O Processo Maurizius e o personagem onisciente

  • Everton de Holanda
  • 14 mar 2022

Jakob Wassermann (1873-1934), considerado o Dostoiévski do século XX, ao construir o seu romance psicológico intitulado “Der Fall Maurizius” (O processo Maurizius), selou o seu legado como romancista. Na época de 1900 e 1910, Jakob Wassermann não produziu romances dignos de valor simbólico. [1] Otto Maria Carpeaux, História concisa da literatura Alemã, “Simbolismo e maturidade”.   Faltava-lhe referências estrangeiras. Suas produções ideológicas, como Mein Weg als Deutscher und Jude (Meu caminho como alemão e judeu), mostravam uma duplicidade tensional entre o seu amor invariável à velha Alemanha românica e a fidelidade à justiça humana e social do judaísmo. Até então, nada disso colocava-o na escala universal dos cânones literários. Todavia, em “O processo Maurizius”, o salto é visível. Um romance que mostra uma situação nebulosa e obscura onde os traços dos personagens ficam completamente sedados perante a grande situação do enredo.

Desde os primeiros capítulos, observamos a situação perturbadora em que Etzel Andergast se encontra: a personalidade do Barão Andergast, pai de Etzel, sufoca qualquer tipo de questionamento, dúvida ou participação nas decisões domésticas. A identidade de sua mãe lhe fora negado pelo pai. Como não conhecia sua mãe, Etzel foi criado pelo pai, babá e avó. O grande mote da obra é a justiça que se corrompe – que assume ações contrárias ao seu significado jurídico e eterno. Como se descobriu a injustiça, bom, não contarei – não quero acabar com a experiência literária dos leitores que decidirem ler a obra –, mas entendam o seguinte: toda a áurea nebulosa, em que os personagens estão, faz parte de uma grande situação – em que ninguém consegue enxergar a sua influência; e isso é nítido na obra.

Por exemplo, quando Etzel, no início do livro, vê o tempo todo um senhor de chapéu de marinheiro. Ninguém sabe quem é o velho, e, toda vez em que o encontramos silencioso, com expressões faciais inaudíveis, temos a impressão de que vai acontecer alguma catástrofe. É impressionante esse suspense silencioso, e quase diabólico, da trama. Os personagens estão vivos, mas a situação é quem dita as regras. Assim como o velho é misterioso, a situação também é. O velho é apenas um símbolo-parte [2]Termo usado pelo filósofo português João Poinsot para explicar o fenômeno dos signos. Os signos são parte de um objeto que observamos e que aponta para algo – coisa que, naturalmente, não … Continue reading de uma situação maior. O grande personagem onisciente da obra é a Europa.

O mundo modificou a mentalidade social que nem mesmo um indivíduo em particular consegue entender o que se passa consigo mesmo. A noção de justiça, moralismo, o lugar da família como estrutura basilar, foram gradativamente sendo solapadas pelas agendas ideológicas. Etzel, o Barão Andergast, apesar de não serem vítimas de nada – mesmo tendo a influência da cultura alemã e ocidental em suas veias –, não protagonizam ações e atitudes que partiram das suas próprias decisões. Ao fim da obra, não sabemos o porquê de Etzel ter agido como agiu. Mas conseguimos ver que um personagem onisciente conseguiu desestruturar todos os personagens presentes no livro. “O processo Maurizius” é uma ótima obra para conhecer a Europa atual e o resultado de suas influências na vida humana.

References

References
1 Otto Maria Carpeaux, História concisa da literatura Alemã, “Simbolismo e maturidade”.
2 Termo usado pelo filósofo português João Poinsot para explicar o fenômeno dos signos. Os signos são parte de um objeto que observamos e que aponta para algo – coisa que, naturalmente, não conseguimos abarcar o seu conhecimento como um todo. Para um aprofundamento sobre o assunto, ver aula 401 do curso Online de Filosofia do professor Olavo de Carvalho.
Everton de Holanda

Éverton de Holanda, é escritor, colunista e professor de literatura e escrita.

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