A ontologia de Nicolai Hartmann: uma analítica das categorias dimensionais – Parte I

  • Jorge Teixeira
  • 27 ago 2026

Este é o primeiro de uma série de cinco tomos que pretendo escrever neste ano de 2026, cuja finalidade é explicar a Ontologia do filósofo Nicolai Hartmann (1882-1950) em todas as suas partes: desde os Fundamentos, passando pela investigação da Possibilidade e Efetividade, até desembocar numa Teoria Geral das Categorias. Essa teoria, porém, é ainda muito geral e necessita de uma Teoria Especial, que é precisamente a sua Filosofia da Natureza. Então, categorias como “causalidade”, “espaço” e “substância”, seriam especiais, pois dizem respeito a somente um ou dois estratos da realidade e, assim, organizam um número muito limitado de entes, não podendo serem utilizadas para outras explicações de estratos diferentes.

Por exemplo: o causar efeito só existe para formações naturais. Sua realidade não se estende até o domínio do psíquico, em que há a relação de sujeito e objeto. Isso significa que o objeto não causa um “efeito” no sujeito como erroneamente já se defendeu. [1] Ver: CARVALHO, Olavo de. Edmund Husserl contra o psicologismo. Campinas: Vide Editorial, 2020. p.209. O mesmo para substância. Nem todo “permanente” é substância; caso contrário, o espaço teria de ser, pois permanece como condição mesmo na ausência de formações espaciais; o “eu” teria de ser, pois permanece idêntico mesmo quando modificado e a história tornar-se-ia uma substância universal, pois permanece enquanto suporta o deslizar dos estados por ela.

O mesmo raciocínio vale para o espaço. Foi-se o tempo em que acreditava-se que o ente real é somente aquele que tem realidade espacial, pois, assim, negava-se realidade aos eventos psíquicos e espirituais, que são tão reais quanto aqueles, justamente por serem temporais. O espaço, portanto, é real enquanto um tipo específico de “substrato”. O substrato já é uma categoria fundamental, cujo contrário é a categoria fundamental da relação e, segundo a Lei dos Contrários Elementares, envolvem-se mutuamente numa correlação. A categoria geral do caso específico da causalidade é a “sobreconformação”; o geral da substância é o “permanente” e o geral do espaço é o “substrato”, embora a substância também tenha, como um de seus dois momentos, o substrato e, precisamente por isso,  não se confunde com os outros permanentes.

Essas distinções não existem somente in verbis. A investigação tende à clareza e à exposição sinóptica, mas somente quando esta já foi exaurida passo a passo. Uma explicação sinóptica antes da análise detalhada dos fenômenos especiais já pressupõe todos os princípios pelos quais explicar-se-á estes mesmos princípios; assim, o todo torna-se óbvio e, precisamente por isso, dá ao leitor uma sensação de que explicou demasiadamente muito, mesmo que não tenha explicado nada. Por isso mesmo, a investigação aqui começará com o mais específico (diretamente com os fenômenos especiais) e, através deles, descobrirá suas leis.

 

Campinas, Janeiro de 2026.


 

1§ Introdução

1.1 Introdução às cento e duas categorias

As investigações aqui reunidas [2] N.E. Atendendo a solicitação do autor, as citações em língua estrangeira não foram traduzidas, a fim de manter a originalidade do idioma na qual foram escritas. não constituem um ponto de partida, mas antes o ponto final do estrato orgânico. A “fábrica do mundo real” (expressão cunhada por Nicolai Hartmann) divide-se em quatro grandes estratos que se ramificam e se interpenetram mutuamente. [3]N.E. Quando há citações consecutivas da mesma obra (‘Ibidem’ ou ‘Op.cit’), o plugin de referências utilizado pelo site deste Jornal agrupa automaticamente as notas referenciais, ao invés … Continue reading O primeiro, físico-químico, é o inorgânico; o segundo é o orgânico; o terceiro, o psíquico; e o quarto, o espiritual. Cada um desses estratos possui categorias próprias e mantém entre si uma dependência que se dá de baixo para cima, isto é, o estrato psíquico depende do orgânico, mas não o contrário. Esta já é tanto a “Lei da Dependência” quanto a “Lei da Independência”. Quanto mais se sobe na fábrica do real, mais complexa se torna a investigação, pois a cada nível acrescentam-se novas categorias que, muitas vezes, estão aquém ao saber gnosiológico. Até o momento, foram organizadas cento e duas categorias, distribuídas em grupos que vão do mais geral ao mais específico:

1. Ser 2. Nada 3. Realidade 4. Idealidade 5. Atualidade 6. Potencialidade 7. Ser em si 8. Ser para outro 9. Princípio 10. Concretum 11. Estrutura 12. Modo 13. Forma 14. Matéria 15. Interior 16. Exterior 17. Predeterminação 18. Dependência 19. Qualidade 20. Quantidade 21. Unidade 22. Multiplicidade 23. Harmonia 24.Conflito 25. Oposição 26. Dimensão 27. Continuidade 28. Descontinuidade 29. Substrato 30. Relação 31. Elemento 32. Complexo 33. Positivo 34. Negativo 35. Identidade 36. Diferença 37. Geral 38. Particular 39. Individual 40. Uno 41. Vários 42. Magnitude 43. Número 44. Medida 45. Graduação 46. Continuum quantitativo 47. Lei da Estratificação 48. Lei do Retorno Categorial 49. Lei da Superposição 50. Lei da Sobreconformação 51. Lei da Sobreconstrução 52. Lei da Dependência 53. Lei da Independência 54. Lei da Coerência Categorial 55. Possibilidade 56. Efetividade  57. Necessidade  58. Impossibilidade  59. Inefetividade 60. Contingência  61. Idealidade  62. “Ser aí” (Ser de existência) 63. “Ser assim” (Ser de essência) 64. Potência 65. Ato 66. Categorias Constitutivas 67. Categorias Regulativas 68. Liberdade 69. Acaso 70. Tempo 71. Espaço  72. Substância  73. Processo  74. Estado 75. Relação real 76. Ação recíproca  77. Equilíbrio dinâmico  78. Complexo dinâmico  79. Nexo causal 80. Lei da relacionalidade intrínseca  81. Lei da predeterminação  82. Legalidade 83. O indivíduo 84. O processo produtor da forma 85. O jogo dos processos contrários 86. Complexos de formas  87.  Complexos  de processos 88. A autorregulação 89. Espécie 90. A reprodução e a herança 91. A morte e a geração 92.  A variabilidade 93. Os fatores regulativos na vida da espécie 94. A modificação da espécie 95. A maleabilidade (ou herdabilidade) 96. A seleção (e aperfeiçoamento) 97. A mutação 98.  A descendência 99. O equilíbrio orgânico 100. A vida individual e a vida da espécie 101.  O processo vital 102. A legalidade específica.

Essas cento e duas categorias, contudo, estão ainda muito longe de abranger toda a fábrica do real, pois se referem apenas a dois estratos: o inorgânico e o orgânico. Até aqui, ainda não se penetrou nos estratos do psíquico e do espiritual para que deles se pudesse descobrir suas próprias categorias. A investigação, porém, começará do mais específico para o mais geral, até desembocar numa análise detalhada e exaustiva das categorias modais primordiais: possibilidade, necessidade e efetividade. Porém, como aqui também estudar-se-á o conhecimento gnosiológico, e, dado que este também tem suas categorias próprias, embora em coordenação inequívoca com as do ente, o número pode até mesmo duplicar. Esta, porém, não é a ordem originária da investigação.

Hartmann a iniciou com os Fundamentos que, na ordem do ser, é o primeiro em si, mas que, na ordem do conhecer, é sempre o último estádio. A intentio recta é sempre, na ordem do tempo, primeiro do objeto. Isso já era sabido desde Aristóteles, embora Immanuel Kant (1724-1804) tenha lhe dado melhor atenção:

 

Si se saca la consecuencia de esta situación metódica, el resultado es, en primer término, la evidencia de que una renovada philosophia prima ya no puede presentarse como “primer” miembro de un sistema, anterior a toda ulterior investigación. Su contenido no puede ser lo primero en el orden del conocimiento, y no lo puede justo porque es lo primero en el orden del ser. La ratio cognoscendi, u orden natural en el progreso del conocimiento, no coincide con la ratio essendi, o relación de dependencia entre los entes. Corre, en conjunto, en dirección diametralmente opuesta. Lo “anterior para nosotros” es lo “posterior en sí”. El conocimiento avanza de lo secundario a lo primario. Pues el ejército de los data, de los hechos tangibles, de los fenómenos ostensibles, se despliega justo en el plano de lo ónticamente secundario. […] Pero como el orden de las cosas y el del conocimiento no coinciden, tampoco pueden coincidir el del conocimiento y el de la exposición de lo conocido. El camino de la investigación misma es prolijo, sobre todo en sus comienzos, donde empieza en la plena multiplicidad de lo dado, para elevarse desde allí a grupos más unificados de problemas. Susceptible de una exposición sinóptica no se vuelve hasta estadios más avanzados. Una exposición debe tender a la claridad sinóptica, la brevedad y la unidad. Pero no necesita evitarle al lector todo trabajo mental propio, haciéndole volver paso a paso por todo el camino antes recorrido de ella misma partiendo de todos los fenómenos especiales. Frente a esta prolijidad inevitable en sí, ha de imponerse una cierta limitación, confiando, por lo demás, en que el lector retenga duraderamente a la vista lo que al comienzo se le dijo en principio sobre el camino”. [4] HARTMANN, Nicolai. Ontologia I: fundamentos. 2. ed. México: Fondo de Cultura Económica, 1965, p.38-39.

 

1.2 As categorias do ser e as categorias do conhecer

O conhecimento gnosiológico dirige-se retilineamente ao objeto da experiência. Seja esse objeto imediato ou mediato, isso é indiferente. O natural da visada é sempre a intentio recta. Somente uma inflexão no curso desse processo natural pode fazê-lo voltar-se sobre si mesmo, alcançando o próprio ato intuitivo e as categorias por meio das quais o objeto se torna visível. Essa inflexão é a intentio obliqua, como Hartmann aponta:

 

Es de valor para todo lo que sigue el ponerse en claro lo anterior inmediatamente desde el principio. La actitud natural, dirigida al objeto —la intentio recta, por decirlo así, el enderezarse hacia lo que hace frente al sujeto, se presenta u ofrece a éste, en suma, el dirigirse en el sentido del mundo en que se vive y del que se es parte—, esta actitud fundamental es la corriente en nuestra vida y sigue siéndolo a lo largo de ésta. Es aquella mediante la cual nos orientamos en el mundo, en virtud de la cual nos adaptamos con nuestro conocer a los menesteres de la vida cotidiana. Pero esta actitud es la abandonada en la teoría del conocimiento, la lógica y la psicología, para torcerla hacia una dirigida en sentido oblicuo a ella —una intentio obliqua. Ésta es, pues, una actitud refleja”. [5] HARTMANN, Nicolai. Ontologia I… Op.cit., p.57.

 

Tanto no realismo quanto no idealismo, há categorias da consciência que difere das do ente, que não se confundem entre si. A maioria das categorias reais aparecem duplicadas na consciência, mas nem todas. A “ação recíproca” é a última categoria que aparece duplicada; contudo, de forma torta. O retorno categorial desaparece já nas categorias do “complexo dinâmico” e “equilíbrio dinâmico”.

Já todas as categorias modais, porém, retornam ao saber gnosiológico, mesmo que modificadas:

 

Os graus de certeza do conhecimento não precisam corresponder aos graus de existência do objeto do conhecimento. O racionalismo não tem nada mais próximo do que identificar níveis de existência com níveis de conhecimento. E inevitavelmente, essa identidade ocorre no idealismo – como em Kant. Mas o problema da realidade é um dos muitos problemas em que todas as posições preconcebidas se mostram inadequadas.É incontestavelmente verdadeiro que algo pode ser um fato, ou seja, “real” para o conhecimento, sem ser reconhecido como “necessário”. Mas isso não significa que possa realmente “ser” sem ser necessário “ser”. A contingência no juízo pode muito bem corresponder a uma necessidade absoluta nas conexões de existência não reconhecidas. Da mesma forma, é uma ocorrência comum que algo seja reconhecido como real sem que sua possibilidade seja compreendida; conhecemos esse caso em todos os fenômenos novos e altamente complexos. Mas isso não significa que o objeto realmente “seja” sem ser possível “ser”. O julgamento da possibilidade não é a possibilidade de existência. Os níveis de modalidade do conhecimento não precisam coincidir com os níveis de modalidade do ser, os modos lógicos não precisam ser idênticos aos ontológicos”. [6]HARTMANN, Nicolai. Realidade lógica & ontológica (1915). Tradução de Isaías Klipp. Proscênio Filosófico [S. l.], 9 abr. 2023. Disponível em: … Continue reading 

 

Por exemplo: normalmente, fala-se que todo fato é contingente e utiliza-se disso retrospectivamente para provar a impossibilidade do não ser absoluto. Só que, na verdade, todo fato é efetivo e a efetividade não se confunde com a contingência. O homem, porém, não vê o fato como contingente, ele não “vê” toda a cadeia causal que o efetivou e percebe que, nela, não há nenhum fator de “dependência”, para atentar sua contingência. Nenhum saber gnosiológico dá essa informação. Somente o saber científico detalhado pode oferecer parcialmente as cadeias condicionais e os respectivos nexos. Mas o saber gnosiológico também não dá o conhecimento de necessidade, pois teria de saber igualmente todas as relações causais, com a diferença de que, ali, há sim, fator de dependência. Então, o saber gnosiológico toma a contingência do conhecimento por um conhecimento “da” contingência, transferindo esta ao próprio fato e este, de efetivo, torna-se, também, contingente; quando, na verdade,é simplesmente efetivo.

Esse choque entre as modalidades de conhecimento e as modalidades do ser acontece precisamente porque elas não precisam ser idênticas e não são. A “possibilidade”, na consciência, pode muito bem representar uma “necessidade” no mundo real. Uma necessidade, por exemplo, não precisa ser real. Essa afirmação só parece estranha pois todo saber gnosiológico “começa” com a experiência, portanto, tomando aquilo que já está dado e não aquilo que é simplesmente necessário. De fato, a estreiteza do efetivo é idêntica à estreiteza da possibilidade, inexistindo aquela “pluralidade” de possibilidades que a mais recente teoria filosófica da possibilidade universal faz sentir hoje em dia na sua forma original. [7] Ver: CARVALHO, Olavo de. Filosofia da ciência: princípios metafísicos e problemas modernos. Campinas: Vide Editorial, 2025, p. 17-21. O mundo das possibilidades flutuantes existe apenas como categoria do conhecer, precisamente porque ao homem falta a totalidade das condições.

À medida que essas condições lhe são acrescentadas, uma a uma, o número de possibilidades diminui, até que reste unicamente aquela que se efetiva e as outras mostram-se impossibilidades, “parecendo” possíveis somente ao conhecimento limitado do homem: “Pero si partiendo de la situación real concreta y dada en un determinado presente se lo entiende como lo futuro, se topieza con aquella pluralidad de posibilidades simultáneamente abiertas de las cuales nunca llega a efectuación más que una. Y en ellas resulta incomprensible en qué consista la diferencia de ésta por respecto a las restantes que ulteriormente se revelan como “imposibles”. [8] HARTMANN, Nicolai. Ontologia I: fundamentos. 2. ed. México: Fondo de Cultura Económica, 1965. p. 11. Também não se trata do conceito epimeteico de Mário Ferreira dos Santos (possibilidades impossíveis de serem atualizadas [9] Ver: SANTOS, Mário Ferreira dos. Filosofia concreta. São Paulo: Editora Filocalia, 2020. p.369. ), pois não há uma categoria de possibilidade que inclua uma esfera não efetivada pela ação do tempo sucessivo. Aqui, ainda se confunde a possibilidade real com a possibilidade ideal. Para esta segunda, basta a ausência de contradição; mas aquilo que se efetiva não o faz por obra dessa ausência, e sim por obra da possibilidade real. Esta, porém, não consiste simplesmente na falta de contradição, mas na coincidência de condições até o ponto em que se torna necessária a efetivação. Nesse sentido, o possível é imediatamente efetivo ou necessariamente será, e o efetivo é imediatamente necessário.

Esses dois filósofos brasileiros usam-se do mesmo argumento (das possibilidades impossíveis de serem atualizadas), mas tão pouco enxergaram que, na verdade, já eram impossíveis desde sempre e que, na verdade, tornam-se possíveis, como Hartmann destaca:

 

Estas cosas no son tan desconocidas en la práctica de la vida como se pensaría. Imagínese el caso de que un bloque de piedra que está en la montaña al borde mismo de la pendiente, debido a un ligero impulso se pone a rodar y llega rodando hasta el valle. La piedra “no puede” ponerse a rodar antes de que una fuerza motriz la saque del equilibrio aún existente, aunque estén presentes de largo tiempo todas las demás condiciones del rodar pendiente abajo — y entre ellas condiciones mucho más fundamentales, como la altura de la posición de la piedra sobre el fondo del valle (el desnivel), la fuerza de gravedad de la tierra, el plano inclinado de la pendiente, etc.; por insignificante que sea el primer impulso que saca la piedra del equilibrio, es sin embargo la última condición real de su rodar, que aún falta para completar la totalidad de las condiciones. Mientras falte esta última condición, es el rodar la piedra absolutamente “imposible”. Únicamente se vuelve “posible” en el momento en que sobreviene tal condición. Ella es la que colma la medida. Pero en el mismo momento se vuelve el rodar la piedra pendiente abajo también “necesario”. Pues en cuanto sobreviene y colma la medida tal condición, ya no puede dejar la piedra de rodar. El rodar se desata inconteniblemente y causa los demás efectos que tiene que causar. La misma totalidad de condiciones que hace por primera vez posible el rodar pendiente abajo, lo hace ya también realmente necesario”. [10] HARTMANN, Nicolai. Ontologia I… Op.cit., p.11.

 

Realmente possível é somente aquilo que obedece toda a cadeia de condições necessárias e se torna efetivo. Aqui, não se nega realidade às condições parciais, pois o fato aparece numa sucessão temporal e, portanto, as condições precisam não estar dadas na sua totalidade para que seja real o futuro. Logo, possibilidade é aquilo que já é efetivo ou será necessariamente em relação a um estádio vindouro. Não existe nada “meramente possível” no mundo real. De todas as pluralidades de possibilidades, sempre somente uma é possibilidade real e, todas as outras, impossibilidades reais. A afirmativa de que, de todas as possibilidades, “sempre uma” se atualiza no aqui-e-agora, já mostrava essa lei, esse “sempre uma” não está aí à toa.

Mas agora há um ponto decisivo: a possibilidade real que necessariamente efetivar-se-á no estágio ulterior é, no estágio atual, algo plenamente impossível. Vai possibilitando-se no encontro das condições e quando a última for assemblada, sua possibilidade real é alcançada e, imediatamente com isso, sua efetividade real, dada a razão suficiente necessária da coisa:

 

Esta “identidad de las condiciones” — condiciones reales de la posibilidad, condiciones reales de la necesidad— está muy lejos de significar una identidad de la posibilidad real y la necesidad real mismas. Es siempre fácil para el pensar ingenuo confundirla con una identidad semejante. La confusión es aquella misma mala inteligencia peligrosa contra la que ya antes se puso en guardia (cap. 16 c). Pero en el terreno de la elucidación material cabe poner en guardia contra ella todavía más a fondo. Son cosas distintas el que “pueda” suceder algo o “tenga” que suceder. En sí pudieran ambas cosas estar ampliamente separadas, sin necesidad de estar encadenadas una a otra. Sólo la totalidad de la serie de condiciones que se requiere igualmente para ambos encadena el poder suceder al tener que suceder. Ella es la que sólo puede ser “una” dentro de la unidad de un determinado orden de cosas real. En razón de ella es lo “realmente posible” al par algo “realmente necesario”; pero su “posibilidad real” no es por esta causa su “necesidad real”. Si el lenguaje vulgar confunde lo “posible” y la “posibilidad” y lo “necesario” y la “necesidad”, la filosofía tiene que saber mantener separadas unas y otras cosas”. [11] HARTMANN, Nicolai. Ontologia II: posibilidad y efectividad. 2. ed. México: Fondo de Cultura Económica, 1986. p.193.  

 

1.3 Independência das categorias do ser

Na história da filosofia, confundiu-se “ente”, “objeto” e “fenômeno”, ao ponto de se fundir ambos no mesmo ato de conhecimento. A culpa recai no próprio “objeto” cuja origem etimológica é ob+jectum = jogar-se ao outro. Disto, seguia-se que ente é o objeto que é, por sua vez, aquilo que mostra-se (fenômeno). Esta tese correlativista (errônea, pois vê união intrínseca entre sujeito e objeto) encontra seu ápice na filosofia de Olavo de Carvalho, em que o ser, verdadeiro, real, consiste em conhecer-se. [12]Ver: CARVALHO, Olavo de. A unidade de sujeito e objeto. 15 jul. 1999 [aula do Seminário de Filosofia]. Transcrição disponível em: https://olavodecarvalho.org/a-unidade-de-sujeito-e-objeto/. … Continue reading

De acordo com Hartmann:

 

“Lo característico de esta situación histórica es la circunstancia de que justo el argumento correlativista en que descansa es un seudoargumento. Se apoya en el prejuicio de que es culpable el concepto tradicional de objeto. “Objectum” — es decir, algo “arrojado enfrente”— sólo puede serlo algo, naturalmente, “para” alguien, frente a “quien” está arrojado. La palabra alemana “Gegenstand” —es decir, lo “Gegenstehende”, lo que está enfrente— presenta la misma referencia. Estas palabras compuestas están, pues, ya acuñadas sobre la base de correlación al sujeto. Y ateniéndose a ellas, no se hará sino confirmarse más y más en el prejuicio correlativista.Pero en el problema del conocimiento no se trata de un análisis de palabras o de conceptos, sino de un análisis de fenómenos. Y el “fenómeno” del conocimiento tiene un aspecto totalmente distinto. Para decir brevemente lo capital, en el conocimiento, a diferencia del representar, del pensar, de la fantasía, es justo lo esencial el que su objeto no se agote en el ser objeto para la conciencia. Aquello a lo que se dirige efectivamente el conocimiento, lo que éste trata de aprehender y de penetrar cada vez más a fondo, tiene un “ser” supraobjetivo. Es lo que es independientemente de que una conciencia lo haga o no objeto suyo; independiente también de lo poco o mucho de ello que se haga objeto. Su ser objeto es, en general, algo secundario para él. Todo ente, cuando se convierte en objeto, se hace objeto sólo subsecuentemente. No hay ningún ente en cuya esencia entre de suyo el ser objeto de una conciencia. Únicamente con la aparición del sujeto cognoscente en el mundo pasa el ente a la relación del estar enfrente, y pasa a ella exactamente en la medida en que el sujeto está intrínsecamente, sobre la base de sus categorías, en situación de “objetarlo”. La “objeción” es justo el conocimiento”. [13] HARTMANN, Nicolai. Ontologia I… Op.cit., p.18-19.

 

Kant, porém, foi o filósofo mais forte em perceber que o ente é independente da relação, e nisso está toda a essência da “coisa-em-si”. Esta é a aposta mais realista até então, justamente por desvincular a consciência da realidade de um ente. Precisamente nisso está a essência da “apreensão”, o ato de conhecer. Caso contrário, seria tão somente “criar” ou “imaginar”. A coisa-em-si, porém, não é, em si, incognoscível. “Cognoscível” e “incognoscível” são determinações que só têm sentido dentro de uma relação. Um ente é cognoscível ou não em relação a um sujeito; mas, sendo relação, já não se trata propriamente do ente, e sim do objeto, pois “objeto” só tem sentido frente a um sujeito.

O ente, porém, não é objeto, precisamente porque é independente da relação. O objeto é intrínseco ao ente-em-si, mas este é extrínseco ao objeto, pois, segundo Hartmann:

 

El fenómeno total puede resumirse de la siguiente manera. El conocimiento consiste en hacer del ente el objeto del sujeto. Si, pues, se parte del conocimiento como de una relación fundamental, se encuentra siempre al ente como estando enfrente. Lo que hay de real en ello es que dentro de la región del conocimiento tiene toda manera de darse el ente la forma del ser objeto. Es una ilusión, por el contrario, creer que por esta causa es todo ente, ya puramente en cuanto tal, objeto de un sujeto”. [14] HARTMANN, Nicolai. Ontologia I… Op.cit., p.96.  

 

Porém, também o fenômeno não é objeto. As condições de possibilidade da experiência (como o espaço, o tempo, a causalidade, etc) não são, elas próprias, objetos. O fenômeno é o meio a partir do qual se conhece o objeto; por isso, o fenômeno também não pode ser aquilo que é cognoscível no ato do conhecimento, pois é somente o meio pelo qual o ente converte-se em objeto para o homem. Toda a investigação falha ao diluir ente, fenômeno e objeto:

 

Enteramente lo mismo que con el concepto de objeto es con el concepto de fenómeno. Todo lo que del ente se nos “muestra” es justo un fenómeno. Ésta es una proposición tautológica. Pero si se la transforma en la proposición “todo ente es fenómeno”, se convierte en un prejuicio tanto como la proposición “todo ente es objeto”. En rigor, es casi idéntica con ésta; pues lo que llega a ser objeto del conocimiento se “muestra”, justo, al sujeto. Pero el error es doble. Por un lado, no necesita todo ente mostrarse (aparecer); pero, por otro lado, no necesita ser todo lo que se nos aparece un ente que se muestre. Esto es tan exactamente válido como las tesis análogas acerca del estar enfrente. Ni necesita todo ente ser objeto, ni necesitan todos los objetos —digamos los objetos de la fantasía— ser entes”. [15] HARTMANN, Nicolai. Ontologia I… Op.cit., p.97.

 

O objeto, por sua vez, nada mais é do que o ente objetificado. E se se fala em “ente objetificado”, é justamente porque, enquanto ente, ele é independente da relação. Coisa-em-si, portanto, tem sentido puramente gnosiológico. Logo, em um quadro realista, a coisa-em-si é puramente gnosiológica. Não se trata, aqui, de qualquer mudança ontológica do ente que se apreende pelo sujeito como os fenômenos podem enganar. Por exemplo: uma das propriedades das formações cosmológicas é não possuir ponto zero e, por isso mesmo, apresentar simultaneamente todos os seus lados no espaço cósmico. O argumento segundo o qual haveria uma impossibilidade intrínseca e ontológica de um corpo manifestar todos os seus lados ao mesmo tempo, porque o homem só pode vê-los um a um, é, já na introdução, facilmente refutável.

Em primeiro lugar, a existência de uma formação espacial é independente do homem, algo reconhecido pelo realismo crítico. Contudo, a confusão não se esgota aí; ela provém de um equívoco mais profundo despercebido por este. No espaço real, não existe ponto zero. O ponto zero é um ponto de referência a partir do qual algo aparece para um sistema de coordenadas. Na teoria do conhecimento, esse sistema de coordenadas, longe de ser arbitrário, é determinado pela consciência que é sustentada por um organismo também espacial. Por isso mesmo, toda consciência ou todo sistema de referência introduz “direções” que não existem no espaço real.

Isso significa que, de fato, um corpo manifesta simultaneamente todos os seus lados, ainda que não para uma única direção privilegiada. Como esta, portanto, já implica um sujeito ou um sistema de referência extrínseco ao corpo, a suposta limitação ontológica fica sem sentido:

 

Mientras el objeto del conocimiento exista con independencia del sujeto y de su “aprehender” (c. 7) cabe hablar de un ser-en-sí del objeto. Primordialmente ese ser-en-sí es absolutamente de carácter gnoseológico; no significa una “cosa en sí” (ser-en-sí ontológico) ni un mero “ser ideal” (por ejemplo, un ser-en-sí lógico). Puede significar las dos cosas, pero no está sujeto a una de ellas. Por ahora significa más bien que por principio es independiente del grado en que sea conocido y por ende también cabalmente del sujeto. El ser-en-sí gnoseológico del objeto estriba en la esencia de la misma relación de conocimiento, pues todo objeto de conocimiento implica un ser independiente del conocimiento. En este “implicar” tenemos el motivo fundamental de que el conocimiento distinga su objeto de la representación del objeto (c. 5). La última ostenta la nota de “objetividad”; el objeto, la de “ser-en-sí”. La esencia de ambas notas se halla precisamente en su oposición”. [16] HARTMANN, Nicolai. Metafísica del conocimiento. Madrid: Revista de Occidente, 1957, t.1, p.73.

 

1.4 Os grupos de categorias da fábrica

O mundo real é real porque é temporal. O tempo é, ao mesmo tempo, uma categoria dimensional e a maneira de ser do real, a fronteira entre a idealidade e a realidade. Na esfera ideal, tudo é irreal (pois ser real já significa ser temporal); ainda assim, nela subsistem as categorias modais de possibilidade, efetividade e necessidade. Porém, como nessa esfera não há tempo, tampouco há processo, precisamente porque não existem estágios destinados a determinar-se no futuro. Isso significa que, nela, não existem possibilidades parciais (aquelas que necessariamente efetivar-se-ão num estádio vindouro). Todas as possibilidades ideais “já” são efetividades ideais. É por isso que, na esfera ideal, pode-se abarcar um número muito grande de pluralidade de possibilidades, o que não se segue na esfera real. No mundo real, as categorias manifestam-se duplicadas na consciência, pois possuem algum correspondente no mundo lá fora.

Por exemplo: o espaço da intuição só pode ser uma categoria gnosiológica (intuição) porque é, antes disso, uma categoria do mundo cósmico na sua manifestação ôntica primária. Já a categoria da “finalidade” faz-se sentir mais no homem como categoria do estrato espiritual do que no ser das coisas, pois, ao aplicá-la a estas, introduzir-se-ia um princípio teleológico na própria estrutura do real, algo que ainda não está demonstrado, pois em todas as vezes que fora usado, foi pressuposto antes já de toda a investigação.  A categoria cosmológica do processo não é tão evidente para a ratio cognoscendi, que só apreende a formação natural em repouso (os estados de equilíbrio), embora esteja começando a ser para o saber científico.

A categoria da relação real, contudo, abrange tudo o que existe, mas logo, erroneamente, desdobra-se em causalidade, ação recíproca ou substância como se vê na tábua kantiana na Analítica. Essas três categorias, entretanto, não se aplicam ao estrato psíquico: sua validade estende-se apenas até o domínio do orgânico, onde ainda organizam o mundo real.  A categoria da substância (substrato + persistente) só existe no estrato inorgânico. Todas as outras formas de “substrato”, “consistência”, “permanência” e “conservação” aparecem separadas e pertencem a outras categorias.

Logo, não há a substância de uma árvore, ou um “eu substancial”, e nem a substância universal da história, porque, conforme Hartmann afirma:

 

No hay retorno de la categoría de sustancia en los estratos superiores del ser. No, al menos, si se entiende la sustancia en el riguroso sentido de la síntesis de la persistencia y el sustrato. Por eso tampoco puede hablarse de una variación de la sustancia. Pero sí hay una variación de la persistencia, o sea, de uno de los momentos de la síntesis. Pues no toda persistencia en el mundo es la de un sustrato, ni todo lo persistente es sustancia.Cabría, pues, y justamente por tal razón, dejar aquí a un lado el retorno de la persistencia y su variación en los estratos del ser. Pues de hecho ya no pertenece el tema al estricto y propio problema de la sustancia. Pero la variación de la persistencia sin sustrato y sin la forma de la sustancia, desempeña un considerable papel en la fábrica del mundo real, e incluso en el estricto de la naturaleza. Y como la persistencia es, una vez más, uno de los momentos fundamentales de la sustancia, en esta categoría está, a pesar de todo, el lugar de traer a consideración las demás formas de aparecer la persistencia.Puede formularse la cuestión de esta variación también así: ¿qué hay de persistente en el mundo fuera de la sustancia? Esta cuestión tiene un alto interés en un doble sentido; primero, porque la sustancia ha revelado ser algo persistente tan sólo relativamente; y segundo, porque su persistencia no da satisfacción al interés del hombre por la conservación de lo importante y valioso para él”. [17]HARTMANN, Nicolai. Ontologia IV: filosofía de la naturaleza: teoría especial de las categorías (categorías dimensionales y categorías cosmológicas). México: Fondo de Cultura Económica, 1960, … Continue reading

 

As categorias que estruturam a fábrica do real são as modais, fundamentais, dimensionais, cosmológicas e organológicas. As primeiras determinam o modo de ser deste mundo e sua respectiva investigação é a mais geral e abstrata. As fundamentais constituem a “ossatura” da fábrica já inserida no fluxo temporal, sendo, por isso, processuais de ponta a ponta. As dimensionais são o espaço e o tempo: o espaço é o complexo no qual se articulam as formações naturais, enquanto o tempo, além de ser uma dimensão, é a própria maneira de ser do real. As categorias cosmológicas explicam a diversidade no estrato inorgânico desde o átomo até as nebulosas; contudo, a categoria do processo, que lhes pertence, manifesta-se, ainda que sob formas modificadas, em todos os demais estratos, pois ela expressa o próprio real em marcha no tempo.

Já as categorias organológicas são as mais particulares e específicas (quase um saber puramente científico) e estão em constante desenvolvimento nas ciências biológicas e abrangem todo o “complexo vivo”, desde a primeira unidade dinâmica viva, a célula, até a legalidade específica das espécies em contínua mutação e pretende explicar o processo produtor da forma tanto nos invertebrados, quanto nos vertebrados.

1.5 O método no mundo real

Qualquer tipo de método ou conjunto de proposições não existem senão para o homem. Seria muito antropomorfismo uma filosofia que acreditasse que Deus fez esse mundo “para” o homem. Uma filosofia fundada nessa teoria explicaria “demasiadamente muito” justamente porque não explicaria nada, assim é, por exemplo, com a harmonia preestabelecida de Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716) ou com qualquer outro princípio.

Para Hartmann:

 

A demanda por um “princípio maior,” o “incondicionado,” ou para o “absoluto” está enraizada nessa suposição. A ἀρχὴ ἀνυπόθετος de Platão e o “Primeiro Motor” de Aristóteles são, por esses motivos, colocados acima do Reino das Ideias/Formas. A forma clássica da ideia de unidade aparece em Plotino. Ele chamava o maior dos princípios simplesmente de “Uno” (ἕν/hen), em si mesmo além de toda multiplicidade e divisão, portanto também “além do ser ou do pensamento”. A tendência histórica que procedeu deste ponto levou à ideia da coincidentia oppositorum, que, segundo Nicolau de Cusa, coroa todo o sistema de coisas existentes. Não há razão alguma para contestar o monismo neste sentido, tomado por si só. Ele é tão pouco contraditório quanto é a teleologia-mundo, ou o conceito cosmológico de Deus. Ele é também tão pouco corroborado por fenômenos. Isso faz dele errado, pelo menos como uma expectativa. Se uma Análise Categorial tivesse nos levado a ele, seria outra história. Não obstante, sempre que o encontramos, ninguém está falando em uma tal descoberta – por todos os lugares ele é simplesmente pressuposto, seja explicitamente ou implicitamente”. [18]HARTMANN, Nicolai. Como é possível uma ontologia crítica. Tradução de Felipe Augusto Romão e Otávio S. R. D. Maciel. ANÁNSI: Revista de Filosofia, [S. l.], v. 1, n. 2, p. 159–212, 2020. … Continue reading 

 

Ao místico cabe rezar; ao investigador, porém, cabe desmembrar fio por fio as relações dinâmicas do real e determinar suas categorias, a fim de compreender algo de fato. Essas categorias, contudo, não são “conceitos”  e nem “fórmulas”. A fórmula da queda livre não é a queda livre. A fórmula da oxirredução não é a oxirredução. O mesmo para os conceitos, leis e legalidades. O conceito e lei de uma simetria radial da estrela-do-mar não é nem a estrela marinha e nem sua efetiva simetria já nela. Esse confronto se faz sentir pelo fato do físico só ter acesso ao singular quando, na verdade, procura o geral. Esse “geral” é a legalidade universal dos processos naturais que se desenrola no tempo mediante uma lei. O que significa “lei” e “legalidade” é assunto para as categorias cosmológicas, mas que, aqui, já devem ser introduzidas a fim de introdução.

Mesmo que se identifique certas categorias, sempre haverá algum ingrediente incognoscível nelas. Ele não precisa derivar de uma muralha absoluta da ratio cognoscendi. O incognoscível em uma relação causal (causalidade) é simplesmente a totalidade das condições. Mas a ciência, pouco a pouco, transforma o incognoscível em cognoscível tão logo descortina as condições e, assim, amplia o saber gnosiológico. A intuição de um homem comum intui um objeto qualquer. A intuição imediata de um médico intui, também, a doença de uma animal caso esta se manifeste na cor nos olhos. O que se passa despercebido por um, é apreendido imediatamente pelo outro, como se este “visse” o fator de dependência; e, assim, descobre-se o desconhecido pelo conhecido.

1.6 Introdução das categorias dimensionais à investigação

Desde que Aristóteles atribuiu às categorias o status de predicado, seu modo de ser tornou-se ambíguo. Não se sabia ao certo se essas “definições” diziam algo a respeito apenas dos juízos que o homem pode ou não atribuir à substância, mas também se dizia algo a respeito do ser da coisa; ou a ambos, embora esta última tese só tenha aparecido após a filosofia de Edmund Husserl (1859-1938) e, quando digo isso, não me refiro nem à corrente que originou-se com Heidegger, nem com a de Sartre; porém, refiro-me a uma outra muito distinta e praticamente desconhecida, mesmo que hoje biólogos e físicos estejam lhe dando toda a atenção.

Refiro-me à Ontologia de Hartmann: a tese segundo a qual as categorias estão vinculadas tanto ao ser da coisa, quanto à percepção, não poderia ter vindo antes da tábua de juízos de Kant e antes dos modos de aparição de Husserl, pois as sintetizam:

 

La forma en que en sí mismo Aristóteles introdujo el término ‘categoría’ acentúa en él, del modo más patente, el sentido de enunciado: las categorías son los predicados fundamentales del ente, que preceden a toda predicación más determinada, formando, por decirlo así, el marco de ésta. Pero entonces son, así lo parece, meros conceptos. Pues sólo se dejan predicar conceptos. Así vista, se vuelve la cuestión de las categorías de nuevo muy ambigua. ¿En qué interesan los enunciados en cuanto tales, es decir, juicios y conceptos? En el mejor de los casos, indican aquello que el pensar o creer humano ‘adjudica’ al ente, no lo que ‘conviene’ a éste en sí. ¿O será cosa de suponer que lo adjudicado al ente es idéntico a lo que le conviene, que el ‘enunciar’ está ligado firmemente al ser? ¿Dónde queda entonces el espacio libre para los errores humanos, incluso el todavía más amplio para el humano no saber y no poder saber?”. [19] HARTMANN, Nicolai. Ontologia III: la fábrica del mundo real. México: Fondo de Cultura Económica, 1959, p.3.

 

A forma como esta tese se conduz durante o percorrer das aporias filosóficas demonstra que os termos empregados pela primeira vez por Aristóteles, como o tempo, espaço e causalidade, não só precisam de estudo separado, como se diferenciam da passagem do ser para a percepção. Existe, também, uma “fusão” entre a esfera ontológica e gnosiológica, assim como a da inter-relação entre ambas. Isso se mostrará [20]O presente artigo corresponde apenas à primeira das 32 categorias analisadas de modo sistemático em uma obra mais ampla, já concluída e destinada à publicação: “Da philosophia prima à … Continue reading muito claramente em relação à magnitude do tempo da intuição. Logo, no campo ontológico, as categorias são princípios do concreto, o que não se segue no campo da percepção. Outro ponto é que, mesmo sendo princípios em um sentido, estes não são todos homogêneos. O que quero dizer é que o tempo, por exemplo, não se privilegia em ter o mesmo isomorfismo para com a causalidade. A homogeneidade categorial (já que todas as categorias reais referem-se ao mesmo mundo) é devida à obra do tempo, pois aquelas são todas perpendiculares a este.

Essa separação acontece até mesmo na filosofia kantiana, em que o tempo é uma intuição e a causalidade é um conceito. O tempo ontológico, assim como o espaço ontológico, são condições do extenso na existência; ou seja, são de natureza distinta da causalidade. Mas até mesmo o tempo e espaço diferem entre si. Por algum motivo, o tempo abarca toda a fábrica do mundo real, enquanto o espaço; somente uma parte dela, tanto que a consciência é inespacial, mas tem vivências, ou seja, é temporal. Este mesmo ponto de vista pode ser encontrado em Kant [21]“O tempo é a condição formal a priori de todos os fenômenos em geral. O espaço, enquanto forma pura de toda a intuição externa, limita-se, como condição a priori, simplesmente aos … Continue reading, pois o tempo, em oposição ao espaço, diz respeito tanto aos objetos do sentido exterior, quanto aos do sentido interior, abarcando todo o mundo fenomênico, mesmo ambos sendo puras intuições. Porém, tem de ter um motivo, suficientemente bom, que explique essa nobreza temporal ante ao espaço, tanto em filosofias realistas modernas, quanto nas idealistas críticas.

Neste sentido, cada categoria enumerada por Aristóteles tem de ter sua natureza própria no mundo e na percepção, assim como tem de ter a natureza da própria fusão (quando houver), não podendo serem simplificadas somente a um desses aspectos, pois assim, aporias surgirão não importando o giro verbal que se dê para impedi-las. Nesta temática, porém, tratarei de enumerar os pontos que diferenciam e individualizam o tempo real do intuitivo e do ideal, bem como o espaço real do intuitivo e do ideal; cada qual com especificações próprias e, posteriormente, as propriedades do complexo pluridimensional.

 

2§ Espaço


Tradicionalmente, o espaço era considerado o lugar em que se localiza um corpo, assim como o seu limite imóvel. Não existia espaço onde não existissem corpos. De certa maneira, esta é uma tese contra a existência do vazio em contraste com o cheio, o que é um vislumbre e até um eco do contraste entre o Ser e o Não-Ser. O espaço, portanto, não seria nem o cheio e nem o vazio, justamente porque, por carecer de forma, era tratado negativamente como o que não é, mas precisa estar lá para que o corpo preencha seu respectivo receptáculo. O espaço, neste sentido, não “existe” como existem os corpos, embora ambos sejam igualmente reais. Sua realidade reside justamente em estar vinculado àquilo que devidamente “existe”, mesmo que esta definição sirva tanto para o espaço real, quanto para o intuitivo, pois ambos acabam se tornando condiçãoEssa definição, como já se percebe, não diferencia em nada o realismo do idealismo.

Porém, os antigos não tinham noção do intuitivo e tudo acaba voltando-se ao real e este sempre era finito, pois as coisas são finitas. O espaço infinito foi adicionado quando se distinguiu entre o espaço real e o “imaginário”; este sim, potencialmente infinito. Surge, juntamente com isso, a distinção escolástica entre locus, situs e spatium. O primeiro refere-se ao conceito aristotélico de lugar e é contingente como limite de um corpo continente. O segundo, à posição entre os corpos, podendo existir dois locus em situs diferentes, como o homem que pode estar de pé ou deitado, ou dois livros empilhados de forma diferente. O terceiro não existe per si, pois é fruto de abstração, tornando-se, geometricamente, mensurável, como a distância entre dois pontos. [22] FERRATER MORA, José. Dicionário de filosofia. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2000, t.3, p.872. Essas três definições (mesmo que a terceira possa ser considerada um “vazio”) de maneira alguma são, pois são todas propriedades da quantidade: o corpo extenso, a disposição, o movimento, a distância, o efeito de forças e a pressão.

De acordo com Hartmann:

 

Hay en el reino de la naturaleza una multitud de oposiciones especiales, con las correspondientes dimensiones, que se hacen presentes en las especies de lo mensurable. Mensurables son el peso, la densidad, la fuerza, la velocidad, etc.; las correspondientes dimensiones son corrientes ya para la conciencia ingenua —en las oposiciones de lo pesado y lo ligero, lo denso y lo raro, lo fuerte y lo débil, lo rápido y lo lento. Forman los sustratos físicos de la cantidad. Su múltiple dependencia mutua, apresable en fórmulas de leyes, no acaba con su índole peculiar. Pero todas ellas tienen ya por base el sistema de las dimensiones del espacio y el tiempo. En varias es esto inmediatamente evidente, como en la velocidad; en otras, únicamente puede descubrirse por medio de una consideración especial. Las cuatro dimensiones del espacio-tiempo forman categorialmente, por tanto, la previa condición general de su diferenciación. Constituyen las dimensiones fundamentales del mundo natural y ocupan, por consiguiente, una posición especial. Son más fundamentales y más elementales que aquéllas. Esta su posición aparte justifica el designarlas como las “categorías dimensionales” en sentido estricto, y anteponerlas a todas las demás categorías de la naturaleza. Si también en otro respecto son las más fundamentales, únicamente podrá ponerse de manifiesto en el curso de la investigación”. [23] HARTMANN, Nicolai. Ontologia IV… Op.cit., p.51.

 

Neste ponto, inexistia um conceito válido para um espaço “vazio” que, na física de Isaac Newton (1643-1727), viria a ser o espaço absoluto. Porém, quando René Descartes (1596-1650) o apresentou como res extensa, sua definição já pairava entre substância, acidente, qualidade, propriedade ou relação entre os corpos. Esta última é a investida de Leibniz. Para ele, só as mônadas eram substâncias. Durante suas discussões com Samuel Clarke (1675-1729), a expressão “simultaneidade” [24]“A noção de extensão não é primitiva visto ser possível a decomposição em seus elementos. No extenso se requer que haja um todo contínuo no qual exista simultaneamente uma pluralidade. E, … Continue reading não só surgiria, mas permaneceria quase intocada, já que é utilizada tanto pelos neokantianos, quanto por Carvalho, que rejeita o kantismo.

2.1 Espaço e tempo kantianos

2.1.1 Intuições puras

Foram os avanços da matemática e da física que fizeram com que Kant se dispusesse a analisar a natureza do espaço e sua relação com as coisas, assim como foram esses mesmos avanços que, agora, tornam sua descoberta faltante. Digo “descoberta” pois uma noção de espaço intuitivo inexistia entre os antigos e medievais; o que, consequentemente, gerou aporias cujas soluções só podem surgir através de um acordo entre os realistas. Esta união, absolutamente necessária, só poderá ser melhor inteligida ao final da temática; mas que, no seu desenrolar, pistas serão percebidas. No espaço intuitivo, residem dois problemas: o da adaptação do objeto à consciência e o do contraste entre o necessário e o contingente. Este segundo diz que todo fato empírico é contingente e, portanto, a experiência só poderia doar conhecimentos desta mesma ordem, caso somente dela dependesse os juízos.

Neste sentido, os axiomas necessários da geometria já não poderiam se apoiar em nenhuma faculdade humana, exceto aquela que lhe dá o conhecimento do necessário e este, por definição, não poderia vir “tão somente” da experiência (mesmo sendo ela quem lhe dá o conhecimento posterior do que a possibilita); caso contrário, “possuiriam, assim, toda a contingência da percepção e não seria necessário que entre dois pontos houvesse apenas uma só linha reta”. [25]“Sobre esta necessidade a priori fundam-se a certeza apodítica de todos os princípios geométricos e a possibilidade da sua construção a priori. Efetivamente, se esta representação do espaço … Continue reading O segundo problema diz respeito àquilo que já era conhecido desde São Tomás de Aquino: quidquid recipitur, recipitur ad modum recipientis, ou seja, tudo o que é recebido, é recebido segundo o modo do recipiente. Este fenômeno pode muito bem ser comprovado observando o exemplo da “cor” que, conforme diferentes olhares, muda de característica.

Este é um dos motivos pelos quais o Sol manifesta-se através de cores discrepantes: vermelho, laranja, amarelo, verde, violeta e anil. Ambos os problemas estão ligados à Estética e a solução visada por Kant os resolve com uma única teoria: a de que o conhecimento é estratificado, ou seja, dá-se mediante camadas de natureza distintas. Elas são duas: (a) sensibilidade (b) entendimento. Na percepção, o que é intuição não pode ser conceito e vice-versa. Do problema da necessidade dos axiomas reside a Demonstração Transcendental e o da natureza do espaço percebido como representação necessária, a Demonstração Metafísica. Kant, logo, argumenta que o espaço não pode ser uma substância como pensava Descartes e nem uma propriedade das coisas que continua a existir para o homem caso lhe arrancasse como num acidente ou caso se multiplique como num conceito. Este, portanto, torna-se condição e, assim, fica aquém de qualquer aporia que outra definição pudesse lhe causar, como a antinomia do finito e infinito.

A Estética diz que o tempo-espaço são “somente” formas puras da intuição e formam o estrato da Sensibilidade. A realidade empírica (realismo empírico) torna-se fenômeno para o homem. O espaço não é empírico porque não é abstraído da experiência; muito pelo contrário, é a possibilidade desta. A situação fica da seguinte maneira:

(a) espaço =  diz respeito aos objetos do sentido externo;

(b) tempo =  diz respeito aos fenômenos em geral;

(c) sensibilidade =  estrato receptivo passivo;

(d) entendimento = estrato espontâneo ativo.

Em ambos os casos, o sujeito acrescenta algo de si, e o objeto continua sendo o fenômeno configurado pela sensibilidade e pelo entendimento. Por aquele, o sujeito não aplica nada. Pelo contrário, ele aplica as categorias espontaneamente depois que a sensibilidade tornou possível a percepção através do espaço-tempo. Neste sentido, pelo entendimento, o sujeito pode errar. Já pela sensibilidade, ele não erra nem acerta, pois torna-se passivo e, quando percebe, já percebe por conta da intuição espaço-temporal, tornando-as condições universais de todo fenômeno percebido e representável em relação à uma experiência possível. Estas afirmações encaminham para a conclusão de que toda intuição é uma grandeza extensiva, pois necessariamente ocorre “no” espaço e “no” tempo.

As sensações são a matéria do fenômeno; o permanente é a substância do fenômeno. O que está para lá é a coisa-em-si, a condição do fenômeno, mas tão real quanto este. A relação coisa-fenômeno não pode ser de causa e consequência pois causalidade é uma categoria do entendimento, ou seja, perde sentido nesta situação. Esta filosofia se torna, portanto, contrária à relativista, pois as formas a priori são intersubjetivas; isto é, comuns a todos os homens, assim como há também  a “validade objetiva” entre as categorias do sujeito e as categorias do objeto ao passo que, mesmo que se fala no sujeito (subjetivismo) tudo ali é objetivo. Pelo tempo e espaço estarem na mesma natureza estratificada da sensibilidade, ambos foram considerados homogêneos.

Mas esta definição, embora responda a muitas coisas, deixa de resolver outras, como, por exemplo, o porquê do tempo ter tanta preeminência mesmo sendo “tão intuitivo” quanto o espaço; o porquê do homem olhar primeiro para a direita do que para a esquerda; o porquê da percepção ser injusta quanto à posição horizontal em relação à monstruosa admiração pela vertical; o porquê da percepção só abarcar o que está perto do corpo físico; o porquê de quando se imagina um objeto, sempre há um “ponto zero” (direção) a partir do qual o objeto é pensado; o porquê da consciência (mesmo inespacial e sem ponto fixo) conseguir perceber distância; o porquê se pensou que as forças criam o espaço; o porquê há uma equivalência entre o sistema copernicano e ptolomaico de um ponto específico; o porquê de não ser necessário, quando se pensa em duas casas, pensar, também, em toda malha espacial que realmente as une; o porquê um mesmo corpo está, simultaneamente, em várias direções e velocidades ao mesmo tempo; o porquê há deformações quando se vê à distância, etc.

Existem, assim como podem existir, inúmeras respostas para todas essas perguntas, mas provavelmente elas não seguem o mesmo fio explicativo que levará a outras futuras respostas quando estas aparecerem sem se perder em meio a tantas aporias que os avanços da matemática e da física lhes cobram, como aconteceu, naturalmente, com Kant, Descartes e Leibniz.

2.1.2 O limite da Estética Transcendental

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References

References
1 Ver: CARVALHO, Olavo de. Edmund Husserl contra o psicologismo. Campinas: Vide Editorial, 2020. p.209.
2 N.E. Atendendo a solicitação do autor, as citações em língua estrangeira não foram traduzidas, a fim de manter a originalidade do idioma na qual foram escritas.
3 N.E. Quando há citações consecutivas da mesma obra (‘Ibidem’ ou ‘Op.cit’), o plugin de referências utilizado pelo site deste Jornal agrupa automaticamente as notas referenciais, ao invés de reproduzir integralmente cada referência. Assim, devido ao funcionamento estrutural do plugin, as notas que aparentemente estiverem sem texto devem ser lidas como correspondentes a ‘Ibidem’ ou ‘Op.cit’.
4 HARTMANN, Nicolai. Ontologia I: fundamentos. 2. ed. México: Fondo de Cultura Económica, 1965, p.38-39.
5 HARTMANN, Nicolai. Ontologia I… Op.cit., p.57.
6 HARTMANN, Nicolai. Realidade lógica & ontológica (1915). Tradução de Isaías Klipp. Proscênio Filosófico [S. l.], 9 abr. 2023. Disponível em: https://prosceniofilosofico.com.br/2023/04/09/realidade-logica-realidade-ontologica-1915-nicolai-hartmann/. Acesso em: 06 jan. 2026.
7 Ver: CARVALHO, Olavo de. Filosofia da ciência: princípios metafísicos e problemas modernos. Campinas: Vide Editorial, 2025, p. 17-21.
8 HARTMANN, Nicolai. Ontologia I: fundamentos. 2. ed. México: Fondo de Cultura Económica, 1965. p. 11.
9 Ver: SANTOS, Mário Ferreira dos. Filosofia concreta. São Paulo: Editora Filocalia, 2020. p.369.
10 HARTMANN, Nicolai. Ontologia I… Op.cit., p.11.
11 HARTMANN, Nicolai. Ontologia II: posibilidad y efectividad. 2. ed. México: Fondo de Cultura Económica, 1986. p.193.
12 Ver: CARVALHO, Olavo de. A unidade de sujeito e objeto. 15 jul. 1999 [aula do Seminário de Filosofia]. Transcrição disponível em: https://olavodecarvalho.org/a-unidade-de-sujeito-e-objeto/. Acesso em: 06 jan. 2026.; CARVALHO, Olavo de. Inteligência e verdade: ensaios de filosofia. Campinas: Vide Editorial, 2021, p. 105-148.
13 HARTMANN, Nicolai. Ontologia I… Op.cit., p.18-19.
14 HARTMANN, Nicolai. Ontologia I… Op.cit., p.96.
15 HARTMANN, Nicolai. Ontologia I… Op.cit., p.97.
16 HARTMANN, Nicolai. Metafísica del conocimiento. Madrid: Revista de Occidente, 1957, t.1, p.73.
17 HARTMANN, Nicolai. Ontologia IV: filosofía de la naturaleza: teoría especial de las categorías (categorías dimensionales y categorías cosmológicas). México: Fondo de Cultura Económica, 1960, p. 334.
18 HARTMANN, Nicolai. Como é possível uma ontologia crítica. Tradução de Felipe Augusto Romão e Otávio S. R. D. Maciel. ANÁNSI: Revista de Filosofia, [S. l.], v. 1, n. 2, p. 159–212, 2020. Disponível em: https://revistas.uneb.br/anansi/article/view/10480. Acesso em: 06 jan. 2026 [citado na p.199].
19 HARTMANN, Nicolai. Ontologia III: la fábrica del mundo real. México: Fondo de Cultura Económica, 1959, p.3.
20 O presente artigo corresponde apenas à primeira das 32 categorias analisadas de modo sistemático em uma obra mais ampla, já concluída e destinada à publicação: “Da philosophia prima à philosophia última: introdução à Filosofia da Natureza de Nicolai Hartmann”. Neste artigo, trata-se exclusivamente da categoria do espaço, que constitui o ponto inicial desta investigação. Ao longo da exposição, contudo, serão inevitáveis referências a outras categorias (como tempo, processo, substância, causalidade, relação e complexo dinâmico), cuja análise própria não pertence ao escopo deste artigo, mas é desenvolvida nos capítulos correspondentes da obra integral. Tais trechos remissivos devem, portanto, ser entendidas como antecipações necessárias da estrutura categorial mais ampla em que a análise do espaço se insere, mas que só poderão ser contempladas no próprio livro.
21 O tempo é a condição formal a priori de todos os fenômenos em geral. O espaço, enquanto forma pura de toda a intuição externa, limita-se, como condição a priori, simplesmente aos fenômenos externos. Pelo contrário, todas as representações, quer tenham ou não por objeto coisas exteriores, pertencem, em si mesmas, enquanto determinações do espírito, ao estado interno, que, por sua vez, se subsume na condição formal da intuição interna e, por conseguinte, no tempo. O tempo constitui a condição a priori de todos os fenômenos em geral; é, sem dúvida, a condição imediata dos fenômenos internos (da nossa alma) e, por isso mesmo também, mediatamente, dos fenômenos externos. Se posso dizer a priori que todos os fenômenos exteriores são determinados a priori no espaço e segundo as relações do espaço, posso igualmente dizer com inteira generalidade, a partir do princípio do sentido interno, que todos os fenômenos em geral, isto é, todos os objetos dos sentidos, estão no tempo e necessariamente sujeitos às relações do tempo”. KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. 5. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001, A34/B51.
22 FERRATER MORA, José. Dicionário de filosofia. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2000, t.3, p.872.
23 HARTMANN, Nicolai. Ontologia IV… Op.cit., p.51.
24 “A noção de extensão não é primitiva visto ser possível a decomposição em seus elementos. No extenso se requer que haja um todo contínuo no qual exista simultaneamente uma pluralidade. E, para falar mais claramente, a extensão, cuja noção é relativa, requer, sem dúvida, que algo seja extensivo ou contínuo […] cuja repetição é a extensão”. LEIBNIZ, Gottfried Wilhelm. Escritos filosóficos. Madrid: A. Machado Libros S. A,  2003, p.494-495.
25 “Sobre esta necessidade a priori fundam-se a certeza apodítica de todos os princípios geométricos e a possibilidade da sua construção a priori. Efetivamente, se esta representação do espaço fosse um conceito adquirido a posteriori, e haurido na experiência externa geral, os princípios de determinação matemática outra coisa não seriam que percepções. Possuiriam, assim, toda a contingência da percepção e não seria necessário que entre dois pontos houvesse apenas uma só linha reta; a experiência é que nos ensinaria que sempre assim acontece”. KANT, Immanuel. Crítica da razão pura… Op.cit., B39 [nota de rodapé].
Jorge Teixeira

Jorge Teixeira é estudante de Filosofia, residente em Campinas, São Paulo. Dedica seus estudos principalmente à investigação da obra do filósofo báltico Nicolai Hartmann (1882–1950).

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