, v.3, p.47. , o ‘homem comum’, quando usa a palavra de uma certa maneira, “faz implicitamente suposições ‘definicionais’ sobre a natureza” [34] FEYERABEND, Paul Karl. Philosophical papers: knowledge, science… Op.cit., p.32. do observado, conferindo-lhe uma garantia de certeza, que, contudo, não é apresentada claramente na “forma de definições explícitas”. [35] Ibidem. Assim, ao observar e declarar algo na experiência cotidiana, os indivíduos pressupõem que o “observável existe” [36] FEYERABEND, Paul Karl. Philosophical papers: knowledge, science… Op.cit., p.47. , ou seja, que aquilo que observam e declaram refere-se a uma coisa, uma entidade que se manifesta mediante a pragmática linguística-semântica que o indivíduo assume diante de um “conjunto de situações” [37] FEYERABEND, Paul Karl. Philosophical papers: realism, rationalism… Op.cit., p.18. , sendo, pois, tratada como coisa realmente existente.
Portanto, à luz da teoria que uma comunidade possui (isto é, de uma “teoria que está sempre implícita na linguagem observacional” [38] FEYERABEND, Paul Karl. Philosophical papers: knowledge, science… Op.cit., p.48. ), os indivíduos (que pertencem à comunidade) reinterpretam ou mudam suas experiências com a “natureza dos fatos já observados” [39] FEYERABEND, Paul Karl. Philosophical papers: knowledge, science… Op.cit., p.47-48. , na medida em que usam, mediante uma pragmática linguística-semântica, termos que expressam algum ponto de vista, o qual contém, por sua vez, uma “ontologia implicitamente desenvolvida”. [40] FEYERABEND, Paul Karl. Philosophical papers: realism, rationalism… Op.cit., p.78. Mediante uma pragmática linguística-semântica, as palavras podem significar exemplos de uma coisa, ou seja, “nomear os tipos de coisas, situações e propriedades que ocorrem no mundo, tal como o conhecemos” [41] KUHN, Thomas Samuel. The last writings of Thomas S. Kuhn: incommensurability in science. Chicago: University Chicago Press, 2022, p.168. , num processo que, por sua vez, permite a uma comunidade compartilhar (ao “discriminar tipos e implantar um repertório seletivo de respostas comportamentais a eles” [42] Ibidem. ) um “conjunto estruturado de tipos” [43] Ibidem. , através do qual “cortam categorialmente os seus mundos, sem o qual eles não seriam mundos de forma alguma”. [44] Ibidem.
Assim, mesmo não conseguindo fornecer uma definição compartilhada para a coisa (uma “lista das características definidoras” [45] KUHN, Thomas Samuel. The last writings of Thomas… Op.cit., p.170. dela), os indivíduos que pertencem a uma comunidade “aplicam sem problemas” [46] Ibidem. os termos dela ao cotidiano, uma vez que seus significados (as “características que permitem que um usuário escolha os referentes do termo” [47] KUHN, Thomas Samuel. The last writings of Thomas… Op.cit., p.173. ) são propriamente um “produto da experiência” [48] Ibidem. , o qual depende, por conseguinte, das crenças que esses indivíduos têm sobre as “propriedades e modos de comportamento dos referentes”. [49] KUHN, Thomas Samuel. The last writings… Op.cit., p.172-173. Nesse sentido, os indivíduos não se conjugam ou se filiam a uma comunidade pelos conhecimentos aprendidos através do “processo de transmissão” [50] KUHN, Thomas Samuel. The last writings… Op.cit., p.174. dos significados dos termos, mas sim pelos “conhecimentos e crenças” [51] Ibidem. aprendidos mediante uma aplicação compartilhada de “algo sobre as coisas e situações às quais os termos se referem” [52] Ibidem. (isto é, aos “tipos de objetos, materiais, situações ou propriedades que podem ocorrer no mundo” [53] KUHN, Thomas Samuel. The last writings… Op.cit., p.175. ), aprendizado de significado que se obtém, portanto, pelo “reconhecimento do rótulo” [54] Ibidem. do termo (do que ele é e como seu referente se comporta).
Na medida em que o significado dos termos de uma comunidade está vinculado aos tipos taxonômicos aos quais se referem, os indivíduos se filiam e se conjugam a ela mediante a aplicação ou “exposição direta do tipo” [55] KUHN, Thomas Samuel. The last writings… Op.cit., p.177. , cuja aprendizagem permite reconhecer os tipos taxonômicos com os quais aquela comunidade está compromissada (aprendizagem de mundo constituída mediante a pragmática linguística-semântica própria (ontológica) daquela comunidade), a ponto de não apenas “nenhum termo ter significado independente dos outros” [56] Ibidem. , como também de não haver a necessidade de significar previamente as palavras para determinar “se uma tentativa de aplicação está certa ou errada”. [57] Ibidem. Conferindo à comunidade uma linguagem ontológica, a pragmática linguística-semântica dela permite que seus membros entendam, numa prática de linguagem que “tem vida própria” [58] KUHN, Thomas Samuel. The last writings… Op.cit., p.178. (ou seja, numa pragmática de mundo), os dizeres uns dos outros “sem que precisem ser informados sobre o que os termos significam” [59] KUHN, Thomas Samuel. The last writings… Op.cit., p.177. , aprendizado, portanto, que (sendo adquirido pelo “uso ou exposição do termo às situações” [60] KUHN, Thomas Samuel. The last writings… Op.cit., p.178-179. às quais se refere) determina uma tipologia sobre a natureza das coisas, bem como sobre a posição objetal em que a entidade pode ser situada no interior do mundo semântico-epistêmico [61]Para fins desta pesquisa, esse termo é tomado enquanto esquema conceitual de uma regra imanente de sentido, posição ordinal, inteligibilidade, compromisso e legitimidade das entidades objetivadas … Continue reading de ação da comunidade.
Desse modo, a pragmática linguística-semântica de uma comunidade reflete-se (num “emaranhamento profundo e indissociável” [62] KUHN, Thomas Samuel. The last writings… Op.cit., p.180. ) nos indivíduos que, ao usarem os termos dela, são por ela constituídos, habitando, por sua vez, sua pragmática própria (ontológica) de mundo. Tal pragmática linguística-semântica é, pois, uma herança constitutiva de sucessivas aplicações e ajustes ao mundo ao qual os próprios termos dela deram acesso, isto é, uma identificação adaptada ao próprio “ambiente natural e social” [63] Ibidem. da comunidade, a ponto de seus usuários lidarem “precisamente com as circunstâncias e gama de fenômenos” [64] KUHN, Thomas Samuel. The last writings… Op.cit., p.181. para os quais os termos foram aplicados e ajustados, barrando, em contrapartida, a “adição de termos que violem o princípio de não sobreposição” [65] Ibidem. (considerado enquanto vedação de termos que sejam incompatíveis com os tipos aos quais os termos dela se referem). Sendo pressuposta pelos indivíduos de uma comunidade “em suas relações uns com os outros e com o seu próprio mundo” [66] Ibidem. (o qual limita, por sua vez, “o que essas relações podem realizar” [67] Ibidem. ), a herança constitutiva de uma pragmática linguística-semântica própria (ontológica) engendra a filiação dos seus usuários à respectiva comunidade, permitindo-lhes habitar a pragmática de mundo dela, envolver-se nela e no discurso central sobre as entidades que ela naturaliza, o que implica, pois, a “socialização das expectativas” [68] Ibidem. (isto é, seu compartilhamento) sobre a realidade das coisas que ela revela e sobre as maneiras como se comportam.
Mesmo não exigindo que os indivíduos pertencentes a uma comunidade compartilhem “todas as mesmas crenças e expectativas” [69] Ibidem. sobre os termos referentes aos tipos da comunidade, o princípio de não sobreposição restringe fortemente “o que essas crenças podem ser” [70] Ibidem. , a fim de impedir que, na “aquisição de um conjunto de tipo” [71] Ibidem. , sejam formulados (conceitualmente ou verbalmente) termos que não se refiram à realidade da coisa revelada por aquela pragmática linguística-semântica (quer dizer, que sejam formuladas “certas crenças e expectativas mantidas por usuários” [72] KUHN, Thomas Samuel. The last writings… Op.cit., p.182. de uma comunidade que é constituída por outra pragmática linguística-semântica, estando, consequentemente, compromissada com outro conjunto de tipo). Esse princípio de não sobreposição torna-se, pois, um princípio de crenças e expectativas que se estruturam na prática do uso declarativo ou descritivo do termo ao tipo a que ele se refere, ou seja, na prática de “construção do objeto de conhecimento” [73] BOURDIEU, Pierre. O senso prático. Petrópolis: Editora Vozes, 2009, p.86. (da ação adquirida no aprendizado semântico-epistêmico sobre o comportamento do tipo) em uma realidade própria (ontológica) de mundo da comunidade, no qual as coisas, ao se manifestarem mediante a pragmática linguística-semântica com a qual os membros são constituídos e estão compromissados, “tendem a aparecer como necessárias e naturais”. [74] BOURDIEU, Pierre. O senso prático… Op.cit., p.88.
Inscritas e inculcadas como coisas naturais e necessárias da própria realidade (isto é, como suas “condições objetivas” [75] BOURDIEU, Pierre. O senso prático… Op.cit., p.89. ), a aplicação semântica-epistêmica do tipo “engendra objetivamente” [76] Ibidem. crenças e expectativas “compatíveis e pré-adaptadas às exigências” [77] Ibidem. das condições naturalizadas pela comunidade, de tal forma que não apenas excluem [78]Os “atributos de admissibilidade e inadmissibilidade” diferenciam, portanto, “tipos ou padrões distintivos de comportamentos” em relação aos de outras comunidades, permitindo a cada uma … Continue reading (mesmo “sem qualquer exame” [79] BOURDIEU, Pierre. O senso prático… Op.cit., p.89. ) os termos e usos que se apresentem como incompatíveis com os tipos de seu mundo semântico-epistêmico, mas também impedem que, sendo inacessíveis à sua pragmática linguística-semântica, eles possam ser pensados. Sendo, por conseguinte, produtos de “práticas fundadas na experiência” [80] Ibidem. , os termos que os indivíduos se valem são mais do que apenas instrumentos de declaração ou descrição de alguma coisa, porque os tipos (a que os termos se referem) são estruturados pelas condições de uso e de identificação semântica-epistêmica adquirida e acessada pela comunidade, as quais são, por sua vez, determinadas pela realidade própria (ontológica) de mundo que se manifesta mediante a pragmática linguística-semântica daquela comunidade.
Constituída mediante uma pragmática linguística-semântica própria (ontológica), a comunidade aplica ao termo ou nome uma “família de associações descritivas” [81] KRIPKE, Saul Aaron. O nomear e a necessidade… Op.cit., p.78. , a ponto de objetivar, através da incorporação da identificação de tipo “que satisfaz um número suficiente de condições presentes” [82] KRIPKE, Saul Aaron. O nomear e a necessidade… Op.cit., p.79. nas coisas (o “conteúdo real que se pretende referir” [83] KRIPKE, Saul Aaron. O nomear… Op.cit., p.72-75. ), o “referente do nome” [84] KRIPKE, Saul Aaron. O nomear… Op.cit., p.78. ou “coisa nomeada”. [85] KRIPKE, Saul Aaron. O nomear… Op.cit., p.71. Assim, “apesar de não dar, de certo modo, o significado” [86] KRIPKE, Saul Aaron. O nomear… Op.cit., p.79. único do nome ou termo, na medida em que o aprendizado semântico-epistêmico identifica um comportamento de tipo como propriedade da coisa, aquilo que uma comunidade usa para objetivar (reconhecer) “a quem ou a que alguém se refere quando diz” [87] Ibidem. tal nome, estabelece-se como seu domínio de aplicação única (ontológica). Decorrente disso, os tipos aos quais os termos de uma comunidade se referem são objetivados (reconhecidos) através do conhecimento que os indivíduos pertencentes tem das coisas (através do aprendizado que adquirem no interior do mundo semântico-epistêmico de ação daquela comunidade), considerado enquanto um saber sobre as coisas capaz de identificar um comportamento de tipo como sendo aquilo “que satisfaz as propriedades delas” [88] KRIPKE, Saul Aaron. O nomear… Op.cit., p.75. , tornando-o, pois, uma aplicação “unicamente identificadora” [89] Ibidem. para objetivação da realidade da coisa (estabelecimento).
Para se referir a “coisas particulares ou a um estado de coisas” [90] KRIPKE, Saul Aaron. O nomear… Op.cit., p.89. , uma comunidade objetiva (reconhece) uma associação descritiva para um termo ou nome, aplicando, por sua vez, uma identificação de propriedade para á coisa, propriedade, pois, que não depende apenas da própria coisa, mas também de como o tipo dela se manifesta e se consolida (mediante a pragmática linguística-semântica própria (ontológica) que constitui aquela comunidade) como coisa real e entidade necessariamente existente. Enquanto “produto de uma experiência histórica” [91] BOURDIEU, Pierre. O senso prático… Op.cit., p.90. de uso declarativo ou descritivo dos termos (ao tipos aos quais eles se referem), as crenças ou expectativas dos indivíduos pertencentes a uma comunidade “carregam a presença ativa” [92] Ibidem. do mundo semântico-epistêmico daquela comunidade, no interior do qual o declarado ou descrito adquire um domínio de aplicações constantes ao tipo, que consiste no aprendizado das objetivações em uma forma determinada de vida [93]No âmbito desta pesquisa, o esquema conceitual ‘forma determinada de vida’ é tomado mediante o tensionamento e rearranjo operativo do léxico (“forma de vida”) de Wittgenstein. Ver: … Continue reading (de “fazer ou não fazer” [94] BOURDIEU, Pierre. O senso prático… Op.cit., p.88. , querer ou não querer), constituída, pois, por uma pragmática linguística-semântica própria (ontológica) mediante a qual os termos declarados ou descritos se revelam como coisas e estabelecem-se como entidades reais, necessárias e naturais.
Tendo isso em vista, as crenças de uma comunidade (ou seja, o produto histórico de usos declarativos ou descritivos regulares) condicionam um “senso comum de condutas razoáveis e possíveis” [95] BOURDIEU, Pierre. O senso prático… Op.cit., p.92. aos indivíduos que a ela pertencem, sancionando a aplicação e ajuste adquiridos no aprendizado semântico-epistêmico do termo ao tipo a que se refere, excluindo, portanto, “sem violência e sem argumento, todas as loucuras” [96] Ibidem. (isto é, aquilo que não pode ser reconhecido como existente em seu mundo semântico-epistêmico) “incompatíveis com as condições objetivadas”. [97] Ibidem. A crença inculca-se, pois, no indivíduo pertencente a uma comunidade como um “processo quase mágico de socialização” [98] BOURDIEU, Pierre. O senso prático… Op.cit., p.95. , um processo habitual e ordinário de atribuição de tratamentos ou funções semânticas-epistêmicas a termos, a ponto de torná-los depósitos naturais e ontológicos das entidades do mundo. Nesse sentido, a crença que o indivíduo de uma comunidade possui não é aprendida enquanto tal, mas sim enquanto um domínio semântico-epistêmico estruturado pelas associações declarativas ou descritivas dos termos aplicadas aos tipos, aprendizado, por sua vez, que “só acontece na prática” [99] BOURDIEU, Pierre. O senso prático… Op.cit., p.150. de identificação do comportamento do tipo a que o termo se refere, ou seja, mediante a determinação constitutiva da pragmática linguística-semântica própria (ontológica) pela qual os tipos se manifestam e se consolidam como coisas reais e necessárias.
Enquanto “incorporação da história” [100] BOURDIEU, Pierre. O senso prático… Op.cit., p.95. compartilhada dos usos declarativos ou descritivos no interior de um mundo semântico-epistêmico, as crenças “são mutuamente compreensíveis e ajustáveis e, ao mesmo tempo, dotadas de unidade de senso comum objetivo” [101] Ibidem. que assegura, devido à sua irredutibilidade às “intenções subjetivas e projetos conscientes” [102] Ibidem. , a socialização dos usos e o “reforço contínuo de cada um deles”. [103] BOURDIEU, Pierre. O senso prático… Op.cit., p.96. Produto histórico compartilhado de um uso declarativo ou descritivo dos termos, as crenças dos indivíduos “refletem a diversidade na homogeneidade” [104] BOURDIEU, Pierre. O senso prático… Op.cit., p.99-100. da comunidade (a qual eles pertencem), de tal forma que cada crença individual é uma “variante estrutural das outras” [105] BOURDIEU, Pierre. O senso prático… Op.cit., p.100. , uma expressão de singularidade [106]A “sensação que o indivíduo tem de estar ‘de acordo consigo mesmo’ frequentemente nada mais é do que o resultado de estar ‘de acordo’” com os tipos aprendidos nas aplicações … Continue reading situada no interior de um mundo semântico-epistêmico, o qual garante (ao favorecer e reforçar os tipos e as condições socializadas de objetivação) “a sua própria constância e sua própria defesa contra questionamentos críticos” [107] BOURDIEU, Pierre. O senso prático… Op.cit., p. 100. , condicionando, por conseguinte, os “índices concretos do acessível e do inacessível” [108] BOURDIEU, Pierre. O senso prático… Op.cit., p.106. , quer dizer, do que pode ou não ser reconhecido como existente, como “sagrado ou profano”. [109] Ibidem.
Por conseguinte, as crenças (os produtos das práticas históricas de uso declarativo ou descritivo dos termos no interior de um mundo semântico-epistêmico) condicionam “tacitamente” [110] BOURDIEU, Pierre. O senso prático… Op.cit., p.110. os códigos de filiação e pertença a uma comunidade, sancionando, pois, o aprendizado dos tipos, bem como estabilizando os “ritos de admissibilidade” [111] Ibidem. e inadmissibilidade das objetivações que foram naturalizadas e pressupostas enquanto “doxa” [112] BOURDIEU, Pierre. O senso prático… Op.cit., p.111 [itálico nosso]. ontológica socializada, sem a necessidade de “cálculo estratégico, referência consciente a normas ou interação direta e explícita” [113] BOURDIEU, Pierre. O senso prático… Op.cit., p.97. entre os indivíduos pertencentes a comunidade. Ao contrário, portanto, de uma “adesão a um corpo de dogmas e de doutrinas” [114] BOURDIEU, Pierre. O senso prático… Op.cit., p.112. , as crenças de uma comunidade são determinadas como um “estado de corpo” [115] Ibidem. , como uma objetivação ontológica das coisas, ou seja, como um estado incorporado de pertença, que é inculcado sob a forma de um aprendizado semântico-epistêmico das aplicações para identificar os comportamentos dos tipos a que os termos se referem, tornando-os, por sua vez, “depósitos e lembretes” [116] Ibidem. naturais e ontológicos das entidades do mundo.
Estando, pois, constituídas e determinadas por uma pragmática linguística-semântica própria (ontológica), as crenças condicionam uma doxa ontológica compartilhada, um “senso comum de sensatez” [117] BOURDIEU, Pierre. O senso prático… Op.cit., p.113. e naturalização da entidade objetivada, aparecendo, por conseguinte, sob a forma determinada de vida de uma comunidade (isto é, como a realidade ontológica de mundo dela), a qual revela muito mais do que aquilo que os indivíduos (que a ela pertencem) “imaginam que fazem” [118] Ibidem. ou querem. Na medida em que são constituídos mediante uma pragmática linguística-semântica própria (ontológica), os indivíduos pertencentes a uma comunidade estão, ao mesmo tempo, “tomados e engajados” [119] BOURDIEU, Pierre. O senso prático… Op.cit., p.135. pelo (e no) jogo dela, que consiste, pois, em um movimento de aplicação dos seus termos para identificar e antecipar no presente os comportamentos dos tipos (aos quais os termos se referem), ou seja, o “por-vir” [120] BOURDIEU, Pierre. O senso prático… Op.cit., p.136. das entidades que se revelam, se estabelecem e se consolidam (no “devir potencial” [121] BOURDIEU, Pierre. O senso prático… Op.cit., p.135. das objetivações que seus termos antecipam) como coisas reais, naturais e necessárias.
Enquanto produto de uma experiência histórica de uso dos termos que é “incorporada como natureza” [122] BOURDIEU, Pierre. O senso prático… Op.cit., p.94. (às custas do esquecimento de sua historicidade), as condições objetivadas que foram admitidas e aprendidas por uma comunidade só podem ser plenamente explicitadas pela formalização reconstrutiva da pragmática linguística-semântica que constituiu o mundo de compromissos e de crenças compartilhadas daquela comunidade, permitindo, por sua vez, revelar o que seus termos condensam (ou seja, as entidades objetivadas que eles ontologicamente designam).
1.1 Esquematização lógica-simbólica da S(P-E) → CI
1.1.1 – Definamos
I – PLS = (U, Ap, I)
* PLS = Pragmática linguística-semântica própria (ontológica)
* U = Usos históricos dos termos
* Ap = Aplicações dos termos aos tipos
* I = Identificação dos tipos
II – PM (enquanto operacional de uso e aplicações) ≡ RM (enquanto mundo vivido e naturalizado)
* PM = Pragmática própria (ontológica) de mundo
* RM = Realidade ontológica de mundo
III – MSE = Mundo semântico-epistêmico
IV – T = A (I, Ct, Rpt)
* T = Tipos objetivados
* A = Aprendizado
* I = Identificação dos tipos
* Ct = Comportamentos identificados
* Rpt = Reaplicações futuras dos termos segundo o tipo
V – C = Inc (U, Apc, T)
* C = Crenças
* Inc = Incorporação histórica
* U = Uso histórico dos termos
* Apc = Aplicações dos termos aos tipos no interior do mundo semântico-epistêmico
* T = Tipos identificados no mundo semântico-epistêmico
VI – O = N (C)
* O = Objetivação ontológica
* N = Naturalização como propriedades do mundo
* C = Crenças
VII – D = Aa (O)
* D = Doxa
* Aa = Aparência autoevidente
* O = Objetivação ontológica
1.1.2 Operadores
I – PLS → PM ≡ RM
* Semântica lógico-relacional do operador: Constitui.
II – PM ⇒ MSE
* Semântica lógico-relacional do operador: Estrutura internamente.
III – MSE → T
* Semântica lógico-relacional do operador: Torna reconhecível.
IV – T → C
* Semântica lógico-relacional do operador: É incorporado em.
V – C → O
* Semântica lógico-relacional do operador: Naturalização.
VI – O → D
* Semântica lógico-relacional do operador: Aparece como.
VII – D → MSE
* Semântica lógico-relacional do operador: Resitua.
2§ A tipologia epistêmica da pragmática linguística-semântica: uma operação lógica-simbólica dos termos-conjugadores (olavista, olaviano e carvalhiano)
Pode-se, pois, dizer que um indivíduo, quando usa um termo para se declarar ou se descrever como olavista, olaviano ou carvalhiano, manifesta um compromisso não apenas com a comunidade do tipo na qual foi conjugado, mas também com uma pragmática de mundo (com uma forma determinada de vida), cujas entidades objetivadas revelam-se e tornam-se determinadas como coisas reais pela pragmática linguística-semântica própria (ontológica) que a constitue.
A partir desses diferentes compromissos, os indivíduos pertencentes às comunidades professam (como se estivessem em ‘mundos paralelos’) realidades ontologicamente “incomensuráveis”, incomunicáveis e incompatíveis, considerada enquanto expressão de uma forma determinada de vida, bem como de uma cosmovisão (de valores, de vivências, de horizonte imaginativos e linguísticos, de aptidões operacionais-teóricas, de acervos críticos e educacionais, de aportes sociais, econômicos, etc) sobre as coisas e sobre si mesma (isto é, sobre a realidade das coisas e sobre a sua pragmática própria (ontológica) de mundo), condição, portanto, que posiciona os indivíduos daquela comunidade numa situação existencial radicalmente distinta dos indivíduos das demais comunidades.
Sendo, por conseguinte, constituído e determinado mediante a pragmática linguística-semântica da comunidade (a que o indivíduo pertence), o mundo semântico-epistêmico daquela comunidade “não é um país distante” [123] KRIPKE, Saul Aaron. O nomear… Op.cit., p.93. que possa ser encontrado, mas sim um mundo que está ontologicamente tão distante do mundo semântico-epistêmico do indivíduo de outra comunidade que eles nunca se alcançariam, ainda que viajassem “mais rápido do que a luz”. [124] Ibidem. Nesse sentido, descrever algo desde uma posição carvalhiana é admitir e definir entidades cujos tipos não apenas são inconcebíveis para um olavista, como também indizíveis e inexistentes, quer dizer, que não entram sequer no seu horizonte de possibilidade imaginativa [125]Toma-se este esquema conceitual mediante tensionamento e rearranjo operativo do léxico da ontologia carvalhiana dos discursos. Ver: CARVALHO, Olavo de. Aristóteles em nova perspectiva: introdução … Continue reading (as possibilidades que ele enxerga ou as imagens possíveis que presume). [126]Nesse caso, seria mais fácil para um olavista, por exemplo, imaginar como real a existência do dragão “Smaug”, da obra “O hobbit” (2019), do que imaginar como possível (e, menos ainda, … Continue reading
Por sua vez, a pesquisa científica, embora tenha por “interesse primordial” [127] MERTON, Robert King. Sociologia… Op.cit., p.646. a produção de conhecimentos, pouco importando-se com outras “zonas de interesse, não se faz num vácuo social” [128] Ibidem. , pois suas descobertas e “seus efeitos se ramificam” [129] Ibidem. para outras comunidades, perturbando e desafiando (ao submeter a um “exame e discussão as bases da sua autoridade, da sua rotina consagrada, dos procedimentos estabelecidos e dos confortáveis e sagrados pressupostos” [130] MERTON, Robert King. Sociologia… Op.cit., p.647. de suas crenças) os “valores, interesses e sentimentos” [131] MERTON, Robert King. Sociologia… Op.cit., p.646. delas. Colocando, pois, problemas a respeito de “todos os aspectos da natureza e da sociedade” [132] MERTON, Robert King. Sociologia… Op.cit., p.648. , a prática científica, “sempre que leva suas investigações a terrenos” [133] Ibidem. em que existem pragmáticas próprias (ontológicas) de mundo, “entra em conflito psicológico com as atitudes” [134] Ibidem. e as crenças que foram “cristalizadas e ritualizadas” [135] Ibidem. por outras comunidades, cujos valores resistem aos termos do “exame profano da lógica científica”. [136] Ibidem.
Ao contrário, portanto, das pragmáticas de mundo das demais comunidades, o cânon de uma pesquisa científica segue um programa de “métodos por meio dos quais os conhecimentos” [137] MERTON, Robert King. Sociologia… Op.cit., p.652. são procedimentalizados, processados dinamicamente e validados, bem como classificados e acumulados em acervos, submetendo, pois, as suas “pretensões à verdade, quaisquer que sejam suas origens, a critérios impessoais preestabelecidos” [138] MERTON, Robert King. Sociologia… Op.cit., p.654. (razão por que o pesquisador científico não reconhece a “separação entre o sagrado e o profano, entre o que exige respeito sem crítica e o que pode ser analisado” [139] MERTON, Robert King. Sociologia… Op.cit., p.662. ). Na medida em que o tipo (a que o termo se refere) é identificado mediante a aplicação de uma família de associações declarativas ou descritivas ao termo ou nome, o termo-conjugador só poderá ser um designador “fortemente rígido” [140] KRIPKE, Saul Aaron. O nomear… Op.cit., p.99 [itálico nosso]. se não significar o mesmo que as propriedades de declaração ou de descrição antropomórficas [141]A ‘antropomorfização’ é um esquema conceitual tomado tensionalmente do léxico mertoniano (“papel-modelo de desempenho”), a saber, uma identificação com um “indivíduo de … Continue reading associadas ao autor, ou seja, só e tão somente se designar um objeto de identidade transcendental em meio aos diferentes mundos semânticos-epistêmicos das correntes (comunidades).
2.1 Tipologia epistêmica dos termos-conjugadores (olavista, olaviano e carvalhiano)
Tendo isso em vista, pode-se estatuir tipologicamente que:
I – Quanto mais o tipo objetivado for um demarcador identitário [142]Toma-se esse esquema conceitual mediante o tensionamento e rearranjo operativo do léxico bourdieusiano (“identidade de representação performativa”), ou seja, uma “identidade que é … Continue reading que remete o termo-conjugador a pessoa (a figura pessoal) de Olavo de Carvalho (isto é, quanto mais antropomorfizado for esse tipo objetivado) mais a corrente conjugada por esse termo estará afastada do filosofar de Olavo de Carvalho (filosofia carvalhiana).
II – Quanto menos o tipo objetivado for um demarcador identitário que remete o termo-conjugador a pessoa de Olavo de Carvalho (ou seja, quanto mais esse tipo objetivado for desantropomorfizado) mais a corrente conjugada por esse termo estará próxima do filosofar de Olavo de Carvalho (filosofia carvalhiana).
2.1.1 Olavista
No ‘olavismo’, confluem e coexistem concomitantemente três setores ou espectros [143]O sentido desse esquema conceitual (‘setores ou espectros’) é tomado mediante tensionamento e rearranjo operativo do léxico mertoniano (“subgrupo”), ou seja, setores no interior de uma … Continue reading a partir dos quais Olavo de Carvalho é visto e reputado segundo um panorama fenomênico de consequências ou de influências, circunstâncias experienciais e incisões ascéticas-civilizacionais [144]A preparação de sujeitos “para viverem em sociedade”, ou seja, a capacitação de indivíduos para torná-los aptos a uma “participação consciente e responsável” na sociedade e política … Continue reading, as quais podem (ou não) condicionar uma interdependência entre esses setores ou espectros. Por conseguinte, pode-se definir um olavista como alguém que enxerga Olavo de Carvalho segundo um (ou alguns) dos seguintes setores ou espectros [145]Para fins desta pesquisa, cada setor ou espectro está respectivamente representado por numerados, de modo que o numerado I (N-I) corresponde ao primeiro setor ou espectro olavista, enquanto o N-II … Continue reading:
I – Analista político e/ou geopolítico cujas “previsões acertadas” quebraram a hegemonia cultural-política da assim chamada “esquerda”, salvando, pois, o Brasil do caos, desordem e imoralidade “esquerdista”;
a) escritor que abriu um “rombo” na hegemonia intelectual dominante, colocando em circulação milhares de obras e autores que, até então, eram omitidos ou desconhecidos;
b) professor cuja expressividade (oral e escrita) facilitou a explicação (numa linguagem mais simples e inteligível) de filósofos e intelectuais técnicos e complexos.
II – Personalidade que salvou as “almas” da banalidade e mesquinhez;
a) presença que efetuou uma mudança existencial na vida de um sujeito;
b) pessoa que transformou e desenvolveu as assim chamadas “personalidades” para a sinceridade;
c) pessoa que despertou a inteligência dos sujeitos para uma decisão existencial mais serena, forte, madura e virtuosa.
III – Indivíduo que preparou as pessoas para a assim chamada “realidade” (para enfrentar o “caos” que as rodeia), numa recondução ordenada de quem se é e como se age enquanto:
a) pai/mãe;
b) marido/esposa;
c) cristão;
d) cidadão;
e) profissional
2.1.2 Olaviano
Pode-se, por sua vez, definir um olaviano como um ‘exegeta’ e ‘apologeta’ da pedagogia de Olavo de Carvalho, entendido enquanto aluno que: (i) incorpora o horizonte intelectual instituído pelo mapa-referencial de autores de Olavo de Carvalho; (ii) adere as linhas e/ou agendas de pesquisa indicadas por Olavo de Carvalho; e (iii) assume a metodologia de ensino e de escrita (estilo e estética) de Olavo de Carvalho como paidéia [146]É nesse sentido que o olaviano Mário Chainho interpreta Olavo de Carvalho, isto é, um magistério (paidéia) que não apenas transmite “conhecimentos, atitudes, comportamentos e valores prezados … Continue reading de formação (antropológica) da inteligência e da personalidade, transitando, pois, entre a interpretação e a aplicação metodológica das obras e dos ensinamentos dele.
2.1.3 Carvalhiano
Pode-se, por fim, definir um carvalhiano como um pesquisador ou estudioso que, através do rigor, da precisão, da exatidão e do refino teórico-metodológico da investigação acadêmica-científica, reconstrói metateoricamente a intrateoricidade sistêmica da prática filosófica de Olavo de Carvalho (prática filosófica carvalhiana), formalizando epistemologicamente, por conseguinte, a sistematicidade interna do filosofar e da filosofia carvalhiana.
Um carvalhiano é, pois, um reconstrutor epistemológico da prática filosófica carvalhiana, um pesquisador dedicado a reinstituir histórica-epistemologicamente a sistematicidade teórica intrínseca da filosofia carvalhiana, considerada enquanto totalidade estruturante que alicerça a atividade consciente (o filosofar) sobre si mesma (ou seja, o exercício de retroação existencial e inquirição consciente que rege toda e qualquer atividade de estruturação fundacional e suprassunsiva das determinações, tensões, contradições, justificações, explicações e exposições da filosofia, vida, obra, feitos e efeitos de Olavo de Carvalho).
O termo-conjugador carvalhiano é, portanto, um designador fortemente rígido de três Ts, isto é:
(i) transfenômenico: para um carvalhiano, a identidade referencial de Olavo de Carvalho não depende de qualquer descrição ou caracterização específica, considerada enquanto modo pelo qual ele aparece (biograficamente, politicamente, ascéticamente ou culturalmente) para os sujeitos;
(ii) transubjetivo: para um carvalhiano, a identidade referencial de Olavo de Carvalho não depende de qualquer crença, vivência afetiva e/ou experiência interior de admiração, devoção e identificação (ou de seus antônimos) de qualquer indivíduo que seja;
(iii) transcendental: para um carvalhiano, o “critério de identidade” [147] KRIPKE, Saul Aaron. O nomear… Op.cit., p.100. de Olavo de Carvalho reside numa “ciência única” [148] CARVALHO, Olavo de. Aristóteles em nova perspectiva… Op.cit., p.22. (que é o seu filosofar), entendida enquanto princípio determinante que permanece em meio aos modos em que Olavo de Carvalho é caracterizado, experienciado e antropomorfizado.
2.2 Operação lógica-simbólica dos termos-conjugadores (olavista, olaviano e carvalhiano)
2.2.1 Definamos
A(x) = grau de antropomorfização
D(x) = grau de desantropomorfização
F(x) = proximidade efetiva ao filosofar de Olavo de Carvalho
I(x) = intensidade identitária do termo-conjugador
M(x) = continuidade metodológica
Ov(x) = pertence à corrente olavista
On(x) = pertence à corrente olaviana
C(x) = pertence à corrente carvalhiana
2.2.2 Operadores
Operador 1: I(x) ↑ ⇒ A(x) ↑
I(x) ↑ ⇒ F(x) ↓
* Semântica do operador: Quanto maior a identificação com a figura pessoal do autor, menor a reconstrução de seu filosofar.
Operador 2: A(x) ↑ ⇒ M (x) ↓
M(x) ↑ ⇒ F(x) ↑
* Semântica do operador: A proximidade reconstrutiva do filosofar é diretamente proporcional à continuidade metodológica e inversamente proporcional à intensidade identitária.
Operador 3: D(x) ↑ ⇒ F(x) ↑
* Semântica do operador: O grau de desantropomorfização é diretamente proporcional à proximidade reconstrutiva do filosofar.
2.2.3 Operadores tipológicos dos termos-conjugadores
Operador tipológico 1 – Olavistas:
Ov(x) → A(x)+ + +
Ov(x) → I(x) + + +
Ov(x) → M(x)⁻
Ov(x) → F(x)⁻
Operador tipológico 2 – Olavianos:
On(x) → A(x)+ +
On(x) → I(x) + +
On(x) → M(x)+
On(x) → F(x)+
Operador tipológico 3 – Carvalhianos:
C(x) → A(x)⁻
C(x) → I(x)⁻
C(x) → M(x)+++
C(x) → F(x)+++
2.2.3.1 Semântica tipológica
Os sinais (+) não representam uma escala quantitativa ou aritmética, mas sim uma escala lógica de ordenação segundo a predominância da variável considerada, indicando, portanto, os diferentes graus de predominância tipológica. Por sua vez, os sinais (–) representam a predominância do polo oposto da variável.
3§ Cartografia bibliográfica-referencial da S(P-E) → CI
3.1 Ciência da informação
I – Ingetraut Dahlberg:
* Grundlagen universaler wissensordnung: probleme und möglichkeiten eines universalen klassifikationssystems
3.2 Epistemologia
I – Hillary Putnam:
a) Philosophical papers, v.2: mind, language and reality
b) Philosophical papers, v.3: realism and reason
c) Razón, verdad e historia
d) Representación y realidad
II – Ian Hacking:
a) Ontologia histórica
b) Por qué el lenguaje importa a la filosofía?
c) The social construction of what?
III – Willard Van Orman Quine:
a) De um ponto de vista lógico
b) La relatividad ontologica y otros ensayos
c) Word and object
IV – Rudolf Carnap:
a) Filosofía y sintaxis lógica
b) Introduction to symbolic and its applications
c) La construcción lógica del mundo
3.3 Filosofia analítica
I – Donald Davidson:
a) Ensaios sobre a verdade
b) Problems of rationality
c) The structure of truth
II – Gottlob Frege:
a) Escritos lógico-semânticos
b) Lógica e filosofia da linguagem
III – John Searle:
a) Speech acts
b) Making the social world
c) The construction of social reality
IV – Nelson Goodman:
* Ways of worldmaking
V – Wilfrid Sellars:
a) Naturalism and ontology
b) Science, perception and reality
3.4 Filosofia da linguagem
I – John Langshaw Austin:
* How to do things with words
3.5 História cultural
I – Quentin Skinner:
* Visões da política: sobre os métodos históricos
3.6 Sociologia da ciência
I – Harry Collins:
* Forms of life the method and meaning of sociology
II – John Guillory:
* Cultural capital: the problem of literary canon formation
III – Pierre Bourdieu:
a) A economia das trocas linguísticas
b) A distinção: crítica social do julgamento
c) A produção da crença: contribuição para uma economia dos bens simbólicos
d) A reprodução; elementos para uma teoria do sistema de ensino
e) Homo academicus
f) Ofício de sociólogo: metodologia da pesquisa na sociologia
g) Razões práticas sobre a teoria da ação
h) Sociologia geral, v.1: lutas de classificação
i) Sociologia geral, v.2: habitus e campo
j) Sociologia geral, v.3: as formas do capital
k) Sociologia geral, v.4: princípios de visão
l) Sociologia geral, v.5: política e sociologia
3.7 Sociologia do conhecimento
I – Michel Foucault:
* Arqueologia do saber
II – Peter Berger:
* A construção social da realidade: tratado de sociologia do conhecimento
§§ ANEXO – Publicação de Bernardo Santos no Instagram
Figura 1 – Captura de tela de publicação de Bernardo Santos sobre o uso dos termos “olaviano” e “carvalhiano”.

Fonte: Story publicado por Bernardo Santos em seu perfil no Instagram, 18 maio. 2026. Captura de tela realizada pelo autor da pesquisa.
References
| ↑1 | Ver: MEDEIROS, Rodolfo Melo de. O mínimo sobre Ronald Robson e os “subletrados” da mera tradição revolucionária. Jornal Cidadania Popular, João Pessoa, 11 abr. 2024. Disponível em: https://jornalcidadaniapopular.com.br/o-minimo-sobre-ronald-robson-e-os-subletrados-da-mera-tradicao-revolucionaria/.; MEDEIROS, Rodolfo Melo de. O mínimo sobre o ventríloquo (ou Ronald Robson e o analfabetismo funcional). Jornal Cidadania Popular, João Pessoa, 29 abr. 2024. Disponível em: https://jornalcidadaniapopular.com.br/o-minimo-sobre-o-ventriloquo-ou-ronald-robson-e-o-analfabetismo-funcional/. |
|---|---|
| ↑2 | Ver: KRIPKE, Saul Aaron. O nomear e a necessidade. Lisboa: Gradiva Publicações, 2012, p.70. |
| ↑3 | CONDÉ, Mauro Lúcio Leitão. Ciência, história e linguagem. 26 nov. 2018, São Carlos, IFSC/USP. Disponível em: https://www.youtube.com/live/Digy0tlaoQs?si=d7js_pFZDMkpSh1O. |
| ↑4, ↑5, ↑15, ↑16, ↑17, ↑18, ↑26, ↑27, ↑29, ↑30, ↑31, ↑32, ↑35, ↑42, ↑43, ↑44, ↑46, ↑48, ↑51, ↑52, ↑54, ↑56, ↑57, ↑63, ↑65, ↑66, ↑67, ↑68, ↑69, ↑70, ↑71, ↑76, ↑77, ↑80, ↑87, ↑89, ↑92, ↑96, ↑97, ↑101, ↑102, ↑109, ↑111, ↑115, ↑116, ↑118, ↑124, ↑128, ↑129, ↑133, ↑134, ↑135, ↑136 | Ibidem. |
| ↑6 | Ibidem. Condé ilustra esse processo citando o exemplo das complexas sociedades contemporâneas, em que, através da criação de uma imensa complexidade de procedimentos e aparatos tecnológicos, consegue-se vencer a distância e o deslocamento espaço-temporal que o real impõe, tornando, pois, possível a realização de uma palestra online, mesmo que o palestrante esteja a milhares de quilômetros do local onde os ouvintes estão. |
| ↑7 | Para fins de esclarecimento, todos os termos, esquemas conceituais e léxicos citados, rearranjados operativamente ou tensionados de obras e/ou palestras de língua estrangeira foram traduzidos pelo autor deste artigo. |
| ↑8 | KUHN, Thomas Samuel. El camino desde la estructura: ensayos filosóficos (1970-1993). Barcelona: Paidós: 2002, p.42. |
| ↑9 | KUHN, Thomas Samuel. El camino desde… Op.cit., p.41-50. |
| ↑10 | KUHN, Thomas Samuel. El camino desde… Op.cit., p.42. |
| ↑11, ↑14 | KUHN, Thomas Samuel. El camino desde… Op.cit., p.44. |
| ↑12 | KUHN, Thomas Samuel. El camino desde… Op.cit., p.116. |
| ↑13 | KUHN, Thomas Samuel. El camino desde… Op.cit., p.44-45. |
| ↑19 | Em vista dessa metodologia, esta pesquisa apresentará, em certas ocasiões, notas de rodapé definidoras dos esquemas conceituais operados, a fim de condensar seu procedimento (isto é, o estabelecimento e delimitação de sua regra de organização) lógico-relacional, cuja plena explicação só se encontra na própria gramaticalização do raciocínio relacional-lexical. |
| ↑20 | O termo “sociogenealogia” foi cunhado (recebendo uma primeira problematização conceitual) pelo sociólogo da educação Jean-Paul Laurens, em sua obra “1 sur 500” (1992). A sociologia de Laurens buscou estudar por que práticas educacionais têm sucessos excepcionais em certos ambientes sociais, chegando, pois, à conclusão de que, se é preciso estudar as características sociais que condicionam tais êxitos, é necessário entender primeiro a situação histórica-familiar que fornece e contextualiza o pleno significado e a dinâmica dessas características sociais. Portanto, o conceito de “sociogenealogia” foi primeiramente problematizado como uma abordagem “em termos de ator social-familiar, um homo-historicus genealógico”, como expressão de uma “linhagem familiar”. Ver: LAURENS, Jean Paul. Conclusion. Pour une sociogénéalogie. In: LAURENS, Jean Paul. 1 sur 500: la réussite scolaire en millieu populaire. Toulouse: Presses Universitaires du Midi, 2020 [1992]. cap. 11, p.229-243. Consultado na edição digital disponibilizada pelo OpenEdition Books. Disponível em: https://books.openedition.org/pumi/13399. Acesso em: 08 maio. 2026. |
| ↑21 | Esta pesquisa esquematiza conceitualmente a S(P-E) → CI sob o léxico descritivo-programático de: investigação que formaliza reconstrutivamente a historicidade das pragmáticas (o fazer e o agir) linguísticas-semânticas, bem como das condições de usos (declarativos ou descritivos) dos termos e aplicações semânticas-epistêmicas, mediante as quais são constituídos, compartilhados e estabelecidos os tipos objetivados que comprometem e filiam os indivíduos a pragmática própria (ontológica) de mundo de uma comunidade intelectual. |
| ↑22 | Ver: PUNTEL, Lorenz Bruno. Estrutura e ser: um quadro referencial teórico para uma filosofia sistemática. São Leopoldo: Editora UNISINOS, 2008, p.37-38. |
| ↑23 | Esta pesquisa toma esse esquema conceitual mediante o tensionamento e rearranjo operativo dos léxicos wittgensteiniano (“prática linguística”) e bungiano (“semântica”) enquanto exercício de fazer (e agir com) uma prática de uso de palavras e ações que institui, na própria interação com o mundo, sentido às múltiplas experiências e atividades, constituindo, mediante uma regra (que, por sua vez, é codeterminada no próprio fazer e agir) de manifestação de verdade, de atribuição e de estabelecimento de inteligibilidade pela qual as coisas do mundo se determinam e se consolidam como entidades objetivadas linguisticamente, o estatuto ontológico do uso correto e incorreto das palavras em suas operações com as coisas. Ver: BUNGE, Mario Augusto. Semántica I: sentido y referencia. Barcelona: Editorial Gedisa, 2008, p.23-53.; CONDÉ. Mauro Lúcio Leitão. As teias da razão: Wittgenstein e a crise da racionalidade moderna. Belo Horizonte: Argvmentvm Editora; Scientia, 2004.; CONDÉ, Mauro Lúcio Leitão. Ciência e linguagem: Ludwik Fleck e Ludwig Wittgenstein. In: CONDÉ, Mauro Lúcio Leitão (org.). Ludwik Fleck: estilos de pensamento na ciência. Belo Horizonte: Editora Fino Traço, 2012. p.77-107.; CONDÉ, Mauro Lúcio Leitão. Wittgenstein e a gramática da ciência: linguagem e práticas sociais no conhecimento científico. In: CONDÉ, Mauro Lúcio Leitão. Um papel para a história: o problema da historicidade da ciência. Curitiba: Editora da UFPR, 2017. cap. 4, p.119-152. |
| ↑24 | Para fins desta pesquisa, o esquema conceitual do termo ‘corrente intelectual’ é tomado tensionalmente do léxico (“comunidade”) da sociologia da ciência de Robert Merton, qual seja, as pessoas que, mantendo entre si “relações sociais características e consagradas, suficientemente duráveis para se tornarem partes identificáveis de uma estrutura social”, estão socializadas e compromissadas mediante uma pragmática própria (ontológica) de mundo, isto é, “pessoas que tem expectações padronizadas” que são ontologicamente “obrigatórias para elas e para os outros membros”. Ver: MERTON, Robert King. Sociologia: teoria e estrutura. São Paulo: Editora Mestre Jou, 1970, p.370. |
| ↑25 | Ver: SEARLE, John Rogers. The logical structure of human civilization. 2014, Bloomington, Indiana University. Disponível em: https://youtu.be/wO6WcPX7BR0?si=3S_FvjxHZVno-K3O. |
| ↑28 | FEYERABEND, Paul Karl. Philosophical papers: realism, rationalism and scientific method. Cambridge: Cambridge University Press, 1981, v.1, p.31. |
| ↑33 | FEYERABEND, Paul Karl. Philosophical papers: knowledge, science and relativism. Cambridge: Cambridge University Press, 1999, v.3, p.47. |
| ↑34 | FEYERABEND, Paul Karl. Philosophical papers: knowledge, science… Op.cit., p.32. |
| ↑36 | FEYERABEND, Paul Karl. Philosophical papers: knowledge, science… Op.cit., p.47. |
| ↑37 | FEYERABEND, Paul Karl. Philosophical papers: realism, rationalism… Op.cit., p.18. |
| ↑38 | FEYERABEND, Paul Karl. Philosophical papers: knowledge, science… Op.cit., p.48. |
| ↑39 | FEYERABEND, Paul Karl. Philosophical papers: knowledge, science… Op.cit., p.47-48. |
| ↑40 | FEYERABEND, Paul Karl. Philosophical papers: realism, rationalism… Op.cit., p.78. |
| ↑41 | KUHN, Thomas Samuel. The last writings of Thomas S. Kuhn: incommensurability in science. Chicago: University Chicago Press, 2022, p.168. |
| ↑45 | KUHN, Thomas Samuel. The last writings of Thomas… Op.cit., p.170. |
| ↑47 | KUHN, Thomas Samuel. The last writings of Thomas… Op.cit., p.173. |
| ↑49 | KUHN, Thomas Samuel. The last writings… Op.cit., p.172-173. |
| ↑50 | KUHN, Thomas Samuel. The last writings… Op.cit., p.174. |
| ↑53 | KUHN, Thomas Samuel. The last writings… Op.cit., p.175. |
| ↑55, ↑59 | KUHN, Thomas Samuel. The last writings… Op.cit., p.177. |
| ↑58 | KUHN, Thomas Samuel. The last writings… Op.cit., p.178. |
| ↑60 | KUHN, Thomas Samuel. The last writings… Op.cit., p.178-179. |
| ↑61 | Para fins desta pesquisa, esse termo é tomado enquanto esquema conceitual de uma regra imanente de sentido, posição ordinal, inteligibilidade, compromisso e legitimidade das entidades objetivadas linguisticamente, que é efetivada por aplicações dos termos aos tipos em uma forma incorporada de saber e habitus de raciocinar. |
| ↑62 | KUHN, Thomas Samuel. The last writings… Op.cit., p.180. |
| ↑64 | KUHN, Thomas Samuel. The last writings… Op.cit., p.181. |
| ↑72 | KUHN, Thomas Samuel. The last writings… Op.cit., p.182. |
| ↑73 | BOURDIEU, Pierre. O senso prático. Petrópolis: Editora Vozes, 2009, p.86. |
| ↑74, ↑94 | BOURDIEU, Pierre. O senso prático… Op.cit., p.88. |
| ↑75, ↑79 | BOURDIEU, Pierre. O senso prático… Op.cit., p.89. |
| ↑78 | Os “atributos de admissibilidade e inadmissibilidade” diferenciam, portanto, “tipos ou padrões distintivos de comportamentos” em relação aos de outras comunidades, permitindo a cada uma delas identificar, por meio de uma dialética dual-correlacional (positivo-negativo e negativo-positivo) os seus não-membros, de modo que a determinação das condições objetivadas da ação da comunidade codetermina as condições do não pertencimento a ela. A comunidade pode também ser tipificada como “aberta ou fechada” conforme a diferença de preocupação quanto à facilitação ou a restrição dos “seus padrões ou critérios de admissibilidade”, uma vez que uma facilitação ampliada pode acarretar a depreciação do “valor simbólico” de pertença àquela comunidade, mas, em contrapartida, “aumentar o número de [indivíduos] afiliados”, criando, pois, o conflito entre a maximização da audiência (o “princípio de popularidade das massas”) e a manutenção dos “altos padrões de conteúdo cultural” para admissibilidade. Ver: MERTON, Robert King. Sociologia… Op.cit., p.376-378. |
| ↑81 | KRIPKE, Saul Aaron. O nomear e a necessidade… Op.cit., p.78. |
| ↑82 | KRIPKE, Saul Aaron. O nomear e a necessidade… Op.cit., p.79. |
| ↑83 | KRIPKE, Saul Aaron. O nomear… Op.cit., p.72-75. |
| ↑84 | KRIPKE, Saul Aaron. O nomear… Op.cit., p.78. |
| ↑85 | KRIPKE, Saul Aaron. O nomear… Op.cit., p.71. |
| ↑86 | KRIPKE, Saul Aaron. O nomear… Op.cit., p.79. |
| ↑88 | KRIPKE, Saul Aaron. O nomear… Op.cit., p.75. |
| ↑90 | KRIPKE, Saul Aaron. O nomear… Op.cit., p.89. |
| ↑91 | BOURDIEU, Pierre. O senso prático… Op.cit., p.90. |
| ↑93 | No âmbito desta pesquisa, o esquema conceitual ‘forma determinada de vida’ é tomado mediante o tensionamento e rearranjo operativo do léxico (“forma de vida”) de Wittgenstein. Ver: WITTGENSTEIN, Ludwig. Tratado lógico-filosófico; Investigações filosóficas. 6. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2015, p.183-189 [§§ 19-23]. |
| ↑95 | BOURDIEU, Pierre. O senso prático… Op.cit., p.92. |
| ↑98, ↑100 | BOURDIEU, Pierre. O senso prático… Op.cit., p.95. |
| ↑99 | BOURDIEU, Pierre. O senso prático… Op.cit., p.150. |
| ↑103 | BOURDIEU, Pierre. O senso prático… Op.cit., p.96. |
| ↑104 | BOURDIEU, Pierre. O senso prático… Op.cit., p.99-100. |
| ↑105 | BOURDIEU, Pierre. O senso prático… Op.cit., p.100. |
| ↑106 | A “sensação que o indivíduo tem de estar ‘de acordo consigo mesmo’ frequentemente nada mais é do que o resultado de estar ‘de acordo’” com os tipos aprendidos nas aplicações semânticas-epistêmicas dos termos no interior da comunidade, o que implica, por sua vez, na indissociação entre o “senso de autonomia pessoal” e as “restrições normativas exercidas” pela comunidade. Ver: MERTON, Robert King. Sociologia… Op.cit., p.418. |
| ↑107 | BOURDIEU, Pierre. O senso prático… Op.cit., p. 100. |
| ↑108 | BOURDIEU, Pierre. O senso prático… Op.cit., p.106. |
| ↑110 | BOURDIEU, Pierre. O senso prático… Op.cit., p.110. |
| ↑112 | BOURDIEU, Pierre. O senso prático… Op.cit., p.111 [itálico nosso]. |
| ↑113 | BOURDIEU, Pierre. O senso prático… Op.cit., p.97. |
| ↑114 | BOURDIEU, Pierre. O senso prático… Op.cit., p.112. |
| ↑117 | BOURDIEU, Pierre. O senso prático… Op.cit., p.113. |
| ↑119, ↑121 | BOURDIEU, Pierre. O senso prático… Op.cit., p.135. |
| ↑120 | BOURDIEU, Pierre. O senso prático… Op.cit., p.136. |
| ↑122 | BOURDIEU, Pierre. O senso prático… Op.cit., p.94. |
| ↑123 | KRIPKE, Saul Aaron. O nomear… Op.cit., p.93. |
| ↑125 | Toma-se este esquema conceitual mediante tensionamento e rearranjo operativo do léxico da ontologia carvalhiana dos discursos. Ver: CARVALHO, Olavo de. Aristóteles em nova perspectiva: introdução à teoria dos quatro discursos. Campinas: Vide Editorial, 2013, p.29-41 e p.70-78. |
| ↑126 | Nesse caso, seria mais fácil para um olavista, por exemplo, imaginar como real a existência do dragão “Smaug”, da obra “O hobbit” (2019), do que imaginar como possível (e, menos ainda, como real) a entidade descrita por um carvalhiano (como, por exemplo, a ideia de que, ao invés de agir para combater e destruir um adversário político — rejeitando e desprezando, de modo necessário, qualquer coisa dele —, deve-se estudar, acompanhar e compreender as discussões intelectuais e culturais que possibilitam a atuação daquele agente, a fim de buscar tomar a sua criticidade como uma problematização temática de objeto crítico, e não como uma refutação prévia dela. |
| ↑127, ↑131 | MERTON, Robert King. Sociologia… Op.cit., p.646. |
| ↑130 | MERTON, Robert King. Sociologia… Op.cit., p.647. |
| ↑132 | MERTON, Robert King. Sociologia… Op.cit., p.648. |
| ↑137 | MERTON, Robert King. Sociologia… Op.cit., p.652. |
| ↑138 | MERTON, Robert King. Sociologia… Op.cit., p.654. |
| ↑139 | MERTON, Robert King. Sociologia… Op.cit., p.662. |
| ↑140 | KRIPKE, Saul Aaron. O nomear… Op.cit., p.99 [itálico nosso]. |
| ↑141 | A ‘antropomorfização’ é um esquema conceitual tomado tensionalmente do léxico mertoniano (“papel-modelo de desempenho”), a saber, uma identificação com um “indivíduo de referência” correlativa a aproximação emulatória dos “comportamentos e dos valores daquele indivíduo de referência, em seus diversos e múltiplos papeis”. Ver: MERTON, Robert King. Sociologia… Op.cit., p.388. |
| ↑142 | Toma-se esse esquema conceitual mediante o tensionamento e rearranjo operativo do léxico bourdieusiano (“identidade de representação performativa”), ou seja, uma “identidade que é produto” da caracterização e dos limites atribuídos e impostos por um princípio de identificação-referência, que consiste numa “representação mental (percepção e apreciação)” incorporada e compromissada em “representações objetais” (em entidades referenciais), as quais figuram como os portadores simbólicos da identidade subjetiva, princípio de visão que, por sua vez, realiza o “sentido e consenso sobre a identidade e a unidade de um grupo”, impondo-lhe, pois, uma existência performativa comum, entendida enquanto uma “visão única da sua identidade”, bem como uma “visão idêntica da sua unidade”. Ver: BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Lisboa: DIFEL; Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil, 1989, p.109-120. |
| ↑143 | O sentido desse esquema conceitual (‘setores ou espectros’) é tomado mediante tensionamento e rearranjo operativo do léxico mertoniano (“subgrupo”), ou seja, setores no interior de uma comunidade que “são formados por aqueles indivíduos que desenvolvem” ligações sociais “distintivas entre si, as quais não são repartidas com os outros membros” da comunidade, quer dizer, por componentes que, tendo uma proximidade mais estreita, “são mais suscetíveis” de favorecer o desenvolvimento de uma “força distintiva”. Ver: MERTON, Robert King. Sociologia… Op.cit., p.371. |
| ↑144 | A preparação de sujeitos “para viverem em sociedade”, ou seja, a capacitação de indivíduos para torná-los aptos a uma “participação consciente e responsável” na sociedade e política (ou, como Carvalho — à luz da concepção pedagógica liberal do filósofo norte-americano Mortimer Jerome Adler (1902-2001) — entende, a preparação das noções que o indivíduo “usa diariamente para expressar seu ponto de vista”, a fim de “criar um cidadão consciente, um cidadão medianamente culto, apto a opinar sobre as questões públicas”). Ver: CARVALHO, Olavo de. Benfeitor ignorado. Época, 21 jul. 2001. Disponível em: https://olavodecarvalho.org/benfeitor-ignorado/. Acesso em: 15 jun. 2026.; CARVALHO, Olavo de. Princípios e métodos da autoeducação. 03 out. 2012, aula 03.; CARVALHO, Olavo de. Como tornar-se um leitor inteligente. 03 maio. 2014, aula 06.; CHAINHO, Mário. Introdução. In: RODRIGUES, Juliana; CHAINHO, Mário; VISTAS, Pedro (orgs.). O Magistério de Olavo de Carvalho: para uma paidéia integral [recurso eletrônico]. Curitiba: Editora Danúbio, 2023. p. 12–36. |
| ↑145 | Para fins desta pesquisa, cada setor ou espectro está respectivamente representado por numerados, de modo que o numerado I (N-I) corresponde ao primeiro setor ou espectro olavista, enquanto o N-II corresponde ao segundo setor ou espectro olavista, e, por fim, o N-III corresponde ao terceiro setor ou espectro olavista. |
| ↑146 | É nesse sentido que o olaviano Mário Chainho interpreta Olavo de Carvalho, isto é, um magistério (paidéia) que não apenas transmite “conhecimentos, atitudes, comportamentos e valores prezados por uma sociedade”, mas que busca principalmente a “formação verdadeiramente humana” (quer o sujeito desempenhe uma função/ofício intelectual ou não), a qual consiste em tipos de integração da confissão ou testemunho: “do imaginário, da compreensão e uso da linguagem, da autoconsciência e do senso do ideal, das ferramentas de documentação e da pesquisa erudita”. Ver: CHAINHO, Mário. Introdução. In: RODRIGUES, Juliana; CHAINHO, Mário; VISTAS, Pedro (orgs.). O Magistério de Olavo de Carvalho: para uma paidéia integral [recurso eletrônico]. Curitiba: Editora Danúbio, 2023. p. 12–36 [citado na p.16 e p.22-34]. |
| ↑147 | KRIPKE, Saul Aaron. O nomear… Op.cit., p.100. |
| ↑148 | CARVALHO, Olavo de. Aristóteles em nova perspectiva… Op.cit., p.22. |